A Folha de São Paulo tem a tradição de supervalorizar números, estatísticas e outros tipos de dados em sua cobertura esportiva. Essa tendência até foi reduzida nos últimos anos, mas era extremamente forte na segunda metade da década passada, com tratamento para o futebol semelhante ao que a imprensa norte-americana dá ao beisebol ou ao basquete. Usando números para explicar tudo. Ou tentar. Por ter sido publicado originalmente em 1997 e ter como autores Valmir Storti e André Fontenelle, repórteres de esportes da Folha na época, o livro “A História do Futebol Paulista” foi elaborado com essa filosofia.
O princípio de seguir tal linha editorial é levar ao extremo o conceito de neutralidade jornalística, valorizando fatos consumados e supostamente incontestáveis (como dados estatísticos) em detrimento de interpretação, suposição ou opinião. A “orelha” escrita por Matinas Suzuki Jr., então diretor do diário paulistano, deixa claro isso: “(...) André e Valmir são dois jovens formados pela Folha dentro do espírito do novo jornalismo esportivo no qual acreditamos: mais informativo do que opinativo, mais baseado em números e estatísticas do que em suposições, mas preocupado com a correção histórica do que com o passionalismo que tanto atrapalha a imprensa esportiva brasileira”.
Pode até parecer correto, mas há uma confusão de conceitos. Primeiro, porque mesmo na forma de elaborar as estatísticas ou na definição de que números são levados em consideração há um caráter interpretativo. Afinal, são critérios. Além disso, é possível ser interpretativo sem ser passional. E, principalmente, nem todos os fatos podem ser transformados em números e nem todas as perguntas são respondidas por números. E é na ausência desses fatos e dessas respostas que a obra peca.
O início da obra conta com estatísticas gerais do Paulistão, como média de gols do torneio em cada ano, campeões, artilheiros, ranking histórico de clubes e recordes. Nesse momento, já é possível ver como mesmo os números e as estatísticas levam a distorções e não traduzem a realidade de forma tão clara. O ranking dos melhores clubes na história do campeonato tomou como base o aproveitamento de pontos de cada equipe em cada edição do torneio. Tal critério favorece times que disputaram poucas edições e, principalmente, não age da mesma forma em quem jogou antes de 1994 (quando a vitória valia apenas dois pontos) e em quem participou da competição a partir da 1995.
Os cinco primeiros colocados até são os esperados: pela ordem, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Santos e Portuguesa. O problema aparece na seqüência. O sexto colocado é o Paraguaçuense, que disputou apenas uma edição do torneio, no Grupo A-2 de 1995 (uma espécie de Segundona, mas cujo campeão ia para a fase final). Clubes muito mais tradicionais e importantes (com todo o respeito ao representante de Paraguaçu Paulista), como Guarani e Ponte Preta, ficaram atrás, em 7º e 8º.
Depois das introduções, o livro via direto às edições do torneio. Cada ano, de 1902 a 1996, recebeu duas páginas. Uma conta com tabela de classificação, ficha técnica da partida decisiva, perfil de um personagem, resumo do regulamento e algumas curiosidades. A outra tem uma grande foto e um pequeno texto (cerca de seis parágrafos) com uma síntese do torneio.
Parte de estatísticas está boa e mostra a grande pesquisa que os autores fizeram, tanto que a obra se tornou referência em história do Campeonato Paulista quando a primeira edição foi lançada. Porém, a página perde, e muito, com a ausência da tabela dos jogos. Até porque, se foram pesquisadas todas as partidas, não custava colocar os resultados das partidas.
O grande problema está no resumo do campeonato. É muito curto e não transmite emoção. Não explica como o torneio se desenvolveu, quais as equipes fortes da competição, como elas eram formadas, as surpresas do interior, as decepções, os motivos de equipes favoritas terem jogado mal e, no caso da primeira edição, com foram os bastidores da organização do primeiro torneio de futebol no Brasil. Isso tudo não pode ser contado pelos números e, como os autores fizeram uma grande pesquisa, poderiam ter dado mais espaço a essas informações.
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“A História do Campeonato Paulista” foi republicada em 2001, com um encarte de atualização em relação à edição original. A publicação ainda pode ser encontrada em livrarias e em sites.
Ubiratan Leal