Muitas vezes é fácil reconhecer um momento que ficará marcado na história. Um bom exemplo foi a anunciada eleição de Lula, um ex-líder sindical que alcançou o cargo mais alto da República. No futebol, essas coisas também acontecem. Um caso recente foi a partida entre o time A do Palmeiras e o time B, também, do Palmeiras. Mas isso não é tão estranho quanto ver uma final da Taça Guanabara, em pleno Maracanã, entre Americano de Campos e Volta Redonda.
Durante a semana que antecedeu a final, os jornais destacaram um confronto à parte. Não era Túlio Maravilha, artilheiro corriqueiro na época de vacas já nem tão gordas pelos lado do Rio, prometendo gols em cima de Erivélton, goleiro do time campista. Nem mesmo ideologias táticas dos técnicos foram postas na mesa. A atenção esteve toda voltada para a grande disputa entre as torcidas: quem levaria à capital do Estado o maior número de ônibus e vans com torcedores apaixonados?
Nesse ponto, o Americano teve contra si elementos “extra-campo”. A antipatia pelo clube campista é enorme, já que é o time do coração de Eduardo “Caixa d’Água” Vianna, que comandou a Ferj (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro) por 19 anos e hoje está afastado judicialmente do cargo de presidente. Outro aspecto que vai contra o alvinegro é o fato de Campos, no norte do estado, ser o curral eleitoral do casal Garotinho, dupla que cada vez mais em baixa entre cariocas e fluminenses.
Por isso, quem esteve no estádio ou assistiu a partida pela TV não teve dificuldade em notar que, dos 35.541 pagantes, cerca de 25 mil eram do Voltaço. Todos com muito orgulho e com amor. Mesmo assim, boa parte dos torcedores vestiu a camisa dos quatro grandes enfraquecidos – Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco – para vibrar com a chance de gritar “é campeão”. Já que seus times “principais” fazem (má) figuração no campeonato, a solução era mesmo essa, escolher entre uma das equipes do interior e torcer.
Como o torcedor carioca não é bobo, rumou logo para a arquibancada do lado direito das cadeiras especiais no Maracanã, onde tradicionalmente ficam rubro-negros e tricolores. A festa dos aurinegros de “vê-érre” (VR, ou Volta Redonda) era maior e deu ao jogo um espírito de bloco de carnaval, com protestos, alegria e diversão. Até porque a partida propriamente dita não prometia ser um espetáculo. O que se confirmou após os 90 minutos sem gols.
Durante a disputa de pênaltis, quando um jogador do Americano se preparava para perder, o nome de “Lugão”, goleiro do Volta Redonda, ecoava no Maracanã. Entre um grito e outro, ouvia-se com clareza um “é seleção”, mais um recurso do humor vivido intensamente durante o dia. A mesma ironia os torcedores utilizaram após uma pequena confusão, que quase chegou às vias de fato. Após ser separada a briga entre dois aflitos adoradores do Voltaço, a massa em volta não perdoou e gritou: “palhaço, palhaço”, numa referência ao aço da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional, estatal fundada por Getúlio Vargas, privatizada no governo Fernando Henrique Cardoso e motor da cidade de 250 mil habitantes. Sua importância para Volta Redonda inspirou o apelido Voltaço).
Infelizmente, nem só de festa vive o futebol. Depois de gozar a alegria da vitória alheia, muitos torcedores cairão na real e encararão o fato de que seus times “principais” estão mal. A conquista da Taça Rio, que garante uma vaga na final diante do Volta Redonda, é a meta dos quatro grandes e, mais do que isso, uma questão de honra para o futebol da capital.
Ainda que Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco consigam a reabilitação momentânea, é importante reconhecer o atual estágio degradante do futebol carioca. O clássico Voltaço x Americano na final da Taça Guanabara nada mais é do que um símbolo da decadência do bate-bola disputado pelas bandas do Rio de Janeiro. E, ao menos que esse quadro não se reverta, o ingresso da final tem tudo para virar uma relíquia de valor.
FICHA TÉCNICA
Americano 0 x 0 Volta Redonda (2x3 nos pênaltis)
Final da Taça Guanabara de 2005
Data: 20 de fevereiro de 2005
Local: estádio do Maracanã, Rio de Janeiro
Público: 35.541
Árbitro: Luís Antônio da Silva Santos
Americano: Erivélton; Edinho, Ciro e Éder; Flavinho (Adriano Sela), Índio e Kim; Flávio Santos, Leandro Sena e Butti (Lucas); Marco Antônio (Washington). T: Rubens Filho
Volta Redonda: Lugão; Schneider, Aílson, Alemão e Maciel; Jonílson (Élson), Haroldo (Adriano Felício), Gláuber e Mário César; Humberto e Túlio (Fábio). T: Dário Lourenço
Cartões amarelos: Flávio Santos, Edinho, Glauber e Índio
Pênaltis: Fábio, Maciel e Élson converteram e Alemão e Schneider perderam para o Volta Redonda; Washington e Sena marcaram e Adriano Sela, Lucas e Edinho desperdiçaram pelo Americano
Eduardo Zobaran
Imagens: Lancenet, Alexandre Cassiano/O Globo e Roberto Jóia/O Diário
Obs.: texto originalmente publicado no blog Vale Nada