Em 1970, os mexicanos estavam tão entusiasmados com a oportunidade de, pela primeira vez, ver a Copa do Mundo de perto que abusaram do ufanismo. Tanto que não se limitaram a apoiar a seleção local e, depois dessa perder para a Itália por 4x1 nas quartas-de-final, o Brasil. Naquele Mundial, os anfitriões também torceram efusivamente por Abel Aguilar, único árbitro da casa. Pode parecer estranho levar o patriotismo a níveis tão grandes, a ponto de aplaudir até um árbitro (normalmente encarado como inimigo do torcedor), mas é quase isso que boa parte da imprensa brasileira tem feito com Vanderlei Luxemburgo e seu Real Madrid.

De repente, tudo o mundo madridista passou a ser visto de forma diferente. De piada pela incompatibilidade na relação euros investidos x resultados, o clube merengue se transformou em representante europeu do futebol brasileiro. Não importa que apenas três compatriotas estejam lá, e não estou contando a equipe de apoio ao treinador, já que ninguém torcerá mais ou menos pelo Real por causa de Marco Antônio Teixeira.
Logo na primeira semana de trabalho, Luxemburgo determinou que os treinos seriam realizados em dois períodos todo dia e multou Beckham por se atrasar no retorno do descanso de Ano Novo. E a imprensa brasileira não tardou em dizer que, agora, sim, o profissionalismo chegara ao Real Madrid e que Beckham, o mais criticado dos galácticos, aprenderia a levar as coisas a sério. Como se o técnico brasileiro fosse o responsável por tudo. Vale dizer que o treino em dois períodos já estava no planejamento do clube para esse ano antes de Luxemburgo chegar. E que, no mesmo dia que o inglês não apareceu na hora certa no primeiro treino de 2005, quatro jogadores brasileiros do porto (Diego, Derlei, Pepe e Carlos Alberto) tiveram a mesma atitude do madridista e não foram criticados por falta de profissionalismo.
Depois, elogiou-se a mudança de atitude do Real Madrid diante da Real Sociedad no jogo de sete minutos. Primeiro, é lógico que, tendo apenas sete minutos, os jogadores blancos poderiam correr o máximo sem risco de cansar. Claro, houve uma mudança de atitude e a troca de treinador é responsável por isso. Ainda assim, dizer que já havia o dedo de Luxemburgo naquela equipe é um grande exagero. No máximo, ele soube motivar o grupo. Nada mais que isso.
Porém, nenhum ufanismo foi tão patético quanto o visto no clássico da capital espanhola. Antes do jogo, o volante colchonero Sosa disse o que toda a imprensa brasileira comentava até Luxemburgo ser contratado pelo Real: que Beckham era muito marketing e que Figo estava decadente. Se considerarmos que isso fazia parte do pacote de provocações que antecedem a um clássico regional, nada mais natural.
No entanto, para alguns jornalistas brasileiros, criticar o Real de Luxemburgo é criticar o Brasil. Quando os merengues fizeram 1 x 0, o narrador da Bandeirantes, Éder Luís, chegou ao cúmulo de dizer, em um tom zagalliano, que Sosa teria de engolir suas palavras. Como se o uruguaio do Atlético tivesse cometido alguma espécie de desrespeito mortal a alguém. E, se o fez, seria algo para resolver com portugueses e ingleses.

Não parou por aí. A vitória por 3 x 0 foi suficiente para se anunciar um novo Real, novamente batendo na tecla de que Luxemburgo já havia mudado tudo. Quem assistiu à partida com atenção viu que os merengues continuam os mesmos. Com o mesmo buraco no meio-campo e dependendo apenas do talento de seus jogadores, como Ronaldo, Zidane e Casillas. E essa fraqueza ainda evidente do Real não é culpa de Luxemburgo. Ele nada pôde fazer além de iniciar seu programa de treino e de tentar animar os jogadores.
Taticamente, o Atlético era muito mais estruturado e merecia, no fundo, até ter vencido o jogo. Até Luxemburgo admitiu que o placar foi irreal. Enquanto isso, sobraram por aqui chavões oportunistas como “futebol é bola na rede” ou “quem não faz, toma”. Se o Real tivesse dominado e o Atlético goleado, certamente não seriam ouvidos tais clichês.
Para terminar, na Record, o repórter Fernando Fernandes – enviado a Madri – disse diretamente ao técnico que ele devolvera à torcida madridista o orgulho por sua equipe após anos. Como se as duas vitórias fossem apenas responsabilidade do brasileiro e se o torcedor do Real em algum momento deixasse de ter orgulho do time.
A imprensa espanhola tem consciência de que o Real está melhor e Luxemburgo até começou bem. Mas que os resultados são mais conseqüências de uma onda de otimismo em torno do clube do que por mudanças técnicas ou táticas efetivas. Infelizmente, parece que parte da imprensa brasileira não consegue parar para pensar. Prefere fazer como os torcedores mexicanos em 1970. Apoiar incondicionalmente. Sem ao menos pensar no que está acontecendo.
Ubiratan Leal
Imagens: Le Maroc e Europa Press
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