A torcida do São Paulo nunca teve fama de ser muito fiel e participativa. Dizem que só aparece em grande número nas finais de campeonato. Há um pouco de mito nisso (sobretudo nos últimos anos, quando corintianos e palmeirenses também ficaram menos assíduos nos estádios), mas essa é uma das razões de poucos esconderem uma certa surpresa pelo fato de o Morumbi lotar em quase todos os jogos da campanha são-paulina na Libertadores nos dois últimos anos. Mas isso ocorreu pelo mesmo motivo de a conquista do torneio ontem ser tão significativa. Tudo porque, para o São Paulo, ser campeão da Libertadores é algo mais do que simplesmente ganhar um título importante.
Há décadas o São Paulo deixou de ser um clube exclusivo da elite paulistana. Ainda assim, seus seguidores – independente da classe social – mantêm um ar de soberba e superioridade em relação aos rivais regionais, mesmo que seja apenas para “manter a pose”. E os tricolores precisam dessa sensação como forma de cultivar a própria identidade futebolística, uma coisa que estava arranhada nos últimos anos e só a Libertadores poderia recolocar no lugar.
A base da identidade são-paulina sempre teve como princípio a mentalidade inovadora da diretoria e a vocação não-provinciana do clube. Assim, o tricolor sempre procurou manter grandes nomes – Leônidas, Zizinho, Sastre, Luizinho – em seu elenco, algo, por exemplo, diferente do Corinthians, que historicamente valoriza mais atletas com “amor à camisa” – Neco, Teleco, Tuffy. Também por essa soberba, o São Paulo levou a cabo o plano de construir um estádio para 150 mil pessoas na maior cidade do país.
No final da década de 1970 e início dos anos 80, o Santos procurava um caminho após a aposentadoria de Pelé e o Palmeiras iniciando seu período de 17 anos sem conquistas, os tricolores canalizaram seu sentimento no fato de serem – segundo eles – o mais “nacional” dos clubes paulistas. Não em torcedores, mas em conquistas. Importante lembrar que, na época, o Corinthians era conhecido por só jogar bem em campeonatos estaduais. Por isso, os tricolores não hesitavam em se considerar “campeões da década” (de 1980) e “clube do futuro”.
O início dos anos 1990 foi o auge para os são-paulinos. Tudo ajudava a alimentar a soberba, a sensação de superioridade. O clube era admirado por sua infra-estrutura e organização administrativa, o estilo de jogo era motivo de inveja dos adversários e até havia ícones como Raí. Comandado por Telê Santana, a equipe redescobriu a Libertadores no Brasil, em uma época que o torneio gerava uma quase indiferença no país de tão incômoda que era a seqüência de insucessos. A ponto de a edição de 1991 ter sido transmitida com exclusividade pela recém-criada Rede OM Brasil, atual CNT.
Tudo ia bem até a final da Libertadores de 1994. Até aquela derrota nos pênaltis contra o Vélez Sársfield no Morumbi. O orgulho são-paulino estava tão alto que o clube e seus torcedores não assimilaram aquele vice-campeonato. Como um golpe, os tricolores sentiram uma certa perda de identidade.
Para piorar, os pontos de orgulho dos são-paulinos foram minados pelos rivais locais. O Palmeiras, após a chegada da Parmalat, assumiu o posto de clube com mais craques e administração estável. E também conquistou o título sul-americano, que deixou de ser exclusividade tricolor (as glórias do Santos m 1962 e 63 são consideradas muito longínquas). O Corinthians deixou de se limitar aos Estaduais e conquistou o Brasil. Pior, em campo, o clube do Morumbi perdeu seu rumo até em nível nacional. Entre 1993 e 2004, sempre houve um clube paulista entre os dois primeiros do Brasileirão. Na lista estão Corinthians, Palmeiras, Santos, Portuguesa e até São Caetano. O São Paulo, não. Se via obrigado a tentar soar convincente ao dizer que tinha o melhor centro de treinamento do Brasil e revelava mais jogadores
Com o tempo, o São Paulo, que fez os clubes brasileiros voltarem a olhar para fora das fronteiras do país e que colocou a Libertadores na pauta das discussões de bar, passou a se alegrar apenas com Campeonatos Paulistas. Por mais que comemorassem, não podiam deixar de sentir um desconforto. Afinal, considerar o Paulistão como máxima aspiração não tinha “cara de São Paulo”, era “coisa de corintiano”. Ou pelo menos, do que eles sempre acusaram os corintianos de fazer.
A maior prova disso foi a declaração de Rogério Ceni ao fim dos 4x0 sobre o Atlético-PR: “agora não podem dizer que eu só ganhar título como reserva”. Ignorou que foi titular nos Paulistas de 1998, 2000 e 2005, além do Superpaulistão de 2002. Até porque ele, como maior símbolo do São Paulo de hoje, sabe que, para o São Paulo, título regional não faz tanta diferença.
Por isso, a obsessão são-paulina pela Libertadores era diferente da corintiana. Os alvinegros querem se igualar aos rivais em glórias para se imporem pela torcida. Os tricolores procuram recuperar sua própria identidade e recomeçar de onde pararam, naquela final da Libertadores de 1994. Ver o time na Libertadores, ainda mais com a taça na mão, fez os são-paulinos se sentirem mais são-paulinos. Cabe aos rivais agüentar as gozações e torcer muito pelo Liverpool.
Ubiratan Leal