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20/01/05

Cultura & Mídia

É tudo provocação

Quando dois garotos se esbarram de forma mais agressiva no recreio ou mesmo na rua, os demais logo formam uma rodinha em volta de ambos e incentivam a briga. É um comportamento mais que natural na sociedade infantil. Curioso é ver como a imprensa esportiva parece não ter passado dessa fase. Ao ver a possibilidade de uma troca de insultos, logo arma o cenário e abre espaço para os potenciais brigões. Como se esses fossem lutadores de boxe buscando chamar a atenção para uma disputa de título mundial em algum hotel-cassino de Las Vegas.

Essa é a única interpretação séria a respeito das farpas disparadas por Pelé para Romário e por Romário para Pelé. Todas não passaram de repostas a provocações partidas da imprensa. Ou, pelo menos, da criação de uma situação que os levou a isso.

Primeiro, perguntam a Pelé se ele acha que Romário deveria seguir com sua carreira. Se ele não responde, é taxado de hostil com a imprensa e de ter surtos de estrelismo. Se der uma resposta evasiva, é considerado um politiqueiro. E, se fala a verdade, corre o risco de arcar com a repercussão do que declarou. Bem, Pelé aparentemente disse o que pensava, que Romário deveria apressar o fim efetivo de sua carreira.

Imediatamente, um batalhão de jornalistas foi perguntar o que o atacante do Vasco achava das declarações de Pelé. Típica atitude de quem quer cutucar, provocar. Era uma entrevista de conteúdo já sabido. E Romário não decepcionou os repórteres, até exagerando nas críticas ao ex-craque do Santos. No dia seguinte, ambos fizeram as pazes. Disseram a pura verdade: apenas responderam a perguntas que lhes foram feitas.

Há uma sucessão de erros aí. Perguntar a Pelé o que ele acha sobre Romário é legítimo. Mas o que Pelé diz, nesse caso, é apenas uma opinião. Como a de tantas pessoas. Em nenhum momento o ex-craque do Santos sugere uma ingerência na vida pessoal e profissional do vascaíno. Porém, ao abordar Romário, é essa a idéia transmitida. Justamente para que o atacante dê uma resposta mais ríspida.

O mesmo ocorreu no ano passado, quando Lula criticou algumas decisões de Carlos Alberto Parreira. A opinião do presidente da República, nesse caso, é a de um torcedor comum. A palavra dele tem tanto peso quanto a de tantos torcedores que se manifestam contra a seleção todo dia. Porém, dá-se uma aura especial a isso, como se Lula quisesse usar seu poder político para influenciar a direção da CBF.

Óbvio que a resposta do técnico é a de alguém que se prepara para um confronto: “eu não interfiro no ministério dele, ele não interfere na minha seleção”. Mas quem falou em interferência? Nos termos em que ocorreram as declarações, opinar não é interferir. Ainda se fosse na época da ditadura militar... Ah, importante dizer que Parreira, como cidadão brasileiro, tem todo o direito de se posicionar a respeito do governo Lula.

Até podem argumentar que a imprensa está apenas dando o direito de resposta ao jogador. Hipocrisia. Se respeitar direito de resposta para comentários fosse considerado tão fundamental, o noticiário de segunda-feira seria composto apenas por jogadores, técnicos e árbitros respondendo às críticas que sofreram nas mesas redondas do domingo. Claro, o direito de resposta é direito, principalmente se alguém for acusado de algo. Mas não é o caso de discordar de Parreira ou sugerir que Romário antecipe o fim da carreira.

No final das contas, em nome da criação de algum rebuliço temporário, a imprensa assume o papel de criança que provoca dois amigos a brigarem. A própria celeuma criada em torno de cada uma das declarações já dão o tom da troca de impropérios. O melhor mesmo é deixar para lá da próxima vez.

Ubiratan Leal

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