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6/07/05

Cultura & Mídia

Ninguém vai falar da arquibancada?

A final vai ser o Beira-Rio mesmo e seguir com essa discussão das condições da Arena da Baixada (ou Kyocera), do Couto Pereira, do Olímpico Regional, do Café, do Monumental de Núñez ou do Allianz Arena de Munique não faz mais muito sentido. Até porque quase todos os argumentos já foram apresentados, mostrando como o Atlético-PR foi prejudicado em um certo sentido (o regulamento é injusto) e ingênuo em outro (pode ser injusto, mas é o regulamento, oras. A diretoria que se mobilizasse um pouco antes para contornar isso). Ainda assim, me incomodou como foi tratada a questão das arquibancadas tubulares construídas a toque de caixa pelo rubro-negro para quase dobrar a capacidade de seu estádio em três dias.

Muitos elogiaram a rapidez de ação do Atlético e chegaram até a dizer que a Arena tinha capacidade para 41 mil pessoas e poderia abrigar o jogo. Argumentaram que as tais arquibancadas metálicas tubulares são utilizadas em jogos de vôlei de praia, no GP do Brasil de Fórmula 1, na Arena Petrobrás (estádio Luso-Brasileiro) e nas partidas que o Santo André realizou no Bruno José Daniel por essa mesma edição da Libertadores. A Fifa não permite esse tipo de estrutura em jogos que organiza após um acidente que matou quase 100 torcedores em Bastia. Como a Fifa não organiza a Libertadores e, pelo visto, a Conmebol autoriza o uso desse tipo de construção, os paranaenses argumentavam ter respaldo.

E, por isso, digo que é uma extrema precipitação comprar tão rapidamente a versão da diretoria do Atlético para as tais estruturas. Toda obra precisa de projeto. O motivo é simples: uma obra nunca é igual a outra. As características do terreno mudam, o uso da edificação muda, as exigências estruturais mudam, a incidência de vento muda etc etc etc. Óbvio as condições particulares e específicas devem ser consideradas antes de fazer qualquer coisa (ou você acham que uma arquibancada feita nas areias da praia de Copacabana não têm um tipo de fundação diferente das feitas em Interlagos?). Além disso, a execução deve ser feita com cuidado para que cada especificação de material e de montagem seja atendida.

Eu seria leviano se dissesse que as arquibancadas tubulares da Arena foram mal-construídas. Mas, por ser uma obra feita em regime emergencial, com prazo curtíssimo, esta merecia, no mínimo, uma apreciação mais crítica por parte de todos, sobretudo da imprensa. Como o projeto foi feito? Qual o cuidado técnico com a montagem das estruturas? Foi contratada mão-de-obra especializada nesse tipo de serviço, sobretudo na solda (ponto crítico em estruturas metálicas)?

Podem até argumentar que um monte de entidades fez vistoria técnica e liberaram a obra. Mas qualquer mosca passando pelo bairro da Água Verde sabe que havia muitos interesses (inclusive por parte de políticos do Paraná) envolvidos na realização da final da Libertadores em Curitiba. Então, apenas uma situação catastrófica os técnicos convocados embargariam a obra. A obra pode ser perfeita, mas a imprensa e a população têm obrigação de desconfiar e também verificar isso, já que a situação é incomum e realmente pode gerar suspeitas.

É só mudar um pouco os personagens para ter melhor idéia disso. Imagine se um governante do Paraná (é hipótese, não quero apontar para ninguém, até porque voto em São Paulo) tivesse como uma de suas principais obras na área cultural um parque, com quadras de esportes, museu e um anfiteatro para shows ao ar livre. Por problemas de prazo e dinheiro, a obra atrasa. No início de setembro, começa uma correria para terminar tudo antes da eleição do mês seguinte, na qual esse político tenta novo mandato. Faltando uma semana para o pleito, tudo ficou pronto, menos a arquibancada do anfiteatro.

Desesperado, ele contrata uma empresa para montar rapidamente uma arquibancada tubular, só para poder inaugurar a obra a tempo. É claro que nenhum órgão impede a obra. Vocês acham que a imprensa paranaense não cairia de pau no serviço? Que não levantaria um monte de suspeitas a respeito da qualidade da obra e até que ponto um serviço feito às pressas não pode oferecer perigo a seus usuários?

Então, por que, quando o assunto é o jogo do Atlético-PR, não se tem o mesmo comportamento? O problema não é se o dinheiro é público ou não, mas a segurança do torcedor. Ela até pode estar sendo atendida, mas a passividade de todos diante desse cenário é muito incômoda.

Ubiratan Leal

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