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4/03/05

E se...

E se o futebol britânico fosse unificado?

O primeiro jogo internacional da história do futebol association ocorreu em 1872, com um 0x0 entre Escócia e Inglaterra em Glasgow. No ano seguinte, os escoceses aproveitaram o crescimento do esporte para criar sua própria federação, a Scottish Football Association. E deixou claro que, no futebol (como no rúgbi e no críquete), os integrantes do Reino Unido teriam vida própria. Mas como seria o futebol das Ilhas Britânicas se, depois daquele amistoso de 1872, as Home Nations tivessem decidido se unir no futebol, como fizeram nos Jogos Olímpicos?

Antes de seguir com as suposições, é importante explicar resumidamente como é o cenário real do futebol britânico, até como forma de deixar as referências mais claras. Politicamente, Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda eram países que formavam o Reino Unido. A única modificação se deu em 1921, quando, após muitas revoltas, a parte predominantemente católica da ilha da Irlanda se separou, formando a República da Irlanda ou Eire (uma nação própria). A pequena parte da ilha que ainda contava com mais protestantes seguiu sob o comando de Londres, no que hoje é a Irlanda do Norte ou Ulster. Hoje, o nome oficial da nação é Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.

No século XIX, as divisões já tinham alguma autonomia e demonstrações e nacionalismo eram comuns. Como ocorreu com os Estados brasileiros, cada região desenvolveu o futebol de maneira relativamente independente e criou suas próprias federações, copas e ligas nacionais. A FA (federação inglesa) criou sua Copa em 1872 e o campeonato em 1889. A Scottish FA não ficou muito atrás, organizando a Copa em 1874 e o Campeonato em 1891. Logo depois veio a Irlanda, ainda concentrada em Belfast, com Copa em 1881 e liga em 1891. Em 1884, teve início da disputa do Home International Championship (Copa Britânica) entre as quatro nações. O torneio durou exatos 100 anos.

Nesse contexto, Inglaterra e Escócia se desenvolveram com maior rapidez, pois eram economicamente mais ricos, tinham contato com o jogo há mais tempo e estabeleceram logo um intercâmbio. Os ingleses tinham uma escola baseada em dribles e lançamentos longos, enquanto que os escoceses se especializaram na troca de passes. Outro fator fundamental na evolução desses dois países foi a implementação do profissionalismo sem demora: 1885 na Inglaterra e 1893 na Escócia.

Com ligas estruturadas, os clubes ingleses e escoceses começaram a atrair os principais jogadores galeses e irlandeses. Atualmente, as ligas inglesas e escocesas têm muito mais espaço em Gales e nas Irlandas do que os campeonatos locais. Esse processo foi facilitado pelo fato de a Irlanda ter dado, por muito tempo, mais atenção às modalidades locais, como o futebol gaélico, e Gales estar mais interessando no rúgbi, esporte em que conseguiu projeção com mais facilidade. Para se ter uma idéia de como os galeses ficaram à parte nesse desenvolvimento, a League of Wales só foi criada em 1992, ainda assim de forma semi-profissional. Até então, o futebol de clubes galeses se limitava à Copa de Gales, disputada desde 1877.

Por fim, deve-se lembrar que as divisões futebolísticas entre os países não são tão precisas. Sem espaço para crescer em seu próprio território, alguns clubes de Gales, como Cardiff City, Swansea e Wrexham, entraram na estrutura do futebol inglês. O Cardiff, inclusive conquistou a FA Cup (Copa da Inglaterra) em 1927 e, hoje, está na League Championship (Segundona inglesa). Internamente, essas equipes puderam participar normalmente da Copa de Gales.

Há também casos de clubes de m país em outra liga do outro lado do mar da Irlanda. Como a Irlanda do Norte era mais forte futebolisticamente, herdou a história da Copa e do Campeonato Irlandês quando a ilha se separou em 1921. A República criou liga e copa próprias em 1922. Em 30 de janeiro de 1972, o exército britânico reagiu de forma violenta a uma marcha em defesa dos direitos civis promovidas por católicos de Londonderry (apenas Derry para os católicos), Irlanda do Norte. Foram mortos 13 manifestantes no que ficou conhecido como Domingo Sangrento (ou Bloody Sunday, o mesmo da música do U2 “Sunday Bloody Sunday”). Com medo de sofrerem hostilidades na cidade (de maioria católica), os clubes protestantes se negaram a enfrentar o Derry City, que foi obrigado a se desfiliar da federação do Ulster e a integrar o campeonato do Eire.

Já na década de 1990, o Wimbledon inovou, ao pedir para mandar seus jogos do Campeonato Inglês em Dublin. O objetivo era atrair os irlandeses que torcem por equipes inglesas. Mas a FA não autorizou e o clube teve de manter sua casa em Londres.

A última tentativa de mudança de federação é promovida até hoje por Rangers e Celtic. Os grandes de Glasgow estão cansados de disputar a pouco competitiva e rentável Liga Escocesa e pretendem integrar a Premiership. No entanto, a proposta tem sido barrada por todos os lados, dos clubes ingleses à Uefa.

Porém, tudo isso seria diferente se, depois daquele amistoso em 1872, os escoceses tivessem decidido se unir aos ingleses, o que provavelmente seria repetido por irlandeses e galeses. Haveria uma única liga do Reino Unido e uma seleção britânica disputando as competições internacionais. E tudo poderia ter sido assim:

Logo que foi criado, o Campeonato Britânico logo mostrou um predomínio dos clubes do centro e norte da Inglaterra, como Preston North End, Everton, Liverpool, Sunderland, Sheffield United e Aston Villa. Como os londrinos ainda estavam um grau abaixo, clubes escoceses como Celtic, Rangers e Queen’s Park não tiveram dificuldades para conseguir espaço na elite das ilhas.

Aos poucos, o esporte se espalhou pelo território do Reino Unido e clubes de outras regiões começaram a despontar. Arsenal e Tottenham Hotspur em Londres, Cardiff e Swansea em Gales e Linfield e Glentoran na Irlanda (do Norte). A independência da República da Irlanda, em 1921, não representou uma grande mudança, pois as equipes mais importantes do novo país, Shamrock Rovers, Bohemians e Shelbourne, militavam nas divisões inferiores do futebol britânico.

O gasto elevado com transporte, o menor poderio econômico de suas regiões e a concorrência de outras modalidades fez com que os representantes de Gales e Irlanda do Norte começassem, a partir da década de 1930, a vagar pelo segundo e terceiro nível, com eventuais aparições na Primeira Divisão. O Cardiff ainda ficou com a FA Cup de 1927. O Linfield, no máximo, foi finalista em 1923. Quem também decaiu foi o Queen’s Park escocês, ofuscado pelo crescimento de Celtic e Rangers.

Aliás, os clássicos da Old Firm se colocou entre os mais importantes do futebol britânico ao lado de Everton x Liverpool, tamanha a rivalidade das torcidas e a capacidade dos times de se manterem sempre entre os melhores da Grã-Bretanha. Até a década de 1950, católicos e protestantes de Glasgow já se igualavam em três títulos britânicos e dois da Copa da Grã-Bretanha.

Enquanto isso, a seleção do Reino Unido se mantinha com aura de imbatível. Aliando as escolas inglesa e escocesa, permanecia invicta em Wembley, Londres, e no Hampden Park, Glasgow, as duas casas dos British Lions. Porém, tal retrospecto era mantido à base de amistosos, já que a federação não inscrevia a equipe em competições oficiais e os Jogos Olímpicos não contavam, pois só aceitavam amadores.

A estréia britânica no cenário internacional se deu na Copa de 1950. A equipe chegou ao Brasil como favorita e confirmou essa expectativa ao golear o Chile na estréia: 4x0 no Rio de Janeiro. O bom resultado fez com que a equipe desprezasse os Estados Unidos a ponto de abusar da indolência. Perdeu por 1x0. Com a moral abalada, os britânicos enfrentaram a Espanha com obrigação de vencer. Só empataram em 1x1 e foram desclassificados ainda na primeira fase.

No Mundial seguinte, os lions ficaram na mesma chave da anfitriã Suíça, da Itália e da Bélgica. Claramente superior aos adversários, os britânicos venceram as duas partidas da primeira fase. Nas quartas-de-final, fizeram uma partida emocionante com o Uruguai, mas caíram por 3x2.

A primeira grande seleção britânica foi montada para a Copa de 1958. Inclusive, foi a primeira que contou com jogadores dos quatro países no elenco. Na primeira fase, o time conseguiu empatar com Brasil e União Soviética e venceu a Áustria garantindo o segundo lugar do grupo. Na segunda fase, os britânicos tiveram um duelo duríssimo com a Suécia, vencendo por apertados 3x2.

Pela primeira vez, os British Lions estavam entre os quatro melhores do mundo. Nas semifinais, o confronto com a rival Alemanha Ocidental foi mais fácil do que parecia, com um controlado placar de 3x1. A caminhada britânica só parou no Brasil, que, com Pelé e Garrincha inspirados, venceu por 5x2 e ficou com seu primeiro título mundial.

A década de 1960 viu o início das conquistas internacionais de clubes britânicos. Na Copa da Uefa, o Birmingham foi bivice-campeão. (1960 e 61). Feito parecido com o do Rangers na Recopa (1961 e 1967). No entanto, Tottanham (1963) e West Ham (1965) ficaram com o título do torneio entre vencedores de Copas nacionais. Mas nada comparável com o Celtic de 1967, o primeiro britânico a se sagrar campeão europeu.

A seleção britânica trouxe glórias ainda maiores. Não conseguiu grandes feitos em Eurocopas e novamente caiu para o Brasil no Mundial de 1962. Mas compensou em 1966. Com uma equipe formada basicamente por ingleses como Banks, Bobby Charlton, Bobby Moore e Hurst,, a Grã-Bretanha aproveitou o fato de sediar o torneio para conquistar o mundo.

Mas não foi fácil. Na primeira fase, estreou com um empate diante do Uruguai. Nas quartas-de-final, venceu a Argentina em um jogo de arbitragem contestada. Nas semifinais, deveria enfrentar Portugal em Glasgow, mas conseguiu transferir a partida para Londres, evitando o desgaste do deslocamento. Na final, contra os combativos alemães-ocidentais, venceram por 2x1 no tempo normal após mais decisões polêmicas do juiz.

A chance de revalidar o título veio em 1970, quando a seleção britânica estava ainda mais forte. Porém, não suportaram o altíssimo nível técnico daquele Mundial, perdendo para o Brasil na primeira fase e sofrendo a vingança da Alemanha Ocidental nas quartas-de-final.

Teve início um período estranho no futebol das ilhas britânicas. Enquanto os clubes da Inglaterra conseguiram grande domínio na liga do Reino Unido, a seleção tinha melhores resultados quando atuava com uma base escocesa. Não foi suficiente para evitar o vexame da desclassificação ainda nas Eliminatórias da Copa de 1974, diante da forte Polônia de Lato.

O fracasso foi compensado em 1978, com a eliminação da Tchecoslováquia campeã européia nas Eliminatórias e o primeiro lugar do Grupo D no Mundial da Argentina, à frente de Holanda e Peru. Na fase semifinal, os britânicos disputaram a vaga na final contra Brasil e Argentina. Acabaram não resistindo à força (no campo e fora) dos platinos. Na última rodada, os britânicos precisavam vencer para ir à decisão. Um empate classificava o Brasil. Os anfitriões só passariam se vencessem. Como, para os argentinos, o jogo valia a vaga na final da Copa que organizavam e uma demonstração de força diante do país que lhe havia tomado as ilhas Malvinas, foi difícil evitar a derrota por 1x3.

No Mundial de 1982, a Grã-Bretanha venceu França e Tchecoslováquia na primeira fase, mas caiu diante da Alemanha Ocidental na segunda. Em 1986, ficou em primeiro no grupo F, formado também por Marrocos, Polônia e Portugal. E, pela segunda vez seguida, os britânicos não resistiram aos rivais germânicos.

Em competições européias, as alegrias britânicas foram maiores. Clubes ingleses conquistaram 6 Copas dos Campeões consecutivas entre 1977 e 1982. O grande time da época era o Liverpool, que se estabeleceu como o maior campeão do futebol britânico. Nesse período, houve uma grande queda de Rangers e Celtic, a ponto de, entre 1980 e 1985, o principal representante da Escócia ser o Aberdeen de Alex Ferguson, campeão da FA Cup de 1982 e 1984 e da Recopa de 1983.

A segunda metade da década de 1980 marcou um momento triste da história do futebol britânico. Os incidentes na final da Copa dos Campeões de 1985 entre Liverpool e Juventus, fez com que a Uefa determinasse o banimento de equipes britânicas de competições européias de clubes. Teve início uma grande crise na liga do Reino Unido.

Os que mais sentiram foram os escoceses. Em 1991, o Celtic foi rebaixado pela primeira vez desde a década de 1920. O Rangers também sentiu, não conseguindo mais manter o nível técnico dos grandes ingleses Liverpool, Manchester United – que tirara Ferguson do Aberdeen – e Arsenal e passou a lutar para não acompanhar o Celtic. O Aberdeen já voltara à sua condição de equipe de segunda divisão.

Para norte-irlandeses e galeses a situação era ainda pior. O principal objetivo de Linfield e Glentoran era vencer o clássico do Ulster, na Terceira Divisão. O Cardiff foi ofuscado pelo Swansea por um tempo, mas logo recuperou o comando do futebol galês. Mesmo assim, estava junto com os norte-irlandeses no terceiro nível.

O cenário só mudou com a criação da British Premier League. A profissionalização total fez com que os clubes de Glasgow conseguissem se reerguer, a ponto de lutarem por vagas na Liga dos Campeões com freqüência. No entanto, isso foi baseado em boa parte na contratação de atletas estrangeiros. Os escoceses pararam de desenvolver jogadores em casa. A seleção britânica era praticamente toda inglesa, com eventuais galeses como Giggs, Hughes e Rush.

A centralização do futebol britânico na Inglaterra despertou o sentimento nacionalista de escoceses, galeses e norte-irlandeses. Sem espaço na seleção nacional e na liga, iniciou-se um movimento de separação futebolística dos países que formam o Reino Unido. O movimento é liderado por Celtic e Rangers, que não levam um título para Glasgow há mais de duas décadas, além de Linfield e Cardiff. Imaginam que, essa seria uma forma de evitar com que o poderio econômico dos ingleses acabe com as forças regionais.

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No rúgbi, as Irlandas até hoje jogam como uma única seleção. E, uma vez por ano, é formada uma seleção das ilhas britânicas, que realiza amistosos contra potências da modalidade como Nova Zelândia, Austrália, França e África do Sul. Essa equipe é chamada de British Lions, apelido que o Balípodo pegou emprestado para esse artigo.

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Nos Jogos Olímpicos, seleções britânicas foram organizadas até Roma’1960. Apenas nas primeiras disputas, quando as Olimpíadas eram incipientes, os criadores do futebol conseguiram medalhas. Em 1996, a Escócia foi semifinalista do Europeu sub-21 masculino e a Inglaterra, quadrifinalista do Mundial feminino de 1995. Ambas equipes teriam direito a uma vaga nos Jogos de Atlanta. Como o COI reconhece apenas a Grã-Bretanha, o lugar no torneio masculino de futebol foi ocupado pela Hungria e, no feminino, pelo Brasil. Se Londres for escolhida como sede das Olimpíadas de 2012, os britânicos terão de formar uma seleção unificada para os torneios de futebol masculino e feminino.

Ubiratan Leal

Obs.: Esse “artigo” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levada a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.

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