A seleção equatoriana não tem nenhum jogador de destaque no cenário internacional, não colheu resultados convincentes nas categorias de base para justificar uma evolução técnica, tampouco apresenta um estilo de jogo que fuja do convencional e surpreenda os adversários. Mesmo assim, la tricolor está muito próxima de conseguir sua segunda classificação consecutiva para uma Copa do Mundo. E com uma campanha muito mais segura e estável do que países mais tradicionais como Uruguai, Paraguai e Colômbia.
Porém, não há grandes mistérios no sucesso do Equador. Seria maldade dizer que os bons resultados dos tricolores se devem mais aos erros dos rivais do que propriamente por acertos do time de Luís Fernando Suárez. Apesar de a afirmação ter um fundo de verdade, não estaria fora de questão reconhecer um pouco o mérito de um projeto que, apesar de alguns problemas pelo caminho, foi seguido e tem dado certo. Coisa que alguns outros países sul-americanos não souberam fazer, mesmo quando tentaram.
Os comentários mais comuns conduzem à crença de que o Equador é mais um caso de equipe que só tem sucesso na América do Sul por saber se aproveitar da altitude. Os números até dão alguma razão. Na atual campanha para as Eliminatórias, o Equador venceu sete das oito partidas que disputou nos 2.850 m de Quito. Apenas o Peru – rival local – saiu ileso do estádio Atahualpa (0x0 na 4ª rodada). Enquanto isso, la tricolor é quase uma negação fora de suas fronteiras, com seis derrotas em sete jogos. Curiosamente, o Peru também foi a única seleção que destoou nesse quesito, com um empate em 2x2 na 13ª rodada.
Há algum sentido nisso, mas a explicação não é tão simples assim. Ao contrário dos times fracos que tiram proveito do ar rarefeito, o Equador não apela para a tática típica de se limitar a chutões da intermediária e muita correria. A seleção tricolor tem um comportamento mais elaborado. Joga com altivez e alguma ofensividade, até abrindo espaços para o adversário. Mas sabe controlar a partida e dar o bote nos momentos oportunos. Isso só é possível pelo fato de a maior parte dos jogadores da seleção equatoriana defender clubes da parte andina do país. Por exemplo, dos 22 convocados para a partida contra a Argentina desse domingo, apenas sete jogam no nível do mar, três no exterior e quatro no Barcelona de Guaiaquil.
Mas as boas atuações em Quito são apenas sintomas de um fenômeno um pouco maior. Por exemplo, na bem-sucedida campanha para a Copa de 2002, quando o Equador terminou em segundo lugar (atrás apenas da Argentina), não houve tanta discrepância entre os resultados em casa e fora. O time colecionou seis vitórias, dois empates (Colômbia e Uruguai) e uma derrota (Argentina) em Quito. Com visitante, foram quatro derrotas, dois empates (Colômbia e Chile) e três vitórias (Venezuela, Peru e Bolívia). Um balanço mais que razoável e com relativo equilíbrio.
Outro aspecto que mostra que creditar apenas no ar rarefeito o sucesso equatoriano é como a diferença de desempenho da equipe não varia muito no topo ou no sopé das montanhas. Ao contrário do que ocorre, por exemplo, com a Bolívia, que chega a golear em La Paz e sofrer uma avalanche de gols quando sai de casa, o Equador é mais discreto. Até o momento, a derrota mais pesada dos equatorianos nessa campanha mundialista foi por 1x3 contra a Venezuela. Mesmo Brasil e Argentina, quando receberam os tricolores, não foram além do 1x0. Prova que o time tem alguma qualidade e sabe jogar no nível do mar.
Pensando apenas no que ocorre em campo, o Equador prima por ter um excelente conjunto, conhecer muito bem sua própria capacidade e usar os trunfos que tem à disposição. Com isso, a seleção tricolor consegue variar seu estilo de jogo sempre que necessário. E isso é possível por uma particularidade do futebol equatoriano.
Apesar de alguma turbulência logo depois da campanha regular na Copa da 2002, ainda na gestão do treinador Hernán Darío Gómez, o Equador tem uma estabilidade gerencial muito maior que outros países sul-americanos. O técnico colombiano soube trabalhar em médio prazo e montou um time competitivo de onde não se esperava nada. Sua equipe foi crescendo durante as Eliminatórias passadas até embalar a ponto de conseguir a classificação pela primeira vez a um Mundial. Gómez se transformou em ídolo nacional e, quando se demitiu, foi convencido a voltar pelos torcedores.
Apenas em julho de 2004 houve um abalo nesse projeto equatoriano. Priorizando a campanha para a Copa da Alemanha, Hernán Gómez não se dedicou devidamente à Copa América. Nada muito diferente do que fez uma série de outras seleções, mas o Equador terminou o torneio em branco, com três derrotas (incluindo um 1x6 contra a Argentina) em igual número de jogos. A seleção entrou em crise e a FEF (federação equatoriana) demitiu o técnico. Porém, para seu lugar, chamou Luis Fernando Suárez, também colombiano, que estava no Aucas e decidiu manter a linha de trabalho de seu compatriota.
O Equador tem um projeto e o segue. O que não ocorre em outros países, que têm mais talento em campo, tradição e experiência internacional. No Uruguai e no Peru, a impaciência da imprensa e a cobrança excessiva de torcedores dificulta trabalhos de longo prazo. A Colômbia apenas agora encontra um caminho para aproveitar adequadamente a nova geração. No Chile, equívocos da direção da ANFP (Asociación Nacional de Fútbol Profesional, a federação chilena) implodiram a seleção local, que ainda não se reconstruiu completamente. O Paraguai até tem alguma estabilidade, mas deverá tomar cuidado no processo de mudança de gerações por que está passando. A Venezuela anda precisa de experiência de enfrentar momentos decisivos e a Bolívia é inferior tecnicamente.
Os problemas internos dos adversários inevitavelmente influencia negativamente a campanha nas Eliminatórias. As equipes se tornam muito instáveis e geniosas, perdendo o foco por qualquer deslize e sofrendo abalos em sua autoconfiança. Pontos bobos são desperdiçados, principalmente em casa. Enquanto isso, o relativamente estável Equador se aproveita para caminhar com certa tranqüilidade. Tem boas chances de obter um lugar para a Alemanha. Se os outros países também quiserem se destacar no equilibrado (tirando Brasil e Argentina) futebol sul-americano, terão de aprender algo com os tricolores. E se planejarem.
Ubiratan Leal