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20/05/05

O mundo não é uma bola...

Der Schweizer fussball spricht Deutsches

Yverdon e Vaduz entrarão em campo nesse domingo para praticamente decidir o título da Challenge League, a Segundona suíça. Caso o Yverdon vença, elimina o Vaduz e garante que a elite do futebol suíço não terá apenas um representante de língua latina em uma temporada inteira. Situação só vivida uma vez, em 1899-1900, quando apenas sete clubes formavam a Primeira Divisão helvética. Tudo conseqüência da grave crise que assolou o futebol suíço e atingiu principalmente as equipes da parte francesa e italiana do país dos fondues, queijos, bancos, relógios e chocolates.

A parte de língua alemã é a mais rica e populosa do país e isso tradicionalmente se reflete no futebol. Mesmo assim, sempre houve um certo balanceamento das forças. Dos 107 Campeonatos Suíços já disputados (contando o de 2004-05, que já tem seu campeão definido, o Basel), 69 ficaram com os germânicos, 33 com os francófonos, quatro com clubes de Ticino, a região italiana, e um com o Biel-Bienne, clube da única cidade bilíngüe do país (lá se fala francês e alemão). Os romanches nunca conquistaram um título.

Essa divisão cultural e lingüística do país está muito relacionada aos problemas do futebol. A Suíça está longe de ser um país populoso (possui pouco mais de 7 milhões de habitantes) e o mercado interno não é dos mais volumosos. Além disso, as diferenças culturais entre as regiões francesa, italiana e alemã são muito fortes, com cada região tendo pessoas de gostos e costumes próprios. O que ajuda a reduzir ainda mais o mercado potencial.

Isso é muito evidente na televisão. Não há um único canal de alcance nacional, mas sim, várias emissoras locais, com programas na língua e de acordo com a preferência do espectador de cada parte do país. Por isso, o governo mantém a SRG/SSR (Schweizerische Radio-und Fernsehgesellschaft/ Societé Suisse de Radiodiffusion et Télévision/ Società Svizzera di Radiotelevisione/ Societad Svizra da Radio e Televisiun, ou em português, Sociedade Suíça de Rádio e Televisão). Com um canal em cada língua, a emissora estatal consegue atender a todo o mercado helvético.

No entanto, o governo vê a SRG/SSR como algo estratégico, pois a emissora ajudaria a manter o sentido de unidade nacional dos suíços e atender a regiões mais carentes, como a italiana e a romanche. Por isso, cobra uma taxa dos telespectadores, de onde sai 75% das receitas do grupo. A publicidade responde pelos 25% restantes. Além disso, por ter uma função social, a SRG/SSR tende a dar uma importância relativamente grande a esportes menos populares que o futebol e o hóquei sobre o gelo (nessa ordem, os dois esportes mais seguidos do país).

Sem concorrentes, nem dependência das receitas de anunciantes, além da política de dar espaço para várias modalidades, a SRG/SSR se vê sem muitos motivos para pagar muito pelos direitos de transmissão do Campeonato Suíço. Como os canais regionais não têm público para viabilizar essa operação, os clubes são obrigados a aceitar o valores relativamente baixos pagos pela emissora estatal (CHF 6,5 milhões, ou € 4,5 milhões, em 2003-04). Um caminho oposto dos seguidos pelas grandes ligas européias, que valorizam cada vez mais as receitas de televisão, incluindo o pay-per-view (não utilizado na Suíça).

Como o mercado suíço é relativamente pequeno, as receitas com publicidade em camisa e estádio e a venda de produtos licenciados também são baixas. Assim, os clubes teriam de depender das bilheterias. E há outro problema, pois os estádios suíços são pequenos e antigos, permitindo poucos ganhos nessa área.

Durante décadas, foi possível manter esse modelo, pois as ligas nacionais de toda Europa eram fechadas e o futebol suíço era semi-profissional, com muitos clubes tendo de pagar salários modestos apenas para jogadores e comissão técnica (os funcionários eram voluntários ligados à comunidade e não recebiam nada). O profissionalismo foi inteiramente implantado na década de 1980, o que trouxe novos desafios ao futebol suíço.

A permissão de publicidade nos uniformes aumentou as receitas, mas, como dito dois parágrafos acima, não era suficiente para se equiparar com o padrão dos outros países europeus. A solução foi intensificar o mecenato, política tradicional do futebol da Suíça. Empresários investiam (eventualmente a fundo perdido) em clubes para melhorar sua imagem na comunidade. Algumas vezes, tomavam posições na direção do clube. Em outras, apenas doavam o dinheiro. Curiosamente, a maior parte desses mecenas vinham do mercado imobiliário e de construção civil. Porém, muitos desses patronos tinham compromisso de curto prazo, o que obrigava os clubes a ficarem, periodicamente, correndo atrás de novos investidores.

Em meados da década de 1990 ocorreu uma quase hecatombe no futebol suíço. O mercado imobiliário entrou em crise e muitas empresas quebraram. Logicamente, o investimento no futebol foi reduzido sensivelmente. Além disso, o investimento da televisão de outros países europeus no futebol cresceu assustadoramente, o que tornou o futebol suíço comparativamente mais modesto e menos atrativo para os jogadores. Por fim, a liberação de atletas comunitários para jogar em qualquer país da União Européia fez que o valor do jogador suíço caísse, já que a Suíça mantém sua tradição de neutralidade e não é membro da UE. Ou seja, o jogador suíço é extracomunitário e, se for contratado, ocupará a vaga de um sul-americano ou africano.

A crise no patronato e a redução do poder de venda de atletas levou o futebol suíço à crise financeira, agravada pela crise técnica, já que os clubes helvéticos tinham poucos argumentos econômicos para concorrer com os enriquecidos alemães ou franceses por um jogador de qualidade. Nos últimos anos, praticamente nenhum clube suíço termina a temporada com lucro.

Para tornar o Campeonato Suíço mais atrativo, a liga local decidiu reduzir de 12 para 10 os clubes na Primeira Divisão a partir de 2003-04. Mesmo assim, era questão de tempo para surgirem os casos de crise financeira acentuada. Um dos primeiros foi o Young Boys, da capital Berna, cujo mecenas faliu e deixou uma enorme dívida. Para atrair novos investidores, o clube chegou a comprar anúncios em jornais, convocando os torcedores a doarem algum dinheiro. Com a chegada de novos empresários, o clube pôde se equilibrar.

Porém, a mesma sorte não tiveram os principais clubes das regiões francesa e italiana, com poderio econômico e mercado menores, o que aumentou o sotaque alemão na elite do futebol helvético. O processo começou de forma avassaladora em 2002, com a queda de três clubes tradicionais.

O Sion, campeão suíço em 1992 e 1997, e o Lausanne, detentor de sete títulos nacionais, não conseguiram equacionar suas dívidas. O caso do Lugano, mais tradicional representante do futebol da Suíça italiana com três títulos, foi ainda mais dramático. A Receita Federal local suspeitou que Helios Jermini, patrono do clube, havia fraudado clientes de sua empresa de contabilidade e havia pagado “por fora” (e sem impostos) parte do salário de jogadores. Entre os atletas investigados estavam Mauro Galvão, o argentino Trossero, o russo Shalimov, o belga Emmers e o leonês Kallon.

Os três clubes tiveram a renovação de sua licença na Superleague negada e foram rebaixados para a Nationalliga B (nome da Segundona na época). Foram substituídos por Aarau, Delémont e Luzern. Entre os não germânicos, só havia o Servette, de Genebra, o Neuchâtel Xamax, de Neuchâtel, e o recém-promovido Delémont. Não havia mais representantes de Ticino.

Mas a situação ainda ficaria pior. Os problemas do Lugano continuaram e o time foi puído com a perda de 5 pontos antes mesmo do início da Segunda Divisão. O clube ainda conseguiu ma vaga no octogonal de repescagem para voltar à elite, mas teve sua falência decretada no meio do torneio. Seus resultados até aquele momento foram desconsiderados. Após o campeonato, foi a vez de o Lausanne fechar as portas e o Sion ser novamente rebaixado por ter a licença negada.

Como ocorre na Itália, foram fundados novos clubes. No lugar do FC Lugano surgiu o AC Lugano. O Lausanne-Sport FC foi substituído pelo FC Lausanne-Sport. O Sion estava na 1.Liga (Terceirona). Porém, o futebol suíço não é tão organizado quanto o estereótipo que se tem dos helvéticos. O Sion nem disputou a Terceira Divisão, pois mudou sua constituição administrativa e recebeu de volta à vaga na Challenge League Detalhe: a Segundona já estava em andamento.

Foi uma enorme confusão, com o Sion disputando vários jogos “atrasados” no meio do torneio. Para piorar, o regulamento da competição era bizarro. Ao invés do turno e returno, os jogos de ida eram imediatamente seguidos pelos de volta. Os times computavam os pontos normais e a esses adicionavam dois pontos caso tivessem vencido na soma de resultados diante do mesmo adversário. A necessidade de jogar duas vezes seguidas com a mesma equipe bagunçou todo o calendário após a entrada do Sion, até porque o torneio passou a ter 17 participantes. Enquanto isso, Lausanne e Lugano reiniciavam sua caminhada na Quarta Divisão.

Com torcida e tradição, era inevitável que os três clubes se destacassem nas divisões inferiores assim que se reestruturassem. O Lausanne conquistou a Quarta Divisão em 2004 e praticamente já garantiu o título da terceira em 2005. O Lugano subiu com mais rapidez. O clube se fundiu com o Malcantone Agno, representante de Ticino na Challenge League, e já disputa a Segundona, ao lado do Sion.

Mas os problemas da Suíça latina se agravariam na atual temporada. O Servette, 17 vezes campeão nacional (só perde para o Grasshoppers), também se afundou. As dívidas da equipe de Genebra vinham da década de 1990 como as de tantos outros no país, mas se agravaram em 2003. Nesse ano, o clube foi vendido para o francês Marc Roger. O comprometimento do empresário era duvidoso, já que sua principal atividade era negociar jogadores. Por isso, contratou vários jogadores – o mais conhecido foi o meia francês Karembeu – na esperança de valorizá-los e revendê-los. O time conseguiu a terceira colocação da Superleague em 2003-04, insuficiente para dar retorno ao investimento desmedido de seu presidente. Pior as dívidas cresceram após tantas contratações.

O time iniciou a temporada 2004-05 na esperança de encontrar algum outro investidor. Por causa dos problemas financeiros, iniciou o campeonato com -3 pontos. A equipe fazia uma campanha regular quando, em fevereiro, teve sua falência decretada. Como o Lausanne, deve ser refundado e reaparecer nas divisões amadoras. A Primeira Divisão Suíça começou com dois clubes não-germânicos, mas está terminando apenas com o Neuchâtel Xamax.

Mas a chance de esse cenário permanecer não é grande. O Neuchâtel já escapou do rebaixamento. Além disso, com a presença maciça de clubes da Suíça alemã na elite, metade da Challenge League passou a ser composta por equipes de língua francesa – Yverdon, Sion, La Chaux-de-Fonds, Baulmes, Meyrin e Bulle – ou italiana – Lugano, Chiasso e Bellinzona. Com isso, a chance de algum clube não-germânico subir se tornou proporcionalmente grande, o que está se confirmando.

Apenas quatro times têm chances de subir (o campeão tem vaga direta na elite, enquanto o segundo colocado disputa uma repescagem com o lanterna da Primeira Divisão) a duas rodadas do final. O Yverdon lidera com 66 pontos, seguido por Vaduz (65), Sion (62) e Chiasso (62). O Vaduz é o único clube de língua alemã. E nem é da Suíça alemã, pois tem sede em Liechtenstein.

Após esses anos de instabilidade e de concentração regional, o futebol suíço pode ter um crescimento nos próximos anos. Há boas perspectivas de aumento significativo das receitas com bilheteria nos próximos anos. Como a Suíça vai, ao lado da Áustria, sediar a Eurocopa de 2008, quatro cidades terão estádios modernos em breve. Com isso, os clubes de Basiléia, Zurique, Genebra e Berna poderão ter aumento de público e de receitas com a venda de camarotes. É bem verdade que há problemas a serem resolvidos nesse quesito, uma vez que o estádio de Genève, do Servette, está entre os bens a serem penhorados no processo de falência do clube.

Outra mudança para o futuro está no modelo administrativo das equipes. Após as experiências recentes com patronos, a federação local decidiu rever a obrigação de apenas clubes poderem participar do Campeonato Suíço. A medida abre a brecha para que os clubes se transformem em empresas e possam atrair investidores profissionais, que reorganizem o futebol helvético de forma que se torne lucrativo.

O principal modelo é o Basel, único clube financeiramente saudável do país. A equipe conta com a ajuda de uma empresa com comprometimento de longo prazo (o laboratório Roche) e já tem seu estádio pronto para a Eurocopa. Com isso, sua receita de bilheteria cresceu sensivelmente. Além disso, conseguiu uma boa campanha na Liga dos Campeões de 2002-03, desclassificando o Liverpool e terminando entre os 16 melhores, o que lhe rendeu uma boa premiação da Uefa.

Ubiratan Leal

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