Nunca poderão acusar o técnico Zdenek Zeman de ter passado anonimamente pelo futebol italiano. Sem o menor apego ao, para usar um termo bastante comum nos Estados Unidos, “sistema”, o tcheco não pára de “bagunçar” o calcio. Distorce a lógica tática adotada no país e não tem pudor algum em polemizar. Claro, não sejamos ingênuos, ele também gosta bastante de aparecer. Mas os benefícios decorrentes dessa “bagunça” estão acima de qualquer egolatria.
A primeira aparição para o grande público de Zeman foi em 1991-92 (antes disso, havia trabalhado em clubes pequenos como os juniores do Palermo, o Licata, o Parma e o Messina). Ele levara o Foggia ao título da Serie B italiana na temporada anterior e estreava em Milão contra a Internazionale do trio alemão Matthäus, Klinsmann e Brehme. A expectativa era de vitória tranqüila dos milaneses, mas os rossoneri da Puglia (região que corresponde ao salto da bota italiana) souberam ousar e empataram surpreendentemente por 1x1.
Aquele campeonato ficou mais conhecido pelo título invicto do Milan, o primeiro da história do calcio. No entanto, o Foggia também teve seus momentos, sempre se notabilizando pelo jogo extremamente ofensivo e aberto. Um sinal disso é a quantidade de jogadores de frente revelados por aquela equipe: Beppe Signori, Francesco Baiano e a dupla de russos Shalimov e Kolyvanov. Os pugliesi terminaram com o segundo melhor ataque e a segunda pior defesa do torneio (58 gols prós e contras).
O tcheco ficou mais duas temporadas em Foggia e sua visão tática já destoava do resto da Itália. O futebol italiano não é pura retranca (isso é uma visão exagerada), mas não dá para negar que Zeman monta times com princípios diferentes dos demais. O ponto de partida é o ataque, não o contra-ataque. Tanto que é defensor ardoroso do 4-3-3, “geometricamente a melhor forma de preencher os espaços do campo”, segundo palavras dele.
Ainda assim, muitos diziam que seu esquema só funcionava porque era com clubes pequenos, sem tantas responsabilidades (algumas desculpas não são exclusividade do Brasil). Isso caiu em 1994-95, quando o técnico levou a Lazio ao vice-campeonato italiano em um torneio dominado inteiramente pela Juventus. Na temporada seguinte, foi terceiro colocado e o melhor ataque com os celestes de Roma. Foi demitido após um primeiro turno irregular em 1996-97.
Zeman seguiu em Roma, agora no time que carrega o nome da capital italiana. Em 1997-98, levou os giallorossi ao quarto lugar no calcio. Era uma prova definitiva que o técnico tinha capacidade de gerir equipes de grande porte. No entanto, foi aí que começou sua derrocada. Na pré-temporada, disse que o futebol precisava sair da farmácia, acusando clubes de doping ou de exagerarem em substâncias como a creatina, permitidas com ressalvas. E foi incisivo, dizendo que essa prática era mais intensa na Juventus, algo que seria possível ver pelas condições físicas de Vialli e Del Piero.
Menos mal que suas declarações foram levadas a sério. Os juventinos, claro, reclamaram muito, mas a Justiça resolveu investigar. Vários jogadores, ex-jogadores e integrantes da comissão técnica bianconera foram interrogados, incluindo estrelas como Del Piero, Davids e Zidane. Zeman em nenhum momento voltou atrás em seus discurso. Pelo contrário, quando possível o intensificava com frases como “para mim, a grande popularidade que o futebol tem no mundo não se deve aos remédios ou aos agentes financeiros, mas ao fato de em cada praça em cada canto do mundo haver um garoto que joga e se diverte com a bola nos pés. Porém, hoje, o futebol é mais uma indústria que um jogo”.
Essa polêmica fez com que o tcheco conquistasse muitos inimigos, principalmente no futebol italiano. Perdeu seu espaço. Nas duas temporadas seguintes, teve passagens rápidas e sem sucesso por Fenerbahçe (sua única experiência fora da Itália) e Napoli. Só voltou a arranjar emprego no calcio em clubes da Serie B. Entre 2001 e 2003, esteve na Salernitana, que só não foi rebaixada pela virada de mesa que também salvou Catania, Genoa e Fiorentina. Na última temporada, esteve no Avellino, onde, aí sim, caiu para a Serie C1.
Pelo retrospecto na última temporada, foi até surpreendente o fato de um clube da primeira divisão italiana, o Lecce, ter convidado Zeman para o campeonato 2004-05. Foi o início da redenção do treinador. O time teve um bom início de temporada, com o melhor ataque do torneio e dando espetáculo. É verdade que perdeu, em casa, para a Juventus. com gol de Del Piero. O tcheco jura que o atacante nunca comemorou tanto um gol quanto aquele, feito sobre o time comandado por seu desafeto.
Para melhorar sua situação, parece ter vencido a briga com a Juventus. Na semana passada, Justiça italiana concluiu que havia efetivamente problemas no clube de Turim e o médico do bianconero foi considerado culpado. De certa forma, a Juve até se considerou vitoriosa, pois ninguém na diretoria ou no elenco foi punido. Uma prova de que, mesmo sem nenhum título, Zdenek Zeman conseguiu mudar alguma coisa no futebol italiano.
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O texto é um perfil de Zeman, não uma explicação sobre as investigações de doping na Juventus. Qualquer dúvida, leia esse texto de Cassiano Gobbet, da Trivela (link válido até 6 de dezembro).
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Saiba mais sobre Zdenek Zeman e seu ego em seu site oficial (em italiano e inglês).
Ubiratan Leal
Imagem: La Repubblica e Rai Sport