A Fifa, mais uma vez, estabeleceu novas orientações para a marcação do impedimento. E, como já ocorrera das outras vezes, não conseguiu encontrar um consenso ou algo que esclareça em definitivo quando e como a regra deve ser aplicada. Por isso, não são poucos os que simplesmente propõem a extinção do impedimento. Mas o que aconteceria se isso realmente acontecesse?
A principal função da regra do impedimento é compactar a área de jogo, obrigando os atacantes a recuarem e as jogadas a serem armadas progressivamente. Com a queda dessa limitação espacial, os técnicos e jogadores de criação teriam de pensar em outras formas de chegar à meta adversária. Em um primeiro momento, os atacantes começariam a se movimentar por trás dos defensores. A reação lógica dos zagueiros seria também recuarem, evitando que os atacantes ficassem longe de seu alcance. Com o tempo, atacantes e defensores se instalariam nas áreas, deixando o meio-campo despovoado.
A solução mais simples e comum seria usar os volantes para dar chutões em direção ao gol adversário e torcer para um dos quatro atacantes plantados na área do oponente pegar a bola para concluir a gol. Ou aproveitar o vazio das intermediárias para aproveitar bons chutadores de longa distância, mas esses sofreriam com a quantidade de homens à sua frente. Alguns analistas decretariam o fim do meio-campista. Os jogos se tornariam extremamente feios, com chutões a todo momento. Uma espécie de “gol a gol” coletivo com eventuais chutes de fora da área. Uma versão potencializada da visão estereotipada que se tem do futebol britânico. A média de gols por partida poderia até aumentar, mas o resto da partida seria estéril de emoção ou plasticidade.
O problema é que tais chutões não teriam um nível de aproveitamento muito grande, por mais que aumentassem o número de gols. Alguns times perceberiam que valeria mais a pena conduzir um pouco a bola para estar mais próximo dos atacantes antes do lançamento.
Seria o ressurgimento dos meias, mas com características diferentes das atuais. Ao invés da criatividade, a principal qualidade seriam outras: velocidade para evoluir com a bola dominada e precisão em cruzamentos feitos diretamente da intermediária. Jogadores com estilo de jogo parecido com o do paraguaio Arce seriam muito valorizados. Suas funções defensivas se limitariam a atrapalhar os meias adversários a avançarem. O 4-2-4 voltaria a ser usual entre os treinadores, mas o futebol não estaria nada perto da cadência dos anos 1960.
O futuro retratado acima é um pouco exagerado. De qualquer forma, mesmo que o meio-campo fosse preservado, os jogadores se espalhariam mais pelo campo. Haveria mais espaço para os atacantes se desmarcarem, mas a distância entre os jogadores seria maior e o índice de passes errados e de ligações diretas (lançamentos diretos da intermediária) também subiria muito. Talvez seja mais fácil manter a regra do impedimento.
Ubiratan Leal