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13/07/05

Cultura & Mídia

Joga 10

Um “reality show” sobre futebol. Como ninguém pensou nisso antes? Bem, já pensaram e fizeram. Primeiro na Itália e depois em outros países da Europa, emissoras apostaram na mistura dessas duas paixões e o Brasil correu atrás do formato. O resultado da investida brasileira atende pelo simpático nome de “Joga 10” e infelizmente ele revela uma "reality" não muito promissora para o nosso futebol: os garotos que tentam uma carreira profissional são alijados da criatividade cada vez mais cedo.

Provavelmente qualquer fanático por futebol rejeita clichês como “futebol moleque”, “ginga brasileira” e coisas do tipo. É igualmente repetitivo e inverdadeiro dizer que o “improviso anda separado da obediência tática” e que “o profissionalismo é primordial na formação da carreira”. Mas, ao assistir aos primeiros cinco episódios, dos dez que terá de “Joga 10”, fica difícil formular uma frase que não coloque esses dois times de chavões perfilados.

O comitê julgador do programa é formado por Dunga e Bebeto. Um camisa 8, que jogava como 5 e um camisa 7, ou 11, que sempre jogou como atacante e só. Zagallo, o mais carismático em frente às câmeras, teve problemas de saúde e se afastou do “Joga 10” em sua parte mais essencial: a seleção pessoal dos garotos que tentam o relativo estrelato em um time de base (do Fla ou do Corinthians).

Fora o sotaque excessivamente carioca do narrador, o programa é bem editado e bem produzido. Atletas profissionais em atividade participaram de alguns coletivos e a primeira etapa da seleção foi bastante emocionante. Mais de 3 mil meninos foram ao Parque São Jorge para fazer um pequeno teste de condução e domínio de bola. Como toda
peneira, foi injusto. Mas pelo menos foi realista e exigiu estrela dos aprovados.

As semelhanças com a realidade atual continuarão, mas infelizmente o sonho de jogar com a 10 passa por um caminho um tanto quanto enfadonho. Em treinamentos pouco criativos e coletivos (que são mostrados em flashs) os candidatos tiveram oportunidade de mostrar seu futebol. Mas, como mostrar habilidade em um treino de cruzamentos? Como jogar um coletivo onde todos do time têm que ser o 10? O “Joga 10” responde: basta ser medíocre!

Ramon e Taynã (apelidado de Tévez), os últimos dois “dispensados” do programa não eram medíocres. Como todos os novos talentos eles oscilaram entre uma bateria de testes e outra. Os demais que sobreviveram á seleção não fizeram gols ou jogadas tão bonitas quanto os dois dispensados, mas tiveram melhor aproveitamento em testes de fundamentos. Os operários ficaram e os artistas se foram.

O caso do “Tévez” do Joga 10 mostra, além da nefasta lógica das “escolinhas”, que o jogador aprende desde cedo a não falar demais. Taynã jogava bem e era convencido. Disparava frases como “eu sou o cara”, “eu vou ganhar” etc... Ele também chegou a provocar Ramon (em campo e fora dele). Os dois eram, por motivos técnicos, os favoritos
e tentavam eliminar um ao outro.

Ramon, aliás, fez um golaço de puxada que renderia um gordo contrato a qualquer jogador da Copa São Paulo. Em um treino de passes curtos, fundamento dispensável para quem dribla como ele, Ramon foi mau e foi dispensado. Dunga e Bebeto foram excelentes, regulares e têm crédito. Infelizmente, porém, estão mostrando que no futebol de hoje mais vale jogar direitinho do que ter talento.

Vamos torcer para que fugitivos desse esquema, como Ronaldinho Gaúcho, Robinho, Sorín e outos moleques abusados que vão para cima e não guardam posição, continuem a existir. Corremos o risco de que as escolinhas ensinem um mau futebol para toda uma geração e não apenas para um “reality show”.

Mais informações
Para quem não se desanimou com esse texto, “Joga 10” é exibido pela Bandeirantes para todo o Brasil aos domingos às 21h30 e sábado é reprise às 18h.

Juliano Barreto

Imagem: Rede Bandeirantes

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