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29/04/05

Histórias

O primeiro campeonato da história

Esse mês que está acabando, de certa forma, marca o início do primeiro campeonato da história do futebol. Afinal, em abril de 1888, foi fundada a English Football League, entidade constituída com o objetivo de organizar um campeonato que envolvesse clubes da Inglaterra. Naquele mesmo ano já surgia o Campeonato Inglês de futebol, algo tão incipiente que coisas que parecem básicas hoje ainda eram questões complexas na época.

O Campeonato Inglês não foi a primeira competição do futebol association. Desde 1872 já era disputada a FA Cup (Copa da Inglaterra) e, desde 1874, a Scottish FA Cup (Copa da Escócia). Esses torneios envolviam o maior número possível de equipes e, em formato de mata-mata apontavam o melhor time do país. No entanto, a criação das duas copas levou o esporte a novos dilemas.

As atividades esportivas tinham grande importância no Reino Unido do século XIX por promoverem diversão, saúde física e a confraternização de cavalheiros. Por isso, valores como espírito esportivo eram extremamente valorizados e isso só seria possível atingir com a manutenção de uma organização amadora do esporte. Par que interesses financeiros não “maculassem” o esporte. Claro, também era uma maneira de evitar que jogadores de classes menos privilegiadas pudessem se dedicar exclusivamente ao futebol e se misturassem com os mais ricos.

Mas a competitividade e a rivalidade que se desenvolveram com a criação de m torneio nacional passaram por cima de tudo isso. Em busca da vitória, surgiram suspeitas de que vários clubes pagaram atletas para incentivá-los. Os casos mais escandalosos envolviam os jogadores escoceses, considerados tecnicamente melhores, que se mudavam para a Inglaterra e passavam a defender equipes inglesas.

Em 1882, a Football Association (CBF inglesa) proibiu a importação e o pagamento a jogadores. Mesmo assim, o fenômeno não cessara. O Preston North End – um dos maiores defensores do profissionalismo – foi desqualificado da FA Cup daquele ano sob acusação de usar atletas profissionais. Depois, o clube admitiu que realmente pagara a seus jogadores. O Bolton Wanderers também foi acusado, mas acabou absolvido. O problema é que, em seguida, a direção da equipe confessou que enganara a comissão de investigação.

Estava evidente que a disputa não teria fim e, em 20 de julho de 1885, a FA decidiu legalizar o profissionalismo no futebol inglês. Mesmo assim, só o fez sob uma série de restrições e com um período de transição, até porque ainda havia muitos defensores do amadorismo e essa discussão se prolongaria até as primeiras décadas do século XX.

E mais um problema surgiu. A FA era uma competição eliminatória, que poderia se tornar bastante curta para certos clubes, que ficavam ociosos em boa parte do ano, até porque os replays (partidas desempate) da copa muitas vezes obrigavam os clubes a desmarcarem amistosos. Isso não representava um grande desafio na época do amadorismo, mas a necessidade de pagar salários a seus jogadores exigia que os empregadores tivessem uma renda estável durante toda a temporada. A solução foi criar a Football League, um sistema de campeonato com partidas regulares previamente programadas e que envolvessem. Parece óbvio, mas até hoje o Brasil não conseguiu desenhar uma estrutura como essa.

Em março de 1888, representantes de Aston Villa, Blackburn Rovers, Burnley, Notts County, Stoke, West Bromwich Albion e Wolverhampton Wanderers se reuniram e decidiram organizar o primeiro Campeonato Inglês. No mês seguinte, outros cinco clubes – Accrington Stanley, Bolton Wanderers, Derby County, Everton e Preston North End – se juntaram e a English Football League foi oficialmente criada. Todos os integrantes eram da Midlands e do norte do país, regiões em que o futebol era mais desenvolvido. Não havia clubes de Londres.

Não seria um processo simples, pois não havia outros torneios similares que pudessem ser usados como base para a definição das regras esportivas e administrativas. O fato de aquele ser o primeiro torneio longo faria que as situações enfrentadas, muitas não imaginadas na época, e a experiência na organização formatassem o esporte nas décadas seguintes.

E realmente foi assim. Por exemplo, inicialmente, os dirigentes da liga decidiram conceder um ponto para os vencedores de cada partida. No meio do campeonato, mudaram de idéia e o vencedor passou a receber duas unidades, enquanto que equipes que empatassem ficariam com uma. Esse sistema foi usado em praticamente todos os torneios do mundo durante mais de 100 anos. Também foi estabelecido que um atleta não poderia defender mais de um clube em uma temporada, por mais que equipes de fora da Football League tentassem contratar jogadores dos 12 times do Campeonato Inglês.

Mas as principais mudanças ocorreram no jogo em si. Em 1888, foi acertado que as partidas seriam dirigidas por dois “umpires”, um indicado por cada clube. Caso os dois discordassem de alguma marcação, um “referee” neutro e que acompanharia o jogo da linha lateral teria a última palavra. Não havia súmula. Na prática, a única função desse “referee” seria marcar o tempo de jogo. Apenas em 1891, haveria uma inversão hierárquica, com o “referee” entrando em campo e os “umpires” passando para fora das quatro linhas e se transformando nos bandeirinhas.

O próprio tempo de jogo não estava completamente estabelecido. No primeiro Campeonato Inglês, não havia uma definição a respeito do intervalo entre o primeiro e o segundo tempo. Era permitido que os jogadores permanecessem em campo e descansassem cinco minutos. Mas não era raro as equipes simplesmente trocarem de lado e continuarem a partida.

Um sinal de como aquela era uma realidade muito distinta é que, ao final da primeira temporada, o presidente da English Football League e dirigente do Aston Villa, William McGregor, disse que o campeonato fora um sucesso e que uma prova disso era o fato de que nenhum jogador havia morrido em campo.

Aquele campeonato também ficou marcado pelo domínio do Preston North End. A equipe estava adiantada no processo de profissionalização e conseguiu o título invicto, com 18 vitórias e 4 empates, em um total de 40 pontos em 44 possíveis. O time ficou conhecido por invincibles e seu feito só foi igualado em 2004-05 pelo Arsenal. O vice-campeão Aston Villa somou apenas 29, seguido por Wolverhampton (28), Blackburn (26), Bolton e West Bromwich (22), Accrington e Everton (20), Burnley (17), Derby (16), Notts County e Stoke (12).

A superioridade do Preston no cenário inglês era tão grande que o clube chegou à fiald a FA Cup daquele ano, sendo derrotado pelo West Bromwich Albion. Na temporada seguinte, os lilywhites conquistaram o bicampeonato inglês e sua primeira FA Cup, constituindo o double (título de copa e campeonato no mesmo ano). Apenas em 1961, haveria o segundo, do Tottenham Hotspur. O Balípodo já contou a história do Preston North End aqui.

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Nem todas as situações possíveis de um campeonato surgiram na edição de 1888-89. Por exemplo, cada time tinha tradicionalmente uma cor diferente do uniforme. Apenas duas temporadas depois, com a entrada do Sunderland (vermelho e branco como o Wolverhampton na época), foi necessário criar uma regra para o uniforme reserva. Assim, os clubes deveriam registrar suas cores antes do início do campeonato e ter calções brancos. Caso dois times de mesma cor se encontrassem o anfitrião deveria usar o uniforme reserva. Os números nas costas só surgiriam em 1939.

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O primeiro Campeonato Inglês também não tinha rede nos gols e pênaltis, ambos introduzidos em 1891.

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Dos clubes fundadores da English Football League, apenas o Accrington Stanley não está em atividade atualmente. Após várias temporadas em divisões inferiores do futebol inglês, o clube fechou as portas em 1962. O Stoke mudaria para Stoke City anos depois.

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O sucesso da Football League foi tão grande que, com o crescimento de equipes interessadas e a absorção da Football Alliance (uma liga rival), em 1892 foi criada uma segunda divisão e estabelecido um sistema de acesso e descenso. O Sunderland, que entrou na liga em 1890-91, foi um caso diferente, pois substituiu o Stoke, excluído do campeonato após terminar em último lugar em duas edições consecutivas.

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Em 1992, os principais clubes ingleses romperam com a English Football League e criaram a Premier League. Hoje, a Football League é responsável por organizar a Championship League (Segundona), Division One (Terceira Divisão) e Division Two (Quarta), além da Copa da Liga Inglesa.

Ubiratan Leal

http://www.mightyleeds.co.uk/history/earlyyeears.htm

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