Soa contraditório ver o Atlético-PR em uma crise tão anunciada como a atual. Nos últimos dez anos, o rubro-negro se reestruturou e, de um clube de alcance apenas estadual, se tornou uma força nacional, com boa capacidade de revelar talentos e montar equipes competitivas, além de ter um dos melhores estádios do país. Foi assim que surgiu o vice-campeão brasileiro de 2004. Então, como explicar que um time minimamente planejado e organizado foi capaz de se desmontar em tão pouco tempo?
O problema foi a arrogância, a sensação de auto-suficiência, que fez que a diretoria atleticana não imaginasse a possibilidade de tomar tantas decisões equivocadas em seqüência. Tudo porque se iludiu ao pensar que sua política administrativa era perfeita. E por achar que, com ela, seria possível montar uma equipe em condições de ter competitividade em um torneio continental.
Desde que voltou à elite nacional, em 1995, o Atlético-PR tem variado campanhas muito boas com outras decepcionantes. Isso mostra uma tendência que a diretoria (a mesma em todo esse período) tem de desmontar e remontar o time. E, como tem sucesso em alguns momentos, fica a impressão de que tudo está certo e as quedas de rendimento são planejadas e esperadas. A ponto de muitos torcedores terem absorvido esse espírito e justificassem equívocos como se aquilo fizesse parte de um plano de longo prazo.
Com apoio até da torcida para agir, a direção rubro-negra começou a se considerar quase onipotente dentro de sua suposta modernidade gerencial, capaz de fazer tudo sempre dar certo. Mas não se pode pensar assim. Ainda mais em uma cultura adminsitrativa marcada por métodos agressivos e sem concessões como os de Mário Celso Petraglia, cabeça da cúpula atleticana. Se achar que é necessário vender um jogador por um motivo qualquer, ele o vende. E depois acerta o time de alguma maneira.
Foi o que ocorreu após a briga com a empresa Massa Sports, de Ratinho (o apresentador de TV), que representava boa parte dos jogadores do elenco vice-campeão brasileiro de 2004. Como foi muito bem mostrado em uma reportagem da revista Placar no início do ano, a diretoria atleticana decidiu se desfazer dos jogadores para manter o controle do time dentro do clube. A atitude até tem suas razões, mas o preço seria muito alto, e isso o clube não soube calcular. Tanto que, depois de perder seus principais jogadores, o Atlético-PR anunciou uma parceria com a Massa que não foi para frente.
E assim o Atlético-PR foi se desconstruindo, crente que, da união de jogadores desconhecidos, outros de qualidade duvidosa e o iniciante técnico Casemiro Mior, encontraria em dois meses um time em condições de disputar a Libertadores e buscar novamente o título nacional. O time e sua torcida pagaram pela arrogância da direção do clube, que parece estar em outra sintonia ao colocar no discurso uma preparação para a Copa de 2014, que pode ser realizada no Brasil. Mas, para 2005, o ficou evidente que esse Atlético está sem saber para onde ir.
A demissão de Casemiro em um momento mais que inoportuno, na semana em que poderia decidir seu futuro na Libertadores e o campeonato estadual, é mostra de como a situação era insustentável. E de como o time montado estava longe de ser o que a diretoria idealizou. A entrada de Edinho não mudou nada, pelo contrário. Inclusive, a contratação apressada do ex-zagueiro denota a busca por soluções rápidas e emergenciais. Sua compreensível saída e a dispensa de 15 jogadores após a vergonhosa goleada diante do Medellín, apenas reforçaram o fato.
Resta à torcida lamentar o provável desperdício de mais uma chance de o rubro-negro mostrar sua cara fora do país. Tudo porque o clube se achou auto-suficiente e não viu que nem sempre seu estilo de planejamento é o mais adequado. Isso para não dizer que foi equivocado.
Ubiratan Leal
Imagens: Conmebol, Furacão.com e Lancenet