Os brasileiros mais ufanistas não temem dizer que, se as cabeças que dirigem nosso esporte fossem melhores, o Campeonato Brasileiro seria uma espécie de NBA do futebol. Que a seleção brasileira seria um Dream Team verdadeiro, não os que têm manchado o nome dos times dos sonhos do basquete norte-americano com prestações terríveis em competições importantes. Pois o que ocorreria se fosse feito o sentido inverso, com os dirigentes brasileiros esparramando todo seu know-how no gerenciamento esportivo no território europeu?
É realmente muito difícil imaginar porque alguma federação do Velho Continente viria ao Brasil buscar organização. Por isso, é necessário ter bastante imaginação e um espírito algo lúdico para seguir com esse texto:
Impotentes diante da superioridade dos brasileiros e conscientes de que não teriam mais como aproveitar o talento sul-americano (até porque, na hora da Copa, brasileiros e argentinos não defendem os países europeus), começou a crescer na Europa a idéia de aumentar um intercâmbio entre os dirigentes. Os defensores de tal idéia lembravam como Paulo Machado de Carvalho fora importante nos primeiros títulos mundiais do Brasil. Não seria a prova de que o futebol brasileiro não se destacava apenas pelo talento dos jogadores, mas também pelos métodos heterodoxos de seus dirigentes?
É claro que, como primeira experiência, os europeus foram direto para o que, em teoria, seria o melhor cartola brasileiro: o presidente da confederação brasileira. Assim foi feito. E Ricardo Teixeira embarcou para Roma, de onde dirigiria a Federcalcio (federação italiana).
Logo que iniciou seu trabalho, Teixeira entrou em atrito com a Lega Calcio a respeito das atribuições de cada entidade na organização do Campeonato Italiano. Em princípio, a liga cuidaria de tudo, mas o ex-presidente da CBF tentou implementar um modelo brasileiro e deu à federação algumas responsabilidades, como a inscrição dos jogadores, o controle do tribunal de justiça desportiva e o estabelecimento do regulamento.

O primeiro campeonato italiano sob a direção do brasileiro foi uma enorme confusão. Na abertura do mercado em janeiro, vários jogadores mudaram de clubes, mas a falta de organização da federação fez que a papelada de muitos se perdesse e os nomes desses atletas não aparecessem no BIG (Bollettino Informativvo Giornale). Com isso, clubes como Livorno, Messina, Empoli e Lecce foram acusados de entrar em campo com jogadores irregulares e perderam pontos importantes na luta contra o rebaixamento, que também envolvia equipes tradicionais como Lazio, Genoa e Fiorentina.
A gestão de Teixeira também ficou marcada pelas denúncias de corrupção. Vários jornalistas e, principalmente, o técnico Zdenek Zeman não pouparam críticas e acusações de desvio de dinheiro, uso ilícito dos recursos da Federcalcio e de amarração de acordos suspeitos com dirigentes de outros clubes. Ele fez questão de não deixar nenhum de seus acusadores sem receber processo por calúnia após cada crítica. Enquanto isso, o fisco italiano iniciava investigações a respeito das movimentações financeiras do Il Turf, trattoria aberta por Teixeira no tradicional bairro de Trastevere, na capital da Bota.
Para a sorte do dirigente brasileiro, Milan e Juventus haviam montado grandes equipes e chegaram às semifinais da Liga dos Campeões, desempenho muito superior ao dos espanhóis. O Milan acabou campeão da Europa, argumento utilizado por Teixeira como “prova irrefutável” de que sua gestão no futebol italiano era vitoriosa.
Em crise técnica e institucional, outros países resolveram seguir os passos italianos. A Espanha chamou Eduardo “Caja de Água” Viana, principal destaque da cartolagem do Rio de Janeiro. A Alemanha foi atrás de Emídio Perondi, ex da federação gaúcha, aproveitando a relações culturais entre o Sul do Brasil e os alemães. E Portugal convocou Eduardo José Farah, da federação paulista.
Com carta branca e uma sensação superioridade, cada um dos dirigentes brasileiros fez questão de marcar sua gestão por atitudes inusitadas. O primeiro a provocar mudanças radicais foi Perondi. O dirigente levou à Alemanha a filosofia que fora adotada no Campeonato Gaúcho. Com isso, dividiu os 18 clubes em dois grupos, um com seis equipes (Bayern Munique, Schalke 04, Werder Bremen, Hertha Berlim e Stuttgart) e outro com 14 equipes (Hamburg, Wolfsburg, Bayer Leverkusen, Werder Bremen, Schalke 04, Arminia Bielefeld, Kaiserslautern, Borussia Dortmund, Borussia Mönchengladbach, Eintracht Frankfurt, Mainz, Nürnberg, Köln e Duisburg). Por motivos não muito claros, Werder e Schalke faziam parte dos dois grupos.
A Bundesliga foi dividida em três turnos. No primeiro, os times jogavam dentro de seus grupos. No segundo e no terceiro, as chaves se enfrentavam. Werder e Schalke ficaram com o calendário sobrecarregado por jogar das vezes em cada rodada, uma para cada grupo. Quando o Werder Bremen de um grupo tinha de enfrentar o do outro, o clube podia descansar e escolher para qual grupo iam os três pontos. O mesmo ocorreu com o Schalke.
Após os três turnos, os quatro primeiros de cada grupo formariam dois quadrangulares em turno e returno. O campeão de cada grupo em cada turno iria para a semifinal, fase em que se iniciava o mata-mata. Caso o Werder ou o Schalke alcançasse a fase final com suas duas equipes, uma dessas seria representada pela formação B. Personalidades influentes no futebol alemão, como Beckanbauer e Hönness, criticaram pesadamente o brasileiro, que teve a sorte de o Bayern de Munique dominar a temporada e evitar os duelos entre os Werders Bremens ou Schalkes.

Em Portugal, Farah teve como prioridade aumentar a média de público e repatriar as principais estrelas do país. A federação portuguesa comprou Deco do Barcelona e, para definir seu destino, criou um concurso por telefone, em que os adeptos de Benfica, Porto, Sporting e Boavista poderiam ligar e registrar seu voto. O clube que recebesse mais votos ficaria com o meia.
Em relação ao público, o paulista prometeu aos clubes garantir uma cota mínima por partida, quantia que seria coberta por um patrocinador. A medida agradou aos clubes pequenos, mas ninguém entendeu de onde tal empresa tiraria seu retorno, o que levantou algumas suspeitas a respeito da operação. Farah também tentou implementar algumas mudanças na regra para que o jogo ficasse mais atrativo, como permitir que os técnicos pedissem tempo com a bola rolando, eliminar a barreira nas cobranças de falta, dar quatro pontos por vitória com mais de três gols, fazer gol de pênalti valer por meio ponto, suspender a marcação de impedimento, colocar quatro bandeirinhas e três juízes em campo (um apenas para a área disciplinar) e eliminar a suspensão por cartões amarelos.
As partidas ficaram tão confusas e violentas com as novas regras que o público diminuiu ainda mais. Para reverter o cenário, o dirigente prometeu que cada adepto que fosse ao estádio receberia um lanche, mas poucos se satisfizeram com os sanduíches de bolacha água e sal com margarina. Uma nova tentativa foi no regulamento da competição, com dois grupos de 10 equipes, sendo que o vencedor de cada um faria a final. O Grupo Vermelho equivalia à Primeira Divisão e o Verde, à Segunda.
Isso ajudou a sucatear ainda mais os clubes pequenos de Portugal. Os que estavam no Grupo Vermelho não conseguiam acompanhar os grandes e acabaram apenas lutando contra o rebaixamento. Os integrantes do Verde viam a média de público despencar sem poder jogar contra Porto, Benfica e Sporting. Com isso, a diferença técnica entre maiores e menores se transformou em um abismo e nem as finais (com o vencedor da Primeira contra o da Segunda Divisão) despertavam interesse, pois o resultado já era mais que esperado.

Na Espanha, Eduardo Viana dividiu o Campeonato Espanhol em dois grupos e dois turnos. O vencedor do primeiro levava a Taça Castela e La Mancha e teria um lugar na final, contra o campeão do segundo turno, a Taça Catalunha. Durante sua gestão, aumentaram as denúncias de que as arbitragens espanholas – que já são conhecidas por não primarem pela qualidade – favoreciam sistematicamente Real Madrid, Barcelona, Valencia e Albacete (esse último, bastante ligado do dirigente brasileiro).
Com isso, os clubes pequenos da Espanha foram perdendo espaço e deixaram de incomodar nas copas continentais. Outro problema foi a forte centralização de poder nas mãos de “Caja de Água” e do Real Madrid, seu principal aliado. Valencia, Barcelona e Athletic de Bilbao protestaram e o final do Campeonato Espanhol ficou marcado por vários WOs.
Enquanto isso, no Brasil, a situação estava ainda pior. Os dirigentes que foram à Europa ganharam projeção e se tornaram ícones, exemplos a serem seguidos por outros cartolas. Agora, os que adotavam um discurso modernizador perdiam espaço para os partidários do sistema antiquado.
Após quatro anos (um ciclo de Copa do Mundo), os europeus se livraram dos dirigentes brasileiros. A presença deles arrasou as ligas nacionais, sacrificaram os jogadores com calendários bagunçados e cheio de competições sem sentido e transformou as seleções nacionais em caricaturas. Para não admitirem o insucesso, os dirigentes voltaram ao Brasil alegando falta de adaptação à comida e ao idioma local. E, em seus vôos, trouxeram carregamentos de eletrônicos e vinhos caros. Tentaram passar direto pela Alfândega no aeroporto.
Ubiratan Leal
Imagens: CBF, Folha On Line e Globo