Uma semana antes do clássico entre Santos e Corinthians, a imprensa já anunciava que seria o tira-teima entre Robinho e Tévez. Sites fizeram pesquisas com os internautas e, depois do jogo, poucos conseguiram esconder a satisfação com o fato de o brasileiro ter vencido e “provado” ser melhor. Os argentinos contra-atacaram e o Olé gastou algumas linhas para tentar defender o corintiano. Porém, esse jogo não definiu nada, como já ocorrera com os duelos anteriores entre os dois jogadores. Serviu apenas como diversão e molho para um dérbi local.
O princípio de usar um duelo para aumentar a expectativa para uma partida é válido, desde que não incorra em abusos, incitação a violência ou outra coisa desabonadora. Felizmente, não foi o caso. O problema agora é, depois do tal confronto, usar seriamente o resultado como prova definitiva de superioridade de um sobre o outro. E, pior, usar a comparação entre os dois como mais uma mostra de como o futebol brasileiro está acima do argentino.
Esse defeito não é exclusivo da imprensa brasileira. A própria maneira como o Olé reagiu não esconde isso (aliás, o Olé adora fazer comparações entre argentinos e brasileiros, mas isso é outra discussão, até porque é uma questão mal resolvida entre os dois lados, um problema de comunicação). De qualquer forma, um erro não justifica o outro. Pior, pois quem o repete se mostra tão pequeno quanto o “infrator” original.
Mas, voltando...A imprensa, sobretudo a de São Paulo, tem mostrado uma relação dúbia com o meia argentino do Corinthians. Ao mesmo tempo em que alguns o glorificam e conseguem a audiência da torcida corintiana, outros não escondem a implicância com o fato de ele ser argentino e bloqueiam qualquer possibilidade de elogio, nem o mais simplório. E ganha o apoio dos espectadores/leitores/ouvintes que não gostam de argentinos. Há ainda os que conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo, uma verdadeira façanha.
Daí, é só uma derrota contundente do alvinegro de Tévez contra o alvinegro de Robinho para o desempenho do meia pelo Boca Juniors e pela seleção olímpica da Argentina ser esquecido. E o meia é obrigado a ouvir perguntas desagradáveis, indelicadas e agressivas como “quando você vai jogar um futebol de US$ 20 milhões?”.
O que não significa que as comparações são erradas. Elas sempre existiram e valem boas discussões. Nesse caso, entretanto, são feitas sobre bases erradas. Usar o resultado do clássico desse domingo como verdade absoluta é esquecer que o resto do time santista não fosse assombrosamente superior ao Corinthians (o mesmo vale para quem usar o Pré-olímpico de 2004 para defender o argentino).
Mais importante que isso é o fato de os dois jogadores terem apenas 21 anos (Robinho é exatos 11 dias mais velho). Uma comparação só poderá ser realizada após um tempo, quando ambos tiverem alcançado seu auge técnico e não estiverem mais suscetíveis a tantas oscilações.
O mais correto, por hora, é valorizar a diferença fundamental entre os verbos “ser” e “estar”, ignorada por tantos idiomas: quem está melhor, e não quem é melhor. Hoje, Robinho está melhor. Em 2003, o momento era de Tévez. Fazer muita onda com isso é projetar em uma discussão periférica um monte de outros elementos. Como a vontade de ficar bem com uma torcida ou outra.
*
Para que vocês não vejam o Balípodo como profetas do acontecido, veja o que o site falou antes do Pré-Olímpico, de um período em que Robinho foi taxado de farsa pela imprensa (a mesma que tanto baba hoje), sobre a rivalidade Brasil x Argentina e sobre os platinos que acham Maradona melhor que Pelé.
Ubiratan Leal