Nesse fim-de-semana começa mais uma temporada da Major League Soccer, a mais recente tentativa de implantar uma competição futebolística de porte nos Estados Unidos. As doze equipes se dividirão em duas conferências e lutarão pela MLS Cup, nome do troféu dado ao vencedor da final, programada para 13 de novembro. E esse título terá um toque especial, pois marcará o 10ª aniversário do campeonato, que ainda terá a presença de duas novas franquias (Real Salt Lake e Chivas USA) e verá mudanças pequenas, sutis e que podem ser vistas como positivas.
Como já dito aqui, a direção da MLS parece ter percebido que, para ter vida longa, a liga teria de adotar um perfil mais “normal” do futebol, sem adereços que tentassem aproximar o soccer dos esportes mais populares dos Estados Unidos, como beisebol e futebol americano. Acabaram os shoot-outs (desempate inspirado no hóquei sobre o gelo) e os jogos com cronômetro regressivo.
Até os times parecem ter entendido isso e se aproximaram do resto do mundo. O Dallas Burn mudou para FC Dallas, uma denominação muito mais européia (inclusive passando por cima do fato de “football club”, nos Estados Unidos, remeter a outro esporte). Ente os caçulas da liga também se vê essa tendência. O “Real” do Real Salt Lake deve ser lido como se fosse uma palavra em espanhol, pois é referência ao Real Madrid, e não ao adjetivo de realidade. Aliás, Dave Checketts, ex-dirigente de New York Knicks e Utah Jazz e atual dono do time de Salt Lake, está tentando firmar um intercâmbio entre o Real norte-americano e o Real espanhol.
A chegada do Chivas USA (o nome oficial é Club Deportivo Chivas USA) trará à MLS a paixão latino-americana, pois deve atrair boa parte da comunidade mexicana (o Chivas Guadalajara é o clube mais popular do México), já familiarizada com o esporte, e proporcionará o primeiro clássico regional da liga, pois dividirá a torcida de Los Angeles com o Galaxy. A expectativa é tão grande que a estréia da temporada será justamente na maior cidade da Califórnia, em um encontro entre Chivas USA e o DC United, maior papão de títulos da liga.
Deixando cada vez mais claro que adotará o modelo internacional, a MLS dá um parâmetro aos torcedores norte-americanos, que deixarão de ver o futebol como algo menor. A visita de vários clubes europeus – como Milan, Barcelona, Chelsea, Manchester United, Porto e Galatasaray – à América do Norte na pré-temporada mostrou que o objetivo de quem investe no soccer de hoje é igualar o padrão do Velho Continente, e não mais tentar aproximar o esporte do futebol americano, do basquete ou do beisebol. Como se precisasse imitar os outros para ser reparado.
Outra boa notícia para essa temporada é a inauguração – em agosto próximo – do estádio Frisco Soccer & Entertainment Center, construído pelo FC Dallas exclusivamente para a prática do futebol. O Chicago Fire e o Colorado Rapids também já anunciaram que erguerão suas próprias casas, não mais pegando emprestado a estrutura das equipes de futebol americano. Eles se juntarão a Columbus Crew, Los Angeles Galaxy e Chivas USA no grupo de franquias com estádio específicos para soccer.
O regulamento apenas que guarda mais semelhanças com outras ligas norte-americanas profissionais. Os 12 times estão divididos em duas conferências. Cada equipe joga 4 vezes com os colegas de conferência (duas em casa e duas fora) e duas vezes com os times da outra chave (uma de visitante e uma de local), quase sempre com partidas em fins-de-semana ou feriados. No final da temporada regular, cada equipe terá disputado 32 jogos. Os 4 primeiros de cada grupo se classificam para as semifinais de conferência. Inicia-se o mata-mata até a disputa da MLS Cup, em jogo único reunindo os campeões de cada conferência.
Veja a seguir um pequeno resumo de como as 12 equipes estão se preparando.
Conferência Leste
A MLS tem apenas 10 anos, mas já se pode dizer que, nesse tempo, o DC United se estabeleceu como o mais tradicional time de futebol do país, com 4 títulos em 9 disputados. Em 2004, o representante de Washington contou com a estréia do garoto-sensação Freddy Adu (então com 14 anos) e retomou a MLS Cup após 4 anos de jejum. Para manter essa hegemonia, o DC trouxe o defensor Mike Petke e, principalmente, manteve o atacante Eskandarian, artilheiro do time na temporada passada. Adu, como em 2004, deve continuar como opção do técnico Peter Nowak no banco de reservas. A principal perda foi a saída de Ryan Nelsen, atualmente no Blackburn, da Inglaterra.
A segunda força da conferência deve ser o Kansas City Wizards. Os Wiz foram campeões da Conferência Oeste em 2004, só caindo para o DC United na MLS Cup em um emocionante 3x2. Como as duas franquias novas da liga estão a Oeste, o time de Kansas City teve de mudar de grupo nessa temporada. O principal destaque da equipe comandada por Bob Gansler é a forte marcação, que faz da defesa do Wiz a melhor da MLS. No setor ofensivo, uma dupla de contraste: o promissor meia-atacante Arnaud, de 24 anos, e o veteraníssimo Preki, de 42 anos e autor do gol da seleção norte-americana na vitória sobre o Brasil nas semifinais da Copa Ouro de 1997 (a única dos Estados Unidos sobre a seleção brasileira na história). O outro veterano famoso do time, o goleiro Tony Meola, saiu na pré-temporada
O Columbus Crew é o time do Leste que tem mais condições de barrar os finalistas do ano passado. O time da capital do Estado de Ohio foi o melhor da conferência na temporada regular em 2004, mas, como tem feito nas últimas temporadas, falhou no mata-mata. De qualquer forma, o Crew manteve a veterana base, com o meia Hejduk (ex-Bayer Leverkusen) o reforço do perigoso atacante Ante Razov (ex-Chicago) para fazer dupla com Eddie Buddle. Dos jogadores que saíram, o que mais terá a ausência sentida é o defensor Tony Sanneh. Outra virtude da equipe é a torcida, uma das mais participativas dos Estados Unidos.
Em 2004, o Chicago Fire foi o pior time do campeonato todo, mas teve a desculpa de não ter se recuperado da perda de DaMarcus Beasley para o PSV Eindhoven e Carlos Boccanegra para o Fulham. Para esse ano, a perspectiva é de melhora. A direção trouxe o goleiro Thornton, o zagueiros Sanneh e Guerrero, da seleção de Honduras. No meio-campo, a referência é o veterano meia Chris Armas, com longa passagem pela seleção norte-americana. Outra novidade do time onde Stoitchkov encerrou a carreira serão as “Noches Morelias”, em que o Fire utilizará o uniforme do Monarcas Morelia como forma de atrair a atenção da comunidade mexicana. Um brasileiro está lá, o meia Thiago Gaúcho, ex-Internacional e Ginásio Pinhalense-SP.
O New England Revolution é forte candidato a surpresa da chave. Ano passado, a campanha foi fraca, mas o fato de se classificarem 4 de 5 equipes de cada Conferência em 2004 ajudou o time de Boston a se classificar. Nas semifinais de chave, a equipe surpreendeu e passou pelo favorito Columbus. Para essa temporada, a idéia do técnico Steve Nicol (meia da seleção da Escócia na Copa de 90) foi manter a jovem base, com o defensor colombiano Carlos Llamosa, o atacante Noonan e os meias Dempsey e o uruguaio Cancela como destaques. A saída do meia Joe-Max Moore não deve ser ignorada.
A incógnita da chave deve ser o New York/New Jersey Metrostars. O time fez uma campanha razoável em 2004, mas se desfez de boa parte de seus jogadores, principalmente Joselito Vaca, Eddie Pope (destaque da seleção dos Estados Unidos), Fabian Taylor e Cornell Glen. Como consolo, fica a manutenção do artilheiro Amado Guevara (MVP da MLS em 2004) e do jovem meia Gaven, da seleção norte-americana sub-21. De reforço, dois jogadores com experiência em Copas do Mundo no meio-campo: Jeff Agoos e... Youri Djorkaeff, campeão pela França em 1998. O brasileiro do time é Gilberto Flores, ex-meia do Ginásio Pinhalense-SP.
Conferência Oeste
A final é em uma única partida em campo neutro, mas não seria arriscado dizer que dificilmente o próximo campeão norte-americano sairá da metade ocidental do país. Afinal, dois times são novos (e, portanto, devem ter uma temporada de adaptação) e os outros não contam a mesma solidez dos rivais do leste. Pela tradição e torcida, o Los Angeles Galaxy (campeão em 2002) sempre é visto com respeito. No entanto, vem de uma pré-temporada complicada, com a troca de técnicos (assumiu o ex-treinador dos estados Unidos Steve Sampson) e perda de jogadores importantes (Alejandro Moreno, o austríaco Andreas Herzog, o sul-coreano Hong Myung-Bo e Danny Califf), além do fato de ter um rival local que pode, inclusive, ficar com parte de seus seguidores. O principal reforço é o excelente e precoce Landon Donovan, maior revelação do futebol dos Estados Unidos nos últimos anos. No entanto, o jogador está apenas emprestado pelo Bayer Leverkusen e pode voltar à Alemanha no meio da temporada. Vale destacar ainda os recém-contratados Guillermo Ramírez e Pablo Chinchilla, meia e defensor das seleções de Guatemala e Costa Rica respectivamente, o veteraníssimo Cobi Jones, de 35 anos, e o atacante brasileiro Ednaldo, ex-Sankt Gallen, da Suíça.
Com os adversários sem grandes pretensões, não seria de estranhar se o caçula Real Salt Lake ficasse entre os melhores do Oeste. O time pareceu se inspirar no homônimo madrileno na política de contratações, mas, claro, respeitando a dimensão entre as duas equipes. O proprietário da franquia, Dave Checketts, apostou alto ao trazer o artilheiro Kreis, o meia-atacante da seleção norte-americana Clint Mathis (ex-Hannover 96) e o zagueiro Eddie Pope. O técnico é John Ellinger, que se notabilizou por trabalhar no bem-sucedido programa norte-americano de desenvolvimento de jovens talentos. A falta de experiência e a necessidade de conquistar torcedores de Utah podem pesar. Por isso, seria uma enorme surpresa se o Real repetisse o feito do Chicago Fire e ficasse com o título nacional na temporada de estréia. Mas uma final de conferência parece acessível.
O segundo maior campeão da MLS está em decadência. O San Jose Earthquakes (que se chamou San Jose Clash nas primeiras temporadas), melhor equipe em 2001 e 2003, pode nem passar para a pós-temporada em 2005. A conclusão não é difícil se for comparada a lista de reforços (Ronald Cerritos, Ricardo Clark, Alejandro Moreno, Danny Califf, Wade Barrett e Brad Davis) com a de cessões (Landon Donovan, Jeff Agoos, Ronnie Ekelund, Todd Dunivant, Arturo Álvarez, Richard Mulrooney e Chris Brown). Do time de 2004, os principais que ficaram são os atacantes Brian Ching e o canadense Dwayne DeRosario. Como a Anschutz Entertainment, proprietária da franquia, já anunciou que procura um comprador (de preferência alguém da região de San Francisco, onde está San Jose ou do Texas), não é difícil imaginar que o Earthquakes sofra com a instabilidade administrativa. Mais trabalho para o presidente e diretor-geral da equipe, o ex-zagueiro/roqueiro Alexi Lalas.
Se o San Jose não suportar as incertezas adminsitrativas, a terceira força do oeste pode ser o Colorado Rapids. O técnico Fernando Clavijo (zagueiro da seleção dos Estados Unidos expulso no 1x0 do Brasil na Copa de 1994) tem em mãos um grupo sem destaques além do goleiro Joe Cannon e os meias Mark Chung, Pablo Mastroeni e Chris Henderson. A principal preocupação do dono da franquia, Stan Kroenke, deve ser a construção de um estádio próprio, apesar de o Rapids ter excelente retrospecto no Invesco Field, em Mile High, onde perdeu apenas duas vezes em 2004.
Após uma campanha fraca em 2004, o FC Dallas tenta se remontar. Trocou de nome (era Dallas Burn), trouxe o salvadorenho Carlos “Pescadito” Ruiz (ex-Galaxy e maior artilheiro da história da MLS), o meia Richard Mulrooney e o atacante Cornell Glen, além de manter Eddie Johnson, promissor atacante da seleção dos Estados Unidos e cotado a uma transferência para a Europa em breve. No entanto, a perda do zagueiro Cory Gibbs para o Feyenoord enfraquece um setor defensivo que já não era dos melhores.
Apesar de toda a expectativa gerada pela estréia de um time “mexicano” na MLS, as perspectivas do Chivas USA não são nada otimistas. A equipe, que tem atletas quase todos latinos – seguindo a política da matriz mexicana, que não contrata estrangeiros –, não teve muito sucesso na campanha de contratações e está claramente mais fraca que os rivais. Isso pôde ser constatado nos amistosos de pré-temporada, com derrotas contundentes até para adversários medianos. A base veio do Chivas Guadalajara, que cedeu Ramón Ramírez, Francisco Gómez, Isaac Romo, Martín Zúñiga, Héctor Cuadros e Alfonso Loera. ALémd esses, vale mencionar o defensor Ezra Hendrickson, ex-DC, e o meia Francisco Gómez, ex-Kansas City. Houve ainda espaço para o brasileiro Thiago Martins, que começou no futebol universitário dos Estados Unidos pela UCSB (University of California Santa Bárbara) e passou ainda por San Diego Flash, Minnesota Thunder, Pittsburgh Riverhouds (esses três da A-League, liga secundária da América do norte) e DC United. A esperança de uma campanha de respeito está na fanática torcida, em mais reforços e, eventualmente, na possibilidade de os maus resultados até agora serem conseqüência da inexperiência do time.
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Como toda liga norte-americana que se preze, a MLS também tem seu All-Star Game. Está marcado para 30 de julho.
Ubiratan Leal
Imagens: Univisión, WTop, El Extra e MLS
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