Mais de três anos depois de duas CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito), uma no Congresso e outra no Senado, sobre o futebol brasileiro e muito pouco de efetivo foi feito até agora para continuar com o trabalho de investigação. Porém, o exemplo brasileiro pareceu não inibir os congressistas do Peru, que também abriram uma comissão para investigar supostas irregularidades na FPF (Federación Peruana de Fútbol). E até o brasileiro Paulo Autuori, técnico da seleção do país, está sob suspeita.
Como no Brasil, a idéia de que o futebol esconde várias atitudes ilícitas, antiéticas ou simplesmente reprováveis não é nova no Peru. Em 2003, por exemplo, o Torneo Clausura foi interrompido por greve de jogadores após 15 das 22 rodadas programadas. O Alianza Lima foi considerado campeão por estar na liderança até o momento e disputou a final com o Sporting Cristal (vencedor do Apertura) em 31 de janeiro de 2004, quando o impasse entre jogadores e dirigentes estava contornado.
No entanto, a quantidade de denúncias cresceu muito nos últimos meses. Foi o caso da revelação de uma conversa em que Luís Ciccia, presidente do Grau-Estudiantes (clube formado em 2004 após um acordo, já quebrado, entre Miguel Grau e Estudiantes de Medicina), e um dirigente da FPF negociam como a comissão de arbitragem poderia evitar o rebaixamento da equipe no final do último campeonato. Por isso, a Comissão de Juventude e Esportes do Congresso peruano decidiu chamar dirigentes e jogadores para esclarecer as suspeitas de utilização irregular de recursos, contratos ilegais de jogadores e suborno de árbitros.
Os trabalhos ainda não estão avançados e pouca coisa foi descoberta. Por exemplo, há indícios fortes que Kliber Vega, diretor da FPF, fraudou documentos oficiais para que seu filho pudesse se matricular como “esportista qualificado” em uma universidade de Tacna, cidade na fronteira com o Chile. Também há suspeitas que outro dirigente da federação local, Freddy Ames, seria responsável pelo duplo contrato dos jogadores Rodrigo Saraz e Pablo Pérez. Nada que possa, por hora, mudar os rumos do futebol peruano.
Porém, ainda há expectativa para que se confirmem suspeitas mais sérias. Em 22 de fevereiro, Victor Noriega, deputado da Apra (Alianza Popular Revolucionária Americana, principal partido de esquerda do Peru e que faz oposição ao governo de Alejandro Toledo) e líder da comissão, pediu a quebra dos sigilos bancário e fiscal das gestão anterior (do presidente Nicolás Delfino) e da atual (de Manuel Burga) da federação local. O objetivo é descobrir casos de desvio de dinheiro, uso indevido de patrimônio público (considerando que a seleção peruana e o futebol peruano devam satisfação ao povo peruano) e sonegação de impostos. Também foram solicitadas cópias dos contratos de direito de transmissão das partidas da seleção peruana pelas Eliminatórias das Copas de 2002 e 2006.
Em março e abril vários jogadores, árbitros e dirigentes foram chamados para depor diante da comissão. O que chamou a atenção da Fifa, sempre zelosa com os presidentes das federações que lhe dão apoio político. A entidade enviou uma carta, assinada por Joseph Blatter, ao Instituto Peruano do Esporte para manifestar sua preocupação com o que ocorre no futebol peruano. Nela, o suíço diz que a Fifa “zela para que não exista ingerência os assuntos internos de seus membros e do futebol. Essa ingerência (do Congresso sobre a FPF) não é admitida”. O presidente da federação internacional ameaçou suspender a participação do Peru em competições internacionais e até já deu a versão da entidade para uma das acusações que recaem sobre a FPF: “o direito de transmissão das Eliminatórias da Copa pertence à Fifa e não pode ser considerado bem público”. Não deve ser visto como coincidência o tom da carta de Blatter e o fato de o Peru (e a FPF) sediar o Mundial sub-17 que a Fifa organizará em setembro.
Em princípio, o Congresso tem o apoio da imprensa e da opinião pública. No entanto, cometeu alguns excessos que deram argumentos para os que querem desmerecer os trabalhos. Por exemplo, na semana passada o técnico Paulo Autuori foi chamado para depor. A comissão queria conhecer detalhes do contrato do brasileiro com a FPF, que seria de um valor fora de realidade do futebol peruano (US$ 40 mil mensais), pago por “fundos públicos” (a comissão não deixou muito claro o que a expressão significaria) e que deixaria a federação sem poder de ação. Victor Noriega disse que, por contrato, a FPF pagaria casa, impostos e viagens do técnico ao Brasil. Se a entidade decidisse demiti-lo, teria de pagar US$ 180 mil de multa e, se o Autuori pedisse demissão, receberia US$ 90 mil da federação.
O brasileiro não atendeu à primeira convocação com a alegação de que o aviso não fora entregue a tempo (um equívoco reconhecido pela comissão). Nessa sexta, 22 de abril, o treinador se apresentou, mas sua participação decepcionou os deputados. Ele se negou a responder quaisquer perguntas e se limitou a ler um comunicado, no qual afirmou ver como injustificado e insólito o fato de ser convocado pelo Congresso do Peru para falar um contrato de prestação de serviço de caráter privado. Além disso, disse que sua conduta profissional sempre foi ética, que o contrato está dentro dos padrões internacionais e que ser obrigado a depor no Congresso pode prejudicar sua imagem.
Vale lembrar que Autuori não está em alta com a imprensa e a torcida do Peru. Ambos tratam com catastrofismo excessivo as (poucas) possibilidades de a seleção incaica se classificar para a Copa da Alemanha, consideram falido o trabalho do técnico e não entendem como o presidente da FPF ainda não trocou o comandante da equipe nacional. Vendo por esse lado, é fácil de imaginar como as suspeitas sobre o contrato do treinador poderiam se encaixar com a opinião pública. Mesmo assim, ficou uma imagem de que houve um certo exagero.
A dificuldade em levantar muitas das provas necessárias fez com que a Comissão de Juventude e Esportes pedisse ao Congresso uma extensão de 60 dias para o encerramento dos trabalhos. Pelo novo cronograma, o relatório final será entregue em 30 de junho. Resta aos peruanos torcerem para que as investigações tenham continuidade, o que até agora não ocorreu no Brasil.
Ubiratan Leal