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2/06/05

Histórias

A nação croata tem seu representante em campo

Caso vença a Bulgária em Sófia nesse fim-de-semana, a Croácia estará em ótimas condições de garantir sua terceira participação consecutiva em Copas do Mundo. Aproveitamento de 100% desde que o país se separou da Iugoslávia. Uma certa justiça histórica ao esporte que teve um papel tão simbólico na luta entre croatas e sérvios na primeira metade da década passada, sobretudo após eventos ocorridos há 15 anos.

Em maio de 1990, o croata Dinamo de Zagreb recebeu o sérvio Crvena Zvezda (conhecido no Brasil como Estrela Vermelha), em um dos principais clássicos da ainda unificada Iugoslávia. Uma batalha campal entre os torcedores transformou, ao menos por algumas horas, o estádio Maksmir em um pequeno espectro no qual se transformaria toda a Iugoslávia, pouco mais de um ano depois.

A atmosfera política no país já era pesadíssima. Desde 1980, ano da morte de Josip Broz Tito – herói da resistência iugoslava à ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial e líder comunista que sustentou com mão-de-ferro o regime comunista no país durante décadas –, se iniciara um processo de atrito entre as repúblicas que formavam a Iugoslávia (Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro e Sérvia). A falta de alguém que mantivesse a união nacional, além do processo de abertura dos países comunistas do Leste Europeu, fez que crescesse a idéia do separatismo. A dificuldade e/ou a falta de vontade do governo de Belgrado (em geral, pró-Sérvia) em lidar com as reivindicações das outras regiões também contribuiu para a deterioração das relações internas entre os “eslavos de baixo”.

Com isso, divergências históricas reapareceram. Isso era ainda mais evidente nas duas principais repúblicas iugoslavas, Sérvia e Croácia. Por exemplo, durante a Segunda Guerra, a Croácia, como forma de se contrapor à Sérvia, se aliou à Alemanha de Hitler e seus líderes fascistas promoveram massacres de sérvios e judeus. A Sérvia não fez muito diferente durante o governo comunista, perseguindo, oprimindo e ocupando os territórios das repúblicas vizinhas.

No início, sérvios e croatas alimentavam seu ódio mútuo com manifestações em massa, panfletagem, calúnias, brigas de rua e baixarias do gênero. Um confronto futebolístico entre os expoentes de cada lado dessa briga não poderia mesmo ser visto como um jogo comum.

Antes dos 20 minutos de jogo, os Delije (“os Fortões” em servo-croata, hooligans neofascistas do Crvena Zvezda) romperam as precárias divisórias do alambrado que os separavam dos “Bad Blue Boys”, torcedores do Dinamo que estão longe de serem santos, e os atacaram com pedras e rojões. A polícia, ao invés de tentar acabar com a briga, tomou o lado dos sérvios. Os croatas que conseguiram escapar da pancadaria e da repressão da polícia pró-sérvia pularam até o campo.

Os jogadores assistiam a tudo estupefatos. Até que um policial presumivelmente sérvio começou a espancar um jovem torcedor do Dinamo. O meia Boban, principal jogador do time croata, investiu contra o policial, atingindo-o com uma voadora. Foi retirado de campo pela comissão técnica de seu time antes que fosse preso. Os jogadores do Crvena Zvezda acompanhavam o desenrolar da batalha com indiferença. O presidente da divisão de sócios do clube sérvio, Zeljko Raznatovic, incitou os Delije a prosseguirem com a baixaria e os recompensou com participação mais ativa no quebra-quebra. Boban saiu ileso fisicamente da refrega, mas foi banido da seleção iugoslava que disputou a Copa do Mundo na Itália um mês depois.

Em junho de 1991, após plebiscitos que deram vitória esmagadora aos separatistas, Eslovênia e Croácia (seguidas posteriormente por Bósnia-Herzegovina e Macedônia) declararam independência da federação iugoslava. Os dois novos países tinham apoio nos bastidores da Alemanha de Helmut Kohl, ansiosa por colher os frutos políticos e econômicos da dissolução do país balcânico. Em seguida, as duas repúblicas foram invadidas por tropas federais pró-Sérvia, que ainda tiveram o apoio de grupos paramilitares formados por sérvios que residiam em outras repúblicas.

O mais cruel desses grupos era a Guarda Voluntária Sérvia, chamada de Tigres Sérvios, comandada justamente por Zeljko Raznatovic, então dirigente do Crvena Zvezda e também conhecido como Arkan (gato selvagem comum na região). A função da guarda era realizar o serviço sujo para o governo sérvio de Slobodan Milosevic, como a limpeza étnica em Croácia, Bósnia-Herzegovina e Kosovo.

Quando o exército federal iugoslavo atacou as repúblicas separatistas, torcedores de Dinamo de Zagreb e Crvena Zvezda foram recrutados a torto e a direito. O papel do futebol nas Guerras da Iugoslávia pôde ser visto também nas batalhas ocorridas na Bósnia, de longe as mais sangrentas de todas. O estádio Kosevo, em Sarajevo, foi escolhido como alvo prioritário da artilharia sérvia durante o cerco da cidade. O objetivo era desmoralizar ainda mais os habitantes locais amantes de futebol. Tanto que o clássico local Sarajevo x Zeljeznicar foi afetado pela imbecilidade da guerra: um jogo entre ambos, em outubro de 1994, teve de ser interrompido. Briga de torcidas? Nada disso: um franco-atirador sérvio tentava, de uma colina, matar torcedores e jogadores com rifle de mira telescópica.

Com o fim dos conflitos, os croatas (assim como eslovenos, bósnios e macedônios) puderam manifestar seu nacionalismo livremente. E o futebol não foi deixado de lado nesse processo. Um dos maiores exemplos disso é Boban. Durante a guerra, ele se transferiu para o Bari, de onde seguiu para o Milan. Na Itália, o meia croata ganhou o apelido de “Zorro” por causa de seu porte e aparência física, quatro scudetti (1993, 94, 96 e 99) e uma Liga dos Campeões (1994).

Com a técnica refinada tradicional de jogadores da antiga Iugoslávia, o meia – que atuou também como ala e volante durante sua passagem em Milão – se tornou um ídolo da torcida rossonera, sobretudo pela importância que teve no título italiana de 1999. Tanto que a queda de rendimento da equipe na temporada seguinte é em parte debitada em uma contusão que o tirou de quase metade da competição.

Ainda assim, Zvonimir Boban é mais conhecido por ser um símbolo do futebol croata e considerado um herói em seu país. E isso não se deve apenas ao golpe dado no policial durante a briga em maio de 1990. Mas na forma como liderou o processo de surgimento da seleção croata.

Pela Iugoslávia, seu principal feito foi ajudar na conquista do Mundial Sub-21 de 1987, no Chile. Mas disse que não sentia emoção alguma quando ouvia o hino iugoslavo antes das partidas. Pela Croácia, foi, ao lado do artilheiro Suker, um dos principais artífices da bela campanha da seleção enxadrezada na Copa da França, em 1998. Os croatas chegaram a golear a Alemanha (3x0) antes de cair diante da equipe anfitriã nas semifinais. Terminou em terceiro lugar, posição nunca alcançada pela Iugoslávia.

Pela seleção croata, Boban atuou 51 vezes, com 12 gols. Sua última partida com a camisa xadrez vermelha e branca foi em 1999, em amistoso contra a França. Oficialmente, a primeira ocorreu em dezembro de 1992 diante da Romênia. Mas, para os croatas, sua militância na seleção teve início realmente em maio de 1990, naquela partida do Dinamo de Zagreb contra o Crvena Zvezda. Um jogo simbólico na luta pela independência sérvia.

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Clique aqui e veja como Boban atacou o policial iugoslavo.
http://members.xoom.virgilio.it/zvoneboban/zvone3.mpeg

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À parte as causas envolvidas na década de 1990, as torcidas croatas estão longe de serem pacíficas. Hoje, os clássicos entre Dinamo Zagreb e Hajduk Split são cenários de vários conflitos nas arquibancadas e fora do estádio.
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Logo após a independência, o Dinamo Zagreb mudou para Croatia Zagreb para reduzir o vínculo com o regime comunista. Depois, em nome da tradição, voltou ao nome original.

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O primeiro governo croata após a independência do país também não primou por seu liberalismo. O presidente Franjo Tudjman implantou um regime autoritário com viés fascista, censura nos meios de comunicação e aspirações territoriais. Tanto que o exército croata apoiou as aspirações de soberania da população de origem croata que residia na Herzegovina. Tanto que chegou a se aliar com Slobodan Milosevic para dividir a Bósnia-Herzegovina em três partes – croata, sérvia e bósnia. Após pressão da ONU e dos Estados Unidos, o governante croata se alinhou aos interesses bósnios e tratou de auxiliar da expulsão das tropas sérvias da Bósnia-Herzegovina. No entanto, o exército croata não primou pela delicadeza e também foi acusado de limpeza étnica, ao provocar a fuga de cerca de 150 mil civis de origem sérvia. Depois, rejeitou as propostas de integração balcânica e cheogu a falr em manter uma homogeneidade étnica na Croácia. Como os governantes sérvios, também se aproximou do futebol. Logo após a conquista do bronze na Copa de 1998, declarou que a seleção de futebol fizera mais pela Croácia do que cinco anos de diplomacia. Morreu em 1999 por complicações pós-operatórias devido a uma cirurgia para sanar um intestino perfurado.


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Após os conflitos na antiga Iugoslávia, Zeljko Raznatovic ainda participou no ataque sérvio ao território do Kosovo, de maioria albanesa. Com a paz, pôde aproveitar a fortuna amealhada no período. Abandonou o Crvena Zvezda para criar seu próprio clube, o Obilic. Entrou na política e se tornou opositor de Slobodan Milosevic, a ponto de se refugiar em Montenegro, onde estaria sob os cuidados do presidente montenegrino Milo Djukanovic, adversário de do líder sérvio. Ainda assim, Arkan foi indiciado no Tribunal Penal Internacional em Haia por crimes de guerra. Não chegou a ser preso, mas foi assassinado por homens encapuzados em Belgrado em janeiro de 2000.

Diogo Terra

Imagens: Photo Croatia, CNN e Zvonimir Boban página não-oficial

http://www.photocroatia.com/information/croatia-flag.php
http://members.xoom.virgilio.it/zvoneboban/zvonimir.htm

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