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2/03/05

O mundo não é uma bola...

The Argentine way of life

O jogo contra o Zaragoza, nesse fim-de-semana, poderia ser histórico para o Villarreal. Se o submarino amarillo vencesse, pularia para a quarta colocação no Campeonato Espanhol e, pela primeira vez, se colocaria entre os classificados provisórios à Liga dos Campeões. Muita coisa para um clube mirrado, cuja melhor posição até hoje foi um 7º em 2001-02. E muito desse sucesso se deve à política de se movimentar bem no mercado para gastar pouco e contratar muitos jogadores. Sobretudo argentinos.

Um bom modo de ver o tamanho da façanha do Villarreal é ver que o clube tem sede em Vila-Real (nome em valenciano, em espanhol é Villarreal), cidade com apenas 40.124 habitantes (censo de 1999), normalmente ofuscada pela vizinha Castelló da la Plana e cuja maior tradição é o bou al carrer (corrida de touros pela cidade, mais ou menos como no festival de San Fermín em Pamplona), praticado desde 1375. Parece pouco para o rico futebol espanhol.

Durante décadas, o clube do País Valenciano parecia justificar sua origem simples e a vocação regional. Desde que foi fundado, em 1923, o Villarreal se acostumou a andar pelas divisões regionais do futebol espanhol. Uma exceção foi em 1935-36, quando o clube venceu a Primeira Divisão Regional e conseguiu um lugar na Segundona nacional. Só que a Guerra Civil começou e os amarillos tiveram de esperar. E não foi pouco tempo, apenas em 1971-72 o clube valenciano alcançou o segundo nível do Campeonato Espanhol. Ficou apenas duas temporadas antes de voltar à Terceirona.

A ascensão só veio na década de 1990. Em 1992-93, o clube voltou à Segunda Divisão. Após quatro temporadas em posições intermediárias, sem nunca chegar pert da zona de promoção à elite, Fernando Roig, cuja família controla a gigante do setor cerâmico Pamesa, resolveu comprar o clube. O empresário investiu na equipe e, em sua primeira temporada, levou o submarino amarillo à repescagem contra o Compostela, 17º da Primeira Divisão. Após dois empates (0x0 em Vila-Real e 1x1 em Santiago de Compostela), o Villarreal conseguiu a promoção pelo número de gols marcados fora de casa.

A estréia na elite foi surpreendente, fazendo 1x0 no Real Madrid no Santiago Bernabéu logo aos 3 minutos. Mas os merengues logo viraram e venceram por 4x1. A esse resultado se seguiu uma campanha irregular, com os destaques para a vitória (3x1) sobre o Barcelona na Catalunha. Mesmo assim, não foi o suficiente para evitar a disputa – mal sucedida – contra o Sevilla na repescagem para evitar o rebaixamento.

Foi nesse momento que o Villarreal ganhou os contornos atuais. O time até então apostava em remendos e jogadores rejeitados por equipes maiores, sobretudo a única potência da região, o Valencia. Vale lembrar que, na época, o presidente do Valencia era Francisco “Paco” Roig, irmão de Fernando e que a Pamesa já mantinha (como faz até hoje) a principal equipe de basquete da região.

Com dinheiro de sobra e a idéia de se liberar da influência do Valencia, o Villarreal delineou um plano de autonomia. Aumentou a capacidade do estádio El Madrigal para 23 mil pessoas (mais da metade da população da cidade) e desenvolveu as categorias de base. Para dar experiência e qualidade ao elenco, foi buscar jogadores bons e baratos no mercado sul-americano. Por “sul-americano” entenda “argentino”, por mais que as contratações de Beletti, Marcos Senna e Sonny Anderson mostre que os brasileiros também têm espaço por lá.

Uma das primeiras transações foi bombástica: o badalado artilheiro do Boca Juniors e da seleção Argentina Martín Palermo. Apesar de alguns gols, o atacante não se adaptou, quebrou a perna de forma bizarra (comemorava um gol no dérbi regional contra o Levante quando a mureta da arquibancada caiu sobre sua perna) e já voltou a Bombonera.

Porém, Roig insistiu em investir em argentinos. E deu certo. O clube ganhou consistência e, já de volta à elite, conseguiu uma vaga na Copa Intertoto de 2003. Foi um dos campeões e garantiu um lugar na Copa da Uefa 2003-04. Considerado azarão, o submarino amarillo foi avançando, só caindo no clássico regional diante do Valencia, já nas semifinais.

O principal responsável foi o meia Juan Román Riquelme, que foi tirado do Barcelona sem a menor dificuldade e redescobriu seu futebol. O argentino compensa a lentidão com muita habilidade, capacidade de cadenciar o jogo e ousadia para assumir a responsabilidade nos momentos decisivos. Tanto que é o jogador que mais deu assistência em toda a liga espanhola na atual temporada.

Não é só por Riquelme que a base do Villarreal é Argentina. O lateral-esquerdo Arruabarrena (autor dos dois gols do Boca Juniors contra o Palmeiras na final da Libertadores de 2000), o zagueiro Gonzalo Rodríguez e o volante Battaglia também vestem a camisa amarela e azul. No mercado de verão ainda chegou outra revelação Argentina, o centroavante Luciano “Lucho” Figueroa, artilheiro do Torneo Clausura de 2003 pelo Rosario Central e titular da seleção platina na era Marcelo Bielsa. Seu colega de área, Diego Furlán, é uruguaio, mas teve uma boa passagem pelo Independiente. O cisplatino foi outro que chegou por um bom preço, já que estava encostado no Manchester United, e que recuperou seu melhor jogo, disputando com Samuel Eto’o a artilharia do campeonato.

Para comandar tantos argentinos, o mais lógico seria pegar um técnico do mesmo país. O Villarreal não chegou a tanto, mas fez algo equivalente. No início de 2004, o clube contratou Manuel Pellegrini, chileno que fez carreira na Argentina, conquistando vários títulos nacionais com San Lorenzo e River Plate.

Além da legião sul-americana, o elenco amarillo é composto por atletas espanhóis sem espaço em outros clubes. Os mais conhecidos são o meia Roger, ex-Barcelona, e o atacante José Mari, ex-Atlético Madrid e Milan. Uma prova de que não é tão difícil montar uma equipe competitiva sem muito dinheiro. Basta saber identificar as oportunidades e ter alguma paciência. As sete vitórias nas últimas 11 rodadas do Espanhol – incluindo aí triunfos sobre o Barcelona (3x0) e os dérbis valencianos diante de Levante (4x2) e Valencia (3x1) – mostram que o Villarreal é um bom exemplo disso.

Ubiratan Leal

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