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18/05/05

Histórias

O aniversário do penal de Djukic

A temporada 1993-94 do Campeonato Espanhol estava terminando. Já havia passado dos 45 minutos do segundo tempo da última rodada e apenas os acréscimos separavam o Barcelona de mais um título nacional. Até que o lateral-direito Nando foi ao ataque e acabou derrubado dentro da área: pênalti para o Deportivo La Coruña. Caso a cobrança fosse convertida, os galegos fariam 1x0 no Valencia em casa e assegurariam o primeiro título importante de sua história. Nessa semana, fez 11 anos que o zagueiro iugoslavo Djukic foi à marca do pênalti dar o campeonato ao La Coruña, no último fôlego, com o Riazor lotado.

O simples fato de chegar àquela condição mostrava como foi rápida a ascensão dos blanquiazules, que até dois anos antes eram mais um dos vários times que revezam temporadas nas Primeira e Segunda Divisões. Em 1988, Augusto César Lendoiro assumiu a presidência com o La Coruña na Segundona espanhola – quase caindo para a Terceira – e sufocado por dívidas. A primeira medida foi tornar o clube lucrativo com base nos associados e na comunidade.

A temporada 1988-89 já foi bem sucedida nesse aspecto, mesmo que a promoção para a elite não tenha vindo. Na temporada seguinte o roteiro foi parecido. A diferença é que, em campo, o Deportivo melhorou e conseguiu um lugar na repescagem para subir. Porém, perdeu em casa para o Tenerife e ficou mais um ano no andar de baixo. Em 1990, com maior segurança financeira, os galegos investiram em vários jogadores, como Djukic. Novamente o time teve de decidir sua sorte no mata-mata, mas, dessa vez, passou pelo Murcia e voltou à Primeira Divisão após 18 anos.

Otimistas, os galegos voltaram ao convívio dos grandes com o lema “Madri, Barcelona, aqui estamos nós”. Mas os resultados não acompanharam as expectativas. Mesmo com a contratação de jogadores experientes como López-Rekarte, Liaño e Kiriakov, os blanquiazules, pela terceira vez seguida, tiveram de decidir o futuro na repescagem. Pior para o Bétis.

A virada realmente começou em 1992, com a transformação do clube em empresa. A maior facilidade em captar recursos permitiu ao La Coruña se reforçar sensivelmente e ganhar o apelido de SuperDepor. Vieram Nando, Juanito, Aldana e, principalmente, os brasileiros Mauro Silva e Bebeto.

Poucos deportivistas poderiam imaginar que os resultados aparecessem tão rapidamente. Em 1992-93, o SuperDepor venceu as 5 primeiras partidas, assumiu a liderança e conquistou o título de inverno. No segundo turno, sentiu a falta de experiência e deixou-se ultrapassar por Barcelona e Real Madrid. Ainda assim, Bebeto terminou como artilheiro da competição e o terceiro lugar classificou o clube galego pela primeira vez a competições européias.

Para disputar duas competições e manter a trajetória de evolução, o La Coruña investiu ainda mais, contratando Donato, Manjarín, Paco e Elduayén, entre outros. O time-base de Arsênio Iglesias era Liaño; Nando, Voro, Djukic, Ribera e López-Rekarte; Fran, Mauro Silva e Donato; Bebeto e Cláudio. Ainda era pouco se comparado ao time que o Barcelona tinha em mãos. Os catalães mantinham a base com Romário, Stoitchkov, Ronald Koeman, Michael Laudrup, Zubizarreta, Salinas, Bakero, Guardiola, Ferrer, Nadal e o técnico Johann Cruijff. A mesma que obtivera o tricampeonato espanhol na temporada anterior, que conquistara a Copa dos Campeões de 1991-92 e o vice-campeonato mundial em 1992, perdendo para o São Paulo na decisão.

O ataque era a principal força dos blaugranas, que constantemente arrasavam a defesa adversária. No entanto, o Barça sofria com a instabilidade e também sofriam mais gols que o desejável. Além disso, a dedicação à Copa dos Campeões atrapalhava a caminhada da equipe. Por exemplo, os catalães venceram o Real Madrid por 5x0, o Zaragoza por 4x1 e o Valencia por 4x0 (em Valência), mas perderam do Lleida no Camp Nou e do Atle´tico de Madri por 4x3 após chegar ao intervalo com 3x0 de vantagem.

Com isso, o primeiro turno do campeonato foi equilibrado, com equipes como Zaragoza, Real Madrid, Valencia e até Athletic Bilbao conseguindo acompanhar La Coruña e Barcelona. Aos poucos, os tropeços dos clubes permitiram que o Deportivo, com seu jogo estável, de poucos gols marcados e pouquíssimos sofridos, se destacasse na frente, a ponto de conquistar o bicampeonato de inverno com relativa tranqüilidade.

No início do segundo turno, o Barcelona entrou em má fase (derrotas por 1x2 para Real Sociedad, 2x3 para Athletic de Bilbao e 3x6 para Zaragoza) e permitiu que os galegos abrissem 6 pontos, uma vantagem tranqüila em um torneio com dois pontos por vitória. Porém, o La Coruña parece ter sentido a responsabilidade. O time perdeu vários pontos tolos, com Bebeto desperdiçando três pênaltis seguidos. Enquanto isso, o Barça se recuperou com duas vitórias (uma delas, um 8x1 sobre o Osasuna).

Na 26ª rodada, os líderes se enfrentaram. A goleada catalã (3x0, gols de Stoitchkov, Romário e Laudrup) fez crer que, mais uma vez, o La Coruña soçobraria nas rodadas decisivas. No entanto, a perda da vantagem fez que os deportivistas se reorganizassem e voltassem às vitórias, mantendo a diferença de um ponto de vantagem.

A decisão do título foi para a última rodada, em 14 de maio de 1994. O Barcelona tinha 54 pontos e vinha em uma série de 14 jogos invictos, sendo 12 vitórias. O La Coruña somava um ponto a mais e contava com sua defesa, que sofrera apenas 18 gols em 37 partidas – aliás, em 26 jogos o Deportivo não sofrera gols, incluindo as 5 que precederam a rodada final. Caso ambos empatassem em pontos, o título seria catalão pela vantagem no goal average (divisão de gols feitos pelos sofridos). O Barcelona receberia o Sevilla, 6º colocado, e o SuperDepor jogava em casa contra o Valencia, 7º.

Em princípio, os jogos seriam no domingo, 15 de maio. Porém, o Barcelona jogaria com o Milan pela final da Liga dos Campeões na quarta-feira seguinte e teve seu jogo adiantado para o sábado. Para que o La Coruña na entrasse em campo sabendo do resultado dos catalães, o Comitê de Competições da Real Federação Espanhol da Futebol também adiantou o jogo dos blanquiazules contra o Valencia para o sábado. Como forma de pressão psicológica, Augusto Lendoiro, presidente do clube galego, disse que a mudança de data do jogo do Deportivo era ilegal. Em vão. As duas partidas foram realizadas ao mesmo tempo.

Em La Coruña, os ches procuraram apenas se defender. Com dificuldades de vencer a defesa oponente, os blanquiazules começavam a ceder par ao nervosismo. Mas a sorte parecia estar do lado galego, pois o Sevilla saiu na frente em Barcelona. Stoitchkov empatou, mas os andaluzes voltaram a se colocar á frente antes do intervalo. Os resultados davam o título ao La Coruña.

Porém, o Barcelona se soltou no segundo tempo. Com gols de Stoitchkov, Michael Laudrup e Romário (pichichi do torneio com 30 gols), os blaugranas viraram para 5x2 e passaram a torcer por um resultado negativo do La Coruña. O desespero crescia no estádio Riazor, com o Deportivo tendo dificuldades em sair do 0x0. Até que, aos 46 minutos do segundo tempo, em uma jogada pouco organizada na área valenciana, Nando foi derrubado.

O pênalti se transformaria no gol do título galego. O cobrador titular era Bebeto, mas a série de oportunidades desperdiçadas durante a temporada fez que o brasileiro desistisse. O segundo batedor era o brasileiro naturalizado espanhol Donato. Porém, o meia havia sido substituído durante o jogo. Sobrou para o iugoslavo Djukic. Ele correu, bateu... e o goleiro González defendeu. O título não ficou na Galícia e Djukic jamais foi perdoado pela torcida deportivista. Ele jogou fora o campeonato todo em um lance.

*

Após a perda do título Augusto Lendoiro entrou na Justiça pedindo a anulação do jogo La Coruña x Valencia, pois deveria ter sido disputado em 15 de maio. Após batalha jurídica em várias instâncias, o Tribunal Supremo da Espanha definiu que o Barcelona foi,d e fato o campeão espanhol de 1993-94. A confirmação judicial do título só veio em março de 2004.

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A diferença da forma de conduzir a campanha dos dois times foi patente. O Barcelona marcou 91 gols e sofreu 42, enquanto que o La Coruña realizara apenas 54 e levara 18. Tanto que o Barça teve o pichichi do torneio (Romário, com 30 gols) e Liaño, do Deportivo, recebeu o troféu Zamora de melhor goleiro da temporada.

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Na Copa da Uefa, aquele La Coruña passou por Aalborg, da Dinamarca, e Aston Villa, da Inglaterra, mas não resistiu ao Eintracht Frankfurt. O Barcelona foi à final da Copa dos Campeões e enfrentou o Milan como favorito, em uma partida que chamou muito a atenção por marcar o confronto do futebol ofensivo dos espanhóis e o metódico dos italianos. Em uma partida brilhante, os milanistas venceram por 4x0.

*

Na temporada seguinte, o Valencia deixou González de lado e contratou Zubizarreta.

Ubiratan Leal

Imagens: La Coruña site não-oficial, Gazeta Esportiva,

http://www.deportivo-la-coruna.com
http://www.canaldeportivo.com
http://home.versatel.nl/laudrup/

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