Após empatar em casa com a Suíça, a França se colocou em posição delicada nas Eliminatórias européias para a Copa de 2006. Os bleus lideram o Grupo 4 ao lado de Israel e Irlanda (se vencer a partida a menos que tem, a Suíça também alcança a ponta), mas já atuou contra essas três equipes em Saint-Denis, todos empates em 0 x 0. Ou seja, terá de bater os adversários diretos fora de casa, e talvez descontar o saldo de gols desfavorável em relação a irlandeses e suíços. Não seria impensável dizer que a França pode ficar de fora do Mundial. O que faz lembrar as Eliminatórias da Copa de 94, quando a França também foi desclassificada por causa de tropeços inesperados em casa.
Mesmo tendo sido desclassificado da Copa de 90 ainda nas Eliminatórias por Iugoslávia e Escócia e vindo de uma experiência pouco feliz na Eurocopa de 1992, o time francês que tentaria conquistar um lugar no Mundial dos Estados Unidos era considerado favorito. Afinal, encontrara uma geração com condições de substituir à da década anterior. As principais estrelas estavam no ataque, com o já experiente Papin e o explosivo Cantona, mas os outros setores do campo também tinham bons nomes, como Deschamps, Blanc, Desailly e Djorkaeff.
Outro motivo para o otimismo francês era a relativa facilidade do grupo, que, apesar de não contar com nenhum “saco de pancadas” notório, deixava a vaga acessível (lembrando que os dois primeiros iriam aos Estados Unidos). Suécia e Áustria tentavam se reconstruir após uma decepcionante campanha na Copa da Itália, em que ambas seleções entraram como forças de respeito e nem passaram da primeira fase. Os suecos até mostraram evolução na Eurocopa que sediaram em 1992, chegando às semifinais. Os austríacos estavam em clara decadência, chegando a perder na estréia internacional das Ilhas Faroe. Quem também poderia complicar a trajetória francesa era a Bulgária, que tinha uma nova geração de talento, liderada por Stoitchkov e Balakov. De resto, Finlândia e Israel, em tese, só dificultariam quando atuassem em casa.
Essa tendência se confirmou logo de início. A Finlândia perdeu em casa para Bulgária (0 x 3) e Suécia (0 x 1), enquanto que Israel caiu diante de Suécia (1 x 3), Bulgária 0 x 2) e França (0 x 4). O Grupo 6 das Eliminatórias européias parecia que seria decidido nos confrontos diretos. A Suécia aproveitou o mando de campo para bater a Bulgária (2 x 0), que compensou passando pela França (também 2 x 0), que fez o mesmo com a Áustria (mais um 2 x 0).
Entre os quatro candidatos à classificação, o fato de jogar vinha sendo decisivo. Até que a França começou a se destacar ao vencer a Áustria em Viena (1 x 0). Os austríacos ainda caíram diante da Finlândia e ficavam virtualmente fora da briga. Em seguida, a Bulgária empatou em casa com Israel e também parecia ficar para trás. Em uma partida que seria importante na definição do primeiro colocado da chave, a França arrancou um bom empate com a Suécia em Estocolmo (1 x 1).
Tudo parecia sob controle. A duas rodadas do final, os franceses estavam com 13 pontos (na época, a vitória valia duas unidades) e teriam apenas partidas em casa. A Suécia estava com 12 e também não teria dificuldades em manter sua posição. A Bulgária, com 10, ainda tinha esperanças. Áustria (6), Finlândia (3) e Israel (2) estavam fora.
Em 13 de outubro de 1993, a Suécia bateu a Finlândia (3 x 2) e praticamente se garantiu. Para a França, uma vitória simples contra os lanternas israelenses era o suficiente para assegurar uma vaga no Mundial. Os visitantes ainda não haviam vencido no torneio e o jogo seria em Paris, onde os bleus não perdiam desde 1987.

O favoritismo era tão grande que o técnico Gerard Houllier escalou a equipe com três atacantes: Papin, Ginola e Cantona. Nem o susto provocado pelo gol de Ronen Harazi atrapalhou. Tanto que, no intervalo, Sauzée e Ginola já haviam colocado os franceses em vantagem. O resultado parecia controlado até que Berkovitch empatou em um chute despretensioso. A igualdade não daria a vaga à França, que buscou recuperar a vantagem. Em um contra-ataque, aos 48 minutos do segundo tempo, a defesa dos anfitriões falhou e Israel virou surpreendentemente.
A derrota em casa de virada foi um duro golpe, mas a situação dos gauleses ainda era confortável. Bastava um empate no Parc des Princes com a Bulgária (que vencera a Áustria por 4 x 1) para ficar em segundo lugar. Franceses e búlgaros fizeram um jogo nervoso. Aos 32 minutos, Deschamps cruzou, Papin ajeitou de cabeça para o voleio certeiro de Cantona. No entanto, o empate búlgaro veio apenas 5 minutos depois, mantendo a tensão.
A Bulgária tentava a virada, mas a França era eficiente no controle do adversário e até teve chances de fazer o segundo gol. Quando o jogo parecia decidido, Ginola fez um lançamento errado. A defesa búlgara recuperou a bola e, no desespero, chutou para o campo francês. A bola viajou e encontrou o atacante Kostadinov pela direita. Mesmo com ângulo reduzido, o atacante arrematou de primeira, surpreendendo o goleiro Lama. Eram 46 minutos do segundo tempo e os bleus não tinham mais como evitar a segunda eliminação consecutiva de Copa do Mundo ainda nas Eliminatórias. E, dessa vez, por causa de dois resultados inesperados em casa.
FICHAS TÉCNICAS
França 2x3 Israel
Eliminatórias da Copa de 1994
Local: Estádio Parc des Princes (Paris-FRA)
Público: 30.000
Árbitro: Alan Snoody (Irlanda do Norte)
França: Lama; Desailly, Roche (Lizarazu) e Blanc; Petit, Deschamps, Le Guen e Sauzée; Papin, Cantona e Ginola (Djorkaeff). T: Gerard Houllier
Israel: Ginzburg; Halfon (Schwartz), Alon Harazi, Klinger e Glam; Hazan, Atar, Levy e Nimni (Berkovitch); Ronen Harazi e Rosenthal
Gols: Ronen Harazi (21/1º), Sauzée (29/1º), Ginola (39/1º), Berkovitch (38/2º) e Atar (48/2º)

França 1x2 Bulgária
Eliminatórias da Copa de 1994
Local: Estádio Parc des Princes (Paris-FRA)
Público: 48.402
Árbitro: Leslie Mottram (Escócia)
França: Lama; Desailly, Roche e Blanc; Petit, Deschamps, Le Guen, Sauzée (Guérin) e Pedros; Papin (Ginola) e Cantona. T: Gerard Houllier
Bulgária: Mikhailov; Kremenliev, Ivanov, Hubtchev e Tzvetanov (Aleksandrov); Letchkov (Borimirov), Yankov e Balakov; Kostadinov, Penev e Stoitchkov. T: Dimitar Penev
Gols: Cantona (32/1º) e Kostadinov (37/1º e 46/2º)
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Das formações que perderam para Israel e Bulgária, sete jogadores seriam campeões do mundo em 98 (Lama, Desailly, Blanc, Lizarazu, Petit, Deschamps e Djorkaeff).
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Depois da derrota para a Bulgária, Gérard Houllier se demitiu da seleção francesa.
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O volante Le Guen, que atuou nas duas partidas decisivas para a desclassificação da França, é Paul Le Guen, técnico da selação francesa na Eurocopa 2004. Na época, ele era meia do Paris Saint-Germain.
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Como consolo para os franceses, Bulgária e Suécia aproveitaram muito bem a chance que tiveram de disputar a Copa de 94. Ambos chegaram até as semifinais e disputaram o terceiro lugar, com vantagem sueca (4x0). Os búlgaros se contentaram em vencer Argentina e Alemanha, além de fazer o artilheiro do torneio, Stoitchkov.
Ubiratan Leal
Imagem: Bulgarian Football e L'Équipe