http://www.gardenal.org/balipodo/balipodo_logo_2005.gif

Busca


Últimas atualizações

Chutômetro
Chutômetro 6

Chutômetro
Soluções do Chutômetro 5

Quem é vivo...
Ruy Ramos

Com que roupa...
Atlético de Madrid

Histórias
O Manchester que assustou United e City

Cultura & Mídia
La Pasión Laica

E se...
E se a Ponte Preta ganhasse a final em 1977?

Cultura & Mídia
Sociedade não precisa saber da vida de Casão

Arquivos

Procure nos alfarrábios por assunto

Contato

ubiraleal@gmail.com

RSS

Clique aqui e veja o Balípodo em RSS

Powered by

Gardenal.org

Considerações legais

Clique aqui


« É cedo, mas cariocas não começam bem o ano | Página inicial | De repente, um novo super-herói »

10/01/05

Histórias

A guerra que não foi do futebol

A história sempre será contada com buracos, pois cada um tem sua versão e a própria parcialidade de quem a ouve e repassa também ajuda a distorcê-la. No futebol, u caso típico é o do jogo dessa foto. Convencionou-se dizer que essa partida foi a que ocasionou, indiretamente, o maior número de mortes da história do futebol. Foi a vitória de El Salvador sobre Honduras nas Eliminatórias para a Copa de 1970, que, na crença popular, teria levado os dois países a um conflito armado conhecido até hoje como “Guerra do Futebol”.

As relações salvadorenho-hondurenhas nunca foram das melhores. Entre 1929 e 1959, os dois países já haviam entrado em guerra duas vezes. E, em meados da década de 1960, já havia indicações de que um terceiro conflito não tardaria.

Naquela época, El Salvador era um país inchado demograficamente, com mais de 3 milhões de habitantes em cerca de 21 km² (é o menor país da América Central continental). Enquanto isso, Honduras tinha 2 milhões de habitantes espalhados em 110 km². Era evidente como havia carência de espaço e trabalho em El Salvador, o que resultou em um grande fluxo migratório de salvadorenhos em direção a Honduras. Esse fenômeno foi incentivado pelo fato de a fronteira entre essas nações serem mal definidas na época.

Mas a situação não era boa em Honduras. O governo do coronel Oswaldo López Arellano perdia suporte popular devido à profunda crise econômica. A briga por espaço (emprego) na sociedade hondurenha acirrou ainda mais a rivalidade. Ainda mais se levarmos em conta que os dois países, rivais históricos desde décadas antes, serem governados por ditaduras militares nacionalistas de direita dentro do mesmo processo que ocorreu no resto da América Latina (incluindo o Brasil).

Em 1967, 45 militares salvadorenhos foram presos em território hondurenho com um carregamento de armas, o que configuraria, de acordo com o governo de Tegucigalpa, o apoio de San Salvador a grupos paramilitares que pretendiam derrubar López Arellano. Para Honduras, os salvadorenhos ainda se aproveitavam da indefinição fronteiriça para entrar em território hondurenho e levar madeiras finas.

O sentimento anti-salvadorenho crescia em Honduras. Até porque os Estados Unidos tentavam criar o mercado Comum Centro-Americano, uma saída para agradar os países da região e evitar que outros seguissem o exemplo de Cuba e partissem para um regime comunista. Durante as negociações, ficou a sensação entre os hondurenhos de que os países mais desenvolvidos da região – El Salvador e Guatemala – foram mais hábeis e tirariam vantagem dos vizinhos.

Para piorar, houve suspeita de fraude nas eleições municipais hondurenhas de 1968. Após manifestações, o país entrou em greve geral. O governo exilou o principal líder trabalhista e abafou o movimento. Em seguida, começou, com ajuda da imprensa, a culapr os imigrantes salvadorenhos pelos problemas de Honduras. Em Tegucigalpa, grupos nacionalistas chegavam a dizer “hondureño, toma um leño y mata a um salvadoreño”.

Em abril de 1969, López Arellano anunciou uma reforma agrária, a qual proibia qualquer estrangeiro de possuir terras em Honduras. Na prática, ele estava expulsando os trabalhadores rurais salvadorenhos que viviam no país. Como conseqüência, cerca de 100 mil pessoas tiveram de, subitamente, voltar a El Salvador, que teve agravado seus problemas sociais com o superpovoamento repentino.

Apenas aí o futebol entra na história. Em 8 de junho de 1969, pelas semifinais das Eliminatórias da Concacaf para a Copa do México, Honduras recebeu El Salvador em Tegucigalpa. Na noite anterior à partida, os jogadores salvadorenhos tiveram de dormir longe das janelas do hotel porque dezenas de torcedores hondurenhos atiravam pedras e outros objetos. O jogo em si foi relativamente normal, com vitória da seleção anfitriã por 1x0. De qualquer forma, o sentimento de ódio mútuo entre os países piorara sensivelmente.

Na partida de volta, a torcida salvadorenha foi ainda mais hostil com os visitantes. Após conflitos nas ruas, doze hondurenhos foram mortos. Em campo, El Salvador venceu por 3x0 e forçou um jogo desempate em campo neutro, pois não havia previsão de desempate por saldo de gols. Furiosos com a derrota e a morte de doze compatriotas, os hondurenhos revidaram agressivamente. Salvadorenhos proprietários de lojas tiveram seus estabelecimentos saqueados, enquanto que a multidão matou e estuprou vários imigrantes que viviam em Honduras. As fronteiras entre os dois países foram fechadas e as relações, cortadas.

A federação hondurenha pediu a anulação do jogo, alegando que seus atletas entraram em campo sabendo que corriam perigo de morte. A Fifa decidiu manter o resultado. Em de 26 de junho, na Cidade do México, El Salvador venceu por 3x2 na prorrogação e teve o direito de disputar a vaga do continente com o Haiti.

Mas nem a resolução da questão no futebol acalmou as relações entre os governos. Fidel Sánchez Hernández, presidente de El Salvador, acusou López Arellano de não respeitar os direitos humanos dos imigrantes e os cidadãos hondurenhos que moravam no país vizinho de serem espiões. Em 14 de julho, o exército salvadorenho invadiu Honduras. Com um exército mais bem equipado, El Salvador avançou rapidamente. Os portos hondurenhos no Oceano Pacífico foram bombardeados, a capital departamental de Nova Ocotepeque foi tomada e as ilhas do golfo de Fonseca, invadida.

No entanto, Honduras levava vantagem na força aérea e rapidamente reagiu, atacando as linhas de abastecimento salvadorenhas. No dia seguinte, a OEA (Organização de Estados Americanos) interveio e conseguiu encerrar o conflito armado terminou em 18 de julho. Os quatro dias de conflito foram suficientes para matar aproximadamente 5 mil pessoas. Ainda assim, o exército salvadorenho só desocupou o território de Honduras em agosto, após ameaça de sanção econômica.

Quem esteve diretamente envolvido nos combates tem plena consciência disso. Tanto que, para salvadorenhos e hondurenhos, aquele conflito é conhecido como “Guerra das 100 horas”. Apenas o resto do mundo colocou o futebol em um patamar tão importante entre tantos outros que abalavam a relações entre esses vizinhos centro-americanos. Não se sabe a origem do nome “Guerra do Futebol”, mas suspeita-se que a imprensa internacional o tenha usado na época como modo de chamar a atenção para o conflito. Para Gregório Nundio, então técnico de El Salvador, o futebol foi “uma desculpa para criar um conflito armado que dois governos militares precisavam”.

Ele tem razão. Após a guerra, ambos governos ganharam força política e apoio popular. Tanto que, oficialmente, a guerra demorou muito mais de 100 horas para terminar. A retomada das relações diplomáticas e de vôos comerciais entre os países ocorreu em 1980, com a assinatura do tratado de paz, que previa a negociação para a demarcação da fronteira. A dificuldade em chegar a um consenso fez com que a decisão tivesse de ser dada pela Corte Internacional de Haia. Em 1992, a instituição definiu que 60% dos 420 km² em litígio ficaria com Honduras.

*

Em 2001, o salvadorenho Salomón Vides foi encontrado no meio da floresta guatemalteca. Ela saíra de Honduras após a “reforma agrária” de López Arellano e, para ficar longe dos conflitos, fugiu para a Guatemala. Sem acesso a informações sobre a guerra, viveu por 32 anos pensando que os combates continuavam.

*

A guerra deu mais poder político ao governo de Sánchez Hernández, mas os prejuízos com a incursão militar, a impossibilidade de absorver os imigrantes que vieram de Honduras e a dificuldade de salvadorenhos de irem ao país vizinho (que ajudava a manter a economia salvadorenha relativamente saudável) levaram El Salvador à uma séria crise e ao surgimento de grupos guerrilheiros contra o governo. O país passou vários anos em guerra civil.

*

Voltando ao futebol. Na final das Eliminatórias da Concacaf, El Salvador bateu o Haiti (2x1 em porto príncipe, 0x3 em San Salvador e 1x0 em Kingston, Jamaica) e garantiu sua primeira participação em Mundiais. No México’70, ficou em último lugar do Grupo 1, com derrotas para Bélgica (0x3), México (0x4) e União Soviética (0x2).

*

O Mundial da Espanha, em 1982, foi o primeiro após o armistício oficial de El Salvador e Honduras. Curiosamente, foram os dois qualificados da Concacaf para aquela Copa. Nas Eliminatórias, os hondurenhos se beneficiaram de o hexagonal final ter sido disputado em Tegucigalpa para ficar com o primeiro lugar. El Salvador surpreendeu com a segunda colocação, o que determinou a eliminação do México. No confronto direto, 0x0.

*

Na Copa, Honduras fez uma campanha digna, empatando com Espanha (1x1) e Irlanda do norte (0x0) e perdendo para a Iugoslávia (0x1) com um gol nos últimos minutos. El Salvador fez história. Estreou com derrota por 1x10 para a Hungria, maior goleada da história das Copas. Melhorou depois, com derrotas mais econômicas para Bélgica (0x1) e Argentina (0x2).

Ubiratan Leal

Deixe sua opinião (1)

Nedstat Basic - Free web site statistics