Enquanto os grandes clubes de Glasgow discutem formas de entrar na Premiership inglesa, holandeses e belgas pensam em unificar seus campeonatos e até já se falou em uma Liga Atlântica reunindo Portugal, Escócia, Holanda e Bélgica, os escandinavos foram mais práticos e rápidos. Nessa quinta-feira, Rosenborg, Malmö, Brann Bergen e Göteborg entrarão em campo para encerrar a fase semifinal da edição inaugural da Royal League, uma espécie de Campeonato Escandinavo de clubes. Uma idéia aparentemente muito boa, mas que padeceu por não conseguir contornar alguns problemas em sua estréia.
Entender as motivações para a criação da Royal League é simples. Pelas condições climáticas, Dinamarca, Noruega e Suécia guiam suas temporadas futebolísticas de acordo com o ano solar, como no Brasil, já que não precisa ser um meteorologista para saber que não é recomendável praticar esportes a céu aberto no inverno escandinavo. Pois foi com a intenção de tapar essa brecha no calendário que se decidiu criar a Royal League.
As questões organizacionais foram facilmente contornadas. Dinamarca, Noruega e Suécia sempre nutriram uma grande rivalidade futebolística, muitas vezes canalizada na extinta Copa Nórdica de seleções. Não seria difícil levar isso ao âmbito clubístico, até porque havia uma expectativa de equilíbrio entre os participantes, o que tornaria a competição emocionante e atrativa. Tanto que emissoras de televisão e gandes patrocinadores dos três países se interessaram em apoiar o torneio. Outra vantagem da Royal League seria dar mais condições aos clubes da região de se manterem competitivos em nível continental, pois seus atletas teriam atividade permanente e as equipes ainda teriam uma renda extra da venda dos direitos de transmissão do evento e os prêmios oferecidos pela organização.
Nem foi necessário lutar muito para obter o reconhecimento e aval da Uefa (um obstáculo ao surgimento das ligas regionais), uma vez que as próprias federações nacionais auxiliaram na formação da liga. Ilhas Faroe, Finlândia e Islândia ficaram de fora porque, apesar de serem países nórdicos, não são escandinavos de origem.
Foi definido que participariam os quatro melhores times de cada país no campeonato nacional do ano anterior. Os doze clubes seriam divididos em três grupos de quatro, com jogos de ida e volta. Os dois primeiros passariam à fase semifinal, composta por dois triangulares. O vencedor de cada chave iria à final. Os jogos seriam disputados entre novembro de 2004 e maio de 2005, com pausa em janeiro.
Para evitar o domínio de um país, os grupos foram organizados de maneira que, entre os seis semifinalistas, dificilmente uma nação não estaria representada. O Grupo 1 contou com Rosenborg (Noruega), Vålerenga (Noruega), Esbjerg (Dinamarca) e Djugårdens (Suécia), o 2 teve København (Dinamarca), Brøndby (Dinamarca), Göteborg (Suécia) e Tromsø (Noruega) e o 3 foi formado por Malmö (Suécia), Halmstads (Suécia), Brann Bergen (Noruega) e Odense (Dinamarca).
A expectativa de equilíbrio foi confirmada. No grupo 1, os noruegueses dominaram e se classificaram sem grandes dificuldades, por mais que o Esbjerg tenha lutado pela vaga até a última rodada. Na chave 2, talvez a mais forte, o Brøndby (foto) decepcionou e não passou por København e Göteborg. O Tromsø, além de ficar com o último lugar, ainda passou o constrangimento de ter pontos retirados por utilizar jogadores irregulares em duas partidas. O grupo 3 foi o mais parelho, com Halmstads e até Odense lutando pela classificação até a penúltima rodada. Mas Malmö e Brann Bergen ficaram com as vagas.
Em um dos triangulares semifinal, o Göteborg se aproveitou da superioridade nos confrontos diretos contra o Vålerenga e já assegurou seu lugar na final. Na outra chave, O favorito Rosenborg perdeu em casa contra o København e depende de uma vitória contra o Malmö fora de casa para ultrapassar os dinamarqueses e ir à decisão.
Com tamanho equilíbrio, clubes dos três países com chances de chegar à final até a última rodada e apoio oficial, é de imaginar que a Royal League seja um sucesso. Porém, o mesmo obstáculo que criou a brecha no calendário para sua realização tem minado o sucesso do Campeonato Escandinavo. Por mais que os organizadores tenham tentado, não conseguiram ignorar o frio.
Diversas partidas foram realizadas sob temperaturas abaixo de 0ºC, muitas vezes com neve pesada. Pode não ser agradável para os jogadores, mas eles são profissionais e acabam entrando em campo. O problema foi convencer o torcedor a sair de casa em uma noite de inverno escandinavo para ver um jogo de futebol.
Vale lembrar que, por mais que os países escandinavos tenham um nível técnico respeitável, o futebol não é unanimidade na região. O esporte é o mais popular na Dinamarca, tanto que a Superliga local já se profissionalizou e clubes como Brøndby e København – ambos da capital Copenhague – desenvolveram uma grande rivalidade. Mas o cenário muda nos vizinhos da península escandinava.
A Suécia, apesar de ser o país com mais tradição futebolística na região, não tem um campeonato inteiramente profissional. Muitos clubes, mesmo na primeira divisão, ainda são semi-profissionais e são considerados instituições sem fins lucrativos. Por mais que a popularidade do esporte cresça no país, o hóquei sobre o gelo segue como o preferido dos suecos. Na Noruega a penetração do futebol é um ainda menor, ofuscado pelo esqui alpino.
Na primeira fase, o único jogo a ter mais de 20 mil espectadores foi o clássico dinamarquês entre Brøndby e København. Nas demais partidas, a média tem girado em torno de 10 mil. Nos jogos disputados na Suécia, o número é ainda mais baixo. Parece muito se comparado com o que há no Brasil, mas, tendo as ligas norueguesa, sueca e dinamarquesa como parâmetro, é um público decepcionante.
Ainda assim, a Royal League tem chance de ser bem-sucedida. Os estádios estão vazios, mas as televisões estão conseguindo índices de audiência razoáveis (afinal, o pessoal fica em casa com o frio e acaba ligando a TV). Além disso, o simples fato de lutar pela coroa de melhor da Escandinávia é considerado um atrativo técnico para clubes e torcedores. Com isso, por mais que o Rosenborg tenha pedido uma vaga na Liga dos Campeões ao vencedor da Royal League, o campeonato escandinavo sobrevive sem essa possibilidade. Algo que tem sido um empecilho aos outros projetos de campeonatos regionais que se ensaiaram na Europa.
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O Balípodo já falou sobre o Tromsø, um dos clubes mais setentrionais do mundo. Veja aqui.
Ubiratan Leal
Imagens: TV Norge, Brondby, Kobenhavn e BChange
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