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30/03/05

E se...

E se não existissem os Estaduais?

Territorialmente grande, com limitações econômicas e infra-estruturais e uma história marcada por profundas diferenças culturais e políticas regionais, foi meio natural que o futebol surgisse no Brasil em pedaços. A comunicação dificultava a comunicação entre os pioneiros do esporte nas antigas regiões Sul e Leste, por exemplo. Por isso, foi até natural que a estrutura tivesse como base os Campeonatos Estaduais, uma opção mais viável economicamente, que aproveitava o regionalismo já presente na sociedade brasileira e que se reflete na estrutura do esporte até hoje. Então, como seria o futebol brasileiro se os Estaduais nunca tivessem existido?

É provável que a forma de estruturação seguisse modelos parecidos com os que foram adotados em outros países. Afinal, mesmo em países ricos não era barato viajar grandes distâncias no início do século XX. Assim, o futebol brasileiro teria um período inicial com ligas locais amadoras e pouco organizadas para, entre as décadas de 1900 e 1910, criar um campeonato que se considerasse nacional.

Apesar de a Bahia ter sido o segundo estado brasileiro a criar um campeonato próprio, é mais realista acreditar que esse Campeonato Brasileiro fosse um Rio-São Paulo no início. O raio de alcance do torneio aumentaria com o tempo, englobando primeiro Paraná, Espírito Santo e Minas Gerais, depois Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás e Bahia. Mais ou menos o que aconteceu com o Rio São-Paulo na transição para a Taça Roberto Gomes Pedrosa no final da década de 1960.

O desenvolvimento a partir de um centro é provável ocorreu em todos os países latino-americanos com extensão territorial considerável, como Argentina, Peru, México e Chile (está certo, o Chile é pequeno em área, mas é comprido e as distâncias são grandes). A diferença é que, como o Brasil possui muitas cidades ricas e populosas fora do eixo Rio-São Paulo, depois de algumas décadas, a chance de o futebol ficar altamente concentrado no núcleo de origem seria menor que nesses países (realidade até hoje, pela ordem, em Buenos Aires, Lima, Cidade do México/Guadalajara e Santiago).

Imaginando que o Campeonato Brasileiro inaugural teria sido disputado em 1910, os integrantes poderiam ter sido América-RJ, Bangu, Riachuelo, Fluminense, Botafogo, Paysandu-RJ, Paulistano, Germânia, São Paulo Athletic, Ypiranga, Americano-SP e AA das Palmeiras. Pelas campanhas realizadas em seus Estaduais da vida real naquele ano, é provável que o título tivesse ficado entre Botafogo e AA das Palmeiras, com pequena vantagem para os cariocas.

Nas primeiras edições do Brasileirão, o domínio ficaria entre Botafogo, Fluminense e Paulistano, com Americano-SP, América e AA das Palmeiras como forças secundárias. A relação de forças mudaria aos poucos, com a chegada de Corinthians, Palestra Itália e Flamengo ainda na metade da década de 1910. O Vasco, com forte apoio popular, apareceria na primeira metade da década seguinte.

Com a consolidação das primeiras potências brasileiras, alguns clubes perderiam espaço e desapareceriam. De qualquer forma, o Campeonato “Nacional” já teria uma hierarquia de forças, com times grandes, médios e pequenos. É importante considerar que, com apenas um título a ser dividido entre cariocas e paulistas por ano, menos equipes teriam oportunidade de serem campeãs e talvez não houvesse tantos clubes de fortes nas duas cidades. Os primeiros a deixarem de ser considerados grandes seriam Portuguesa, América e Bangu.

A chegada do profissionalismo na década de 1930 marcou a retirada de Paulistano e Germânia do futebol. Com um torneio nacional já estruturado, o São Paulo teria mais dificuldade em se tornar um grande do que teve. Porém, com o vácuo deixado pelo Paulistano, é possível acreditar que São Paulo (a cidade) teria espaço para uma terceira equipe grande.

Com o início da integração nacional, nos anos 40 o Brasileirão passaria a contar com clubes mineiros e paranaenses. Pelo retrospecto no torneio local, o Atlético-MG provavelmente já entraria disputando as primeiras posições. Cruzeiro (em crescimento), América-MG (em leve decadência) e Coritiba teriam forças apenas para ficar no bloco intermediário, enquanto que o Atlético-PR ficaria um pouco abaixo. Villa Nova e Ferroviário-PR estariam na Segunda Divisão, com aparições eventuais na elite.

Anos depois, Grêmio, Internacional e Bahia também se incorporariam. Se o Brasileirão mantivesse torneios enxutos, com cerca de 20 clubes, goianos (liderados pelo Goiânia) e catarinenses provavelmente ficariam na Segunda Divisão.

O problema é que, já na década de 1950, o número de clubes que disputariam o único título importante do calendário nacional seria muito grande. É inevitável que muitos ficariam sem conquistas e veriam suas torcidas minguarem. Ainda mais porque o surgimento do Santos de Pelé levaria boa parte dos troféus.

A tendência é que São Paulo e Rio de Janeiro teriam dois ou três grandes clubes e um ou dois intermediários cada. Descobrir quem seria esse mediano é difícil, pois dependeria de quem apresentasse sinais de fraqueza em um cenário nacional que não existia de fato. Corinthians e São Paulo, por experimentarem longas estiagens de títulos, seriam bons candidatos. Porém, nesse período, a torcida corintiana, por exemplo, não parou de crescer. E, mesmo que o São Paulo fosse esse clube mediano, em pouco tempo teria condições de retomar o lugar do Santos, que sentiria a redução do ritmo de vitórias a partir da metade dos anos 70. No Rio de Janeiro, seria ainda mais difícil descobrir quais dos grandes se tornariam medianos, pois houve menos polarização que em São Paulo. Talvez Vasco (em baixa entre 1958 e 1970) ou Botafogo (entre 1968 e 1989).

Em centros um pouco menores, como Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Salvador, o mais provável é que apenas um clube se consolidaria no cenário nacional e teria grande torcida. No máximo, um segundo clube de porte médio e brilho esporádico, mais ou menos como ocorre em Turim (Juventus e Torino), Barcelona (Barcelona e Espanyol), Londres (Arsenal e Chelsea, esqueçamos a era Abramovich por um instante), Munique (Bayern e München 1860) e Porto (Porto e Boavista).

No Paraná, provavelmente o Coritiba seria o principal clube. Mas não se pode desconsiderar o fato de o Atlético-PR sempre ter mantido uma torcida participativa, mesmo em momentos menos felizes. Em Salvador, o Vitória talvez nem tivesse condições de alçar vôos mais altos, já que só se estabilizou no cenário local na década de 1960, quando provavelmente não haveria mais espaço para uma nova força regional no Brasileirão. No Recife, Náutico e Santa Cruz teriam uma vantagem relativa, pois estavam fortes no final dos anos 60 e início dos 70. Em Minas Gerais e em Porto Alegre as forças foram muito divididas e talvez até houvesse condições de os dois grandes se manterem entre os melhores do país por mais tempo, até que, aos poucos, um perdesse terreno.

Se nem as cidades com mais tradição no futebol teriam tantos clubes grandes quanto possuem hoje, a situação seria mais crítica em cidades do interior. Sem os Estaduais, o futebol fora das capitais teria sempre de sobreviver em um contexto nacional e não conseguiria respirar direito. Provavelmente, apenas Campinas e o norte do Paraná (Londrina ou Maringá) teriam condições de montar uma equipe cada que tivesse lugar na elite.

Com a nacionalização definitiva do torneio, a partir da década de 1960, capitais como Goiânia, Belém e Fortaleza também teriam seu representante. Porém, ao contrário do que ocorre hoje, provavelmente cada uma dessas cidades teria apenas um clube entre as potências nacionais. Os outros fariam figuração na Segunda ou Terceira Divisão. E, como esses clubes regionais não teriam nem títulos estaduais no currículo, teriam mais dificuldade em angariam muitos torcedores. Ainda assim, é possível imaginar que Goiás, Ceará ou Fortaleza e Paysandu ou Remo conseguiriam algum espaço.

Tradicionalmente consideram-se 12 os grandes clubes brasileiros (Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Atlético-MG, Cruzeiro, Grêmio e Internacional), com a eventual adição do Bahia. Nos últimos anos, a queda de rendimento de alguns desses (Grêmio, Fluminense, Bahia, Botafogo e Palmeiras já andara pela Segundona e até Terceirona) e o crescimento de Atlético-PR, essa lista tende a mudar.

Porém, se os Estaduais nunca tivessem existido, ela seria bem diferente. Não haveria tantos grandes clubes em cada capital e o interior seria muito fraco. Além disso, inibiria aventuras como os Brasileirões de mais de 60 clubes da década de 1970, pois esses sempre utilizaram os Estaduais como classificatório.

Para que clubes do interior existissem, a Terceira Divisão seria regionalizada e com mais importância e organização que a atual. O que não seria tão improvável, pois o torcedor de time pequeno não estaria acostumado a ver os grandes de perto e talvez aceitasse melhor a realidade do terceiro escalão. O mesmo ocorreria com capitais de menor porte, como Maceió, Natal, Brasília, Campo Grande, Manaus e Florianópolis, cujas equipes sequer teriam os títulos estaduais para contentar seus simpatizantes.

Uma saída para minimizar isso seria organizar uma Copa do Brasil nos moldes da FA Cup, da Copa do Rei ou da Copa da França, em que praticamente todos os clubes do país podem se inscrever. Até porque não haveria Campeonatos Estaduais para servir de classificatório para a Copa do Brasil.

*

Esse texto é claramente hipotético e não pretende defender ou atacar a existência dos Estaduais. Até porque trata de como seria o passado do futebol brasileiro sem esses torneios, não o futuro. O Balípodo já disse o que acha da existência dos Estaduais aqui.

Ubiratan Leal

Obs.: Esse “artigo” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levada a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.

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