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20/07/05

Histórias

Os 105 anos do Rio Grande

O Rio Grande é o clube mais antigo do Brasil ainda em atividade e, por causa disso, sua data de aniversário (19 de julho, ontem!) é considerada Dia Nacional do Futebol. Tudo isso é chavão e não representa novidade alguma. Porém, diante da trajetória anônima do tricolor riograndino nas últimas décadas, muitos podem se perguntar o que o clube fez em todos os seus 105 anos de existência.

A própria condição de pioneiro do Rio Grande merece algumas considerações. Primeiro, Flamengo (1895), Vasco (1898) e Vitória (1899) foram fundados antes do Rio grande, mas só incorporaram o futebol em suas atividades já no século XX. Mesmo assim, fica a dúvida: se o paulista Charles Miller é o precursor do futebol no Brasil, por que o clube mais antigo do país não é de São Paulo?

Na verdade, os quatro primeiros clubes do futebol brasileiro eram realmente paulistas. Em 1894, o São Paulo Athletic Club incluiu o futebol a seus esportes (o principal era o críquete). Em 1898, o Mackenzie College fundou o primeiro clube de futebol de brasileiros. No ano seguinte, surgiram o Sport Club Internacional e o Sport Club Germânia. Porém, até a década de 1930, todos esses clubes já haviam sido extintos ou abandonado o futebol profissional. Dessa forma, o Rio Grande, na realidade o quinto clube de futebol mais antigo do Brasil, se tornou o primeiro.

Como nos pioneiros paulistas, a influência estrangeira foi fndamental para a criação do tricolor. Por causa de seu porto, Rio Grande, cidade mais antiga do Rio Grande do Sul, era cenário de diversos bate-bola entre marinheiros ingleses. Ao tomar contato com o jogo, jovens riograndinos – entre os quais muitos imigrantes alemães e ingleses – decidiram montar um time para enfrentar os marinheiros.

O maior entusiasta da idéia foi o alemão Johannes Christian Minnemann, que conhecera o futebol em Hamburgo, antes de vir ao Brasil. A fundação estava marcada para 17 de julho, mas a reunião teria lugar no Clube Germânia, que acabou não aceitando em um primeiro momento um evento que contasse com a presença de não-alemães. Foram necessários dois dias de discussões até convencer os associados e, aí sim, criar o Sport Club Rio Grande. Com ata de fundação redigida – em alemão – por Minnemann. As cores vermelho, verde e branco foram escolhidas em 1901 como homenagem ao Rio grande do Sul.

No início, a ausência de outros clubes no Estado obrigava o Rio Grande a jogar sozinho. Foram vários os jogos de demonstração do Rio Grande A contra o Rio Grande B pelo interior gaúcho e até Porto Alegre. Os riograndinos contam, inclusive, que uma das partidas entre o time A e o B na capital em 1903 inspirou alguns porto-alegrenses a fundarem o Grêmio.

Durante muitos anos o Rio Grande foi soberano no futebol gaúcho. Tanto que só perdeu sua invencibilidade em 1909, para o Pelotas. Sua influência cresceu a ponto de, em 1910, realizar um amistoso com o Estudiantes de Buenos Aires e, no ano seguinte, com a seleção uruguaia. Naquela época, com o futebol já difundido no Estado, o Rio grande conquistou vários torneios municipais.

Isso foi possível porque, em 1908, o tricolor havia visto nascer seu principal rival local. Jovens riograndinos de origem portuguesa, ao acompanhar o Rio Grande, decidiram montar uma equipe para os brasileiros e lusitanos da cidade. Inclusive, pediram (e conseguiram) ajuda de dirigentes tricolores para a estruturação de seu time. O nome, São Paulo, é homenagem à cidade onde Adolpho Corrêa, fundador do clube, morou assim que chegara de Portugal. A nova equipe adotou as cores de Portugal, curiosamente as mesmas do Rio Grande. Devido á sua origem popular, o rubro-verde logo se tornou o clube de maior torcida na cidade. Outros rivais eram o Riograndense de Rio Grande (não confundir com os de Passo Fundo, Santa Maria e Cruz Alta) e as duas principais forças de Pelotas, Brasil e Pelotas.

O futebol se estruturara com rapidez na região. Em 1919, no primeiro Campeonato Gaúcho da história (um mini-torneio com vencedores de grupos regionais), o campeão foi o Brasil de Pelotas. O Rio Grande demorou a participar do Gauchãoe viu outros rivais também conquistarem o Estado, casos do Pelotas em 1930, do São Paulo em 1933 e do Grêmio do 9º Regimento Interno de Pelotas (atual Farroupilha) em 1935. O domínio do litoral sul gaúcho havia sido perdido, sobretudo para o Brasil de Pelotas, que já formava a que hoje é considerada a maior e mais fanática torcida do interior gaúcho.

Nesse período, o Rio Grande não disputou algumas edições do Campeonato Gaúcho. Por isso, a Ponte Preta, fundada 23 dias depois do tricolor riograndino, também se considera o clube mais antigo do Brasil, pois nunca interrompeu suas atividades. É questão de critério, mas a macaca campineira pode se considerar o clube com maior período de atividade.

Em 1936, o Rio Grande reapareceu com força. Passou por Grêmio do 9º Regimento Interno (atual Farroupilha de Pelotas) e Rio Branco de Santa Vitória do Palmar e conquistou a vaga da Zona Litoral no Campeonato Gaúcho. Na fase final, bateu o Novo Hamburgo por 5x2 e assegurou um lugar na final, contra o Internacional. Na decisão, os riograndinos venceram por 3x2 e 2x0 e se tornaram campeões gaúchos pela primeira (e até hoje única) vez. O time era formado por Munheco; Fruto e Cazuza; Juvêncio, Chinês e Sanglima; Ernestinho, Carruíra, Souza, Marzol e Pesce.

Um caso interessante que mostra a rivalidade em Rio Grande naquela época foi a disputa da Taça Confraternização em 1940. São Paulo e Rio Grande empataram no tempo normal e foram à disputa de pênaltis. Ainda assim, a igualdade insistiu em permanecer. O árbitro, então, decidiu dividir o título entre as duas equipes. Para o impasse não ir mais longe, os clubes serraram o troféu ao meio, com cada clube ficando com uma metade (foto).

Esse mesmo ano marcou o início a hegemonia de Grêmio e Internacional no futebol gaúcho. Mesmo com a manutenção do sistema de grupos regionais antes da decisão, os representantes de Porto Alegre eram sistematicamente campeões. O Rio Grande ainda conseguiu o vice-campeonato em 1941 (último ano do amadorismo no Rio Grande do Sul), mas o placar das finais contra o colorado é mostra da disparidade técnica que já havia: 9x2 e 6x2. Mais dez anos e o tricolor voltou à fase final. No caso, ficou em último em um triangular com Internacional e Pelotas.

O Campeonato Gaúcho assumiu o formato de grupo único e várias divisões em 1961. Para a formação da elite, foi escolhido apenas o campeão de Rio Grande no ano anterior, o Riograndense. Mas o Rio Grande venceu a Segundona em 1962 e, depois de bater o São José de Porto Alegre no Torneio da Morte, conseguiu uma vaga na Primeira Divisão.

Após décadas de intermitência, o Rio Grande voltou a participar com continuidade dos Campeoantos Gaúchos. Em 1963, o time ficou em 5º. Nos anos seguintes, porém, as capanhas foram fracas e, em 1969, o clube foi rebaixado. Voltou ao topo em 1971 com um inchaço do Gauchão. Com 11 pontos em 24 jogos, o tricolor caiu novamente.

O clube mais antigo do Brasil já enfrentava sérios problemas financeiros – agravados pelo investimento em um centro de treinamento – e não conseguia mais se manter competitivo nem diante de adversários do interior, sobretudo os caxienses Juventude e Caxias. Outra participação na Primeira Divisão só veio em 1975 após novo aumento no número de participantes do torneio. Na fase de classificação o tricolor foi bem, com o primeiro lugar em um grupo que contava com os rivais São Paulo, Riograndense, Pelotas e Farroupilha. Na fase final, no entanto, a equipe soçobrou, terminou em 18º (dos 20 participantes) e foi rebaixada.

Menos mal que, ainda em 1975, o clube teve seu pioneirismo oficialmente reconhecido. A Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul decretou que 19 de julho, aniversário do Rio Grande, era Dia do Futebol Gaúcho. Ainda em julho de 1975, a CBD registrou o Sport Club Rio Grande como o mais antigo do Brasil. E o centro de treinamento foi pomposamente inaugurado, inclusive com a presença do presidente João Figueiredo.

Nas temporadas que se seguiram, o desempenho do time foi mais prejudicado ainda pela decisão da diretoria de mudar de casa. O clube vendeu o estádio das Oliveiras e construiu o Arthur Lawson, além de erguer um centro de treinamentos e uma nova sede social e de lazer. Desde então, os tricolores riograndinos nunca mais conseguiram ir além da Segunda Divisão por pernas próprias. Em 1985 passaram pela Terceira Divisão gaúcha. E ainda tinham de ver um novo período de crescimento de Pelotas, Brasil e São Paulo. O rubro-negro alcançou as semifinais do Brasileirão de 1985. O rubro-verde disputou três edições do Brasileirão, conseguindo um histórico empate com o Flamengo de Zico em 1981.

O centenário do Rio Grande seria triste se o clube não recebesse uma homenagem diferente: uma vaga na Primeira Divisão em 2000. Como era apenas um prêmio ao 100º aniversário do clube, o tricolor seria rebaixado independentemente de sua classificação. O Rio grande fez uma campanha razoável para quem não via a Primeira Divisão de perto há 25 anos. Com 12 pontos em 12 jogos, ficou em 6º lugar no Grupo 1 da primeira fase, atrás de Esportivo de Bento Gonçalves, Caxias, São José de Porto Alegre e Veranópolis, mas à frente de Pelotas e Internacional de Santa Maria. Se não estivesse antecipadamente rebaixado, o Rio Grande teria escapado com essa campanha.

Nos últimos cinco anos, o Rio Grande luta ingloriamente por uma nova chance na elite gaúcha. Sua melhor campanha foi em 2002, quando foi eliminado na segunda fase da Segundona. Sendo que em 2003 quase caiu para a Terceirona mais uma vez.

Ubiratan Leal

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