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20/12/04

Brazil

Santos levou porque teve atitude

Escrever um texto de consagração a um recém-proclamado campeão é o cúmulo do clichê. Se isso já ocorria na época do mata-mata, em que muitos campeões vinham de campanha fraca e se beneficiaram de uma boa fase na hora decisiva, imagine em uma competição por pontos corridos. E, após 46 rodadas e apenas 3 pontos de distância, não é possível afirmar que o Santos foi tecnicamente melhor que o Atlético-PR. Dá para dizer, isso sim, que o título é justo porque, na hora de decidir, o Santos mostrou que estava mais consciente de seu papel.

Antes de seguir, todos devem ter noção de que, em um torneio equilibrado com 46 rodadas, é impossível realizar uma trajetória sem pecados. Por isso, culpar “aquela” derrota no primeiro turno é inútil. Matematicamente, “aquela” derrota pode ter deixado o Atlético-PR a 3 pontos do Santos, mas os alvinegros do litoral paulista também perderam seus pontos bobos. Por exemplo, hoje, é assustador perceber que o único triunfo do rebaixado Vitória fora de Salvador foi justamente contra o rubro-negro paranaense na Arena da Baixada (3x1 no primeiro turno). Porém, naquele momento, o resultado foi aceitável. E é sob essa ótica que esse placar deve ser visto. Como a derrota do Santos na Vila Belmiro para Cruzeiro, 13º colocado (14º se o São Caetano recuperar 24 pontos no STJD).

Por isso, olhar a tabela para analisar cada partida, cada pontinho perdido, é um exercício bobo. Afinal, pode-se elevar qualquer time mediano à briga pelo título se forem acrescidos os pontos tolamente desperdiçados (alguma dúvida, faça esse teste com Corinthians, Fluminense, Internacional ou Coritiba). O mais correto em pontos corridos é verificar a atitude da equipe, a capacidade de se colocar sempre nas condições mais adequadas em cada momento. E, nesse aspecto, o Santos foi o melhor time.

Concentrar toda a culpa do insucesso do Atlético-PR na derrota em São Januário é ver de forma muito limitada. Os cariocas estavam aflitos com a crescente e inesperada possibilidade do rebaixamento e jogaram com determinação uma partida decisiva em seu estádio. Ser derrotado por 0x1, fora de casa, contra um time lutando pelo rebaixamento, é mais ou menos normal em qualquer lugar do mundo. Independentemente das circunstâncias.

Faltou ao Atlético-PR atitude de campeão nas rodadas finais. O que não tem nada a ver com aquela questão de ter ou não história, ser ou não grande, saber ou não decidir. O São Paulo, por exemplo, é grande, tem história e soube decidir em vários momentos, mas tem sofrido com falta de atitude nos últimos anos. O próprio Atlético-PR já soube decidir em 2001, batendo São Paulo, Fluminense e – revertendo a vantagem do empate – São Caetano.

Os primeiros e mais fortes sinais dessa fraqueza rubro-negra se viu em Erechim. Com uma vantagem de 3 gols sobre o virtualmente rebaixado Grêmio a 20 minutos do fim, o Atlético-PR não poderia ter permitido o empate. É inconcebível uma equipe poder abrir uma liderança de 4 pontos a 3 rodadas do final deixar isso acontecer. Não importa se a estratégia era fazer mais gols, tocar a bola para o lado ou catimbar até o fim. O Atlético-PR simplesmente não poderia ter deixado o Grêmio empatar.

O último lampejo de comportamento de vencedor dos paranaenses se deu na vitória sobre o São Caetano. Naquele momento, o Atlético realmente parecia reservar o troféu, pois pegou um adversário difícil e soube reverter uma desvantagem. Mas parou por aí. Se a derrota para o Vasco foi relativamente normal pelos argumentos já apresentados, a forma como o Furacão encarou a partida não foi.

Os cruz-maltinos realmente jogavam seu futuro. Porém, não havia motivos para os atleticanos agirem de forma diferente. Perder no Rio de Janeiro poderia até ser aceitável se os agora vice-campeões tivessem jogado com o máximo de determinação e o placar adverso fosse inevitável diante do que apresentou o adversário. Não foi o que ocorreu. A equipe foi passiva e burocrática, agindo como se os pontos viriam por osmose. O mesmo pode ser dito do empate em Curitiba com o Botafogo, por mais que o 1x1 tenha sido reflexo de um time sem condição psicológica em campo, que sabia que tinha perdido o título por falta de atitude.

Alguns podem tentar culpar Levir Culpi por isso, já que ele disse que seu time estava no “piloto automático” até o fim do campeonato. A declaração nada tem a ver com motivação, mas com ajustes técnico-táticos. E, efetivamente, o Atlético-PR estava pronto. Era questão de manter o ritmo. Se faltou capacidade de analisar a necessidade do resultado diante de Grêmio e Vasco para ter mais atitude (desculpe-me, mas não estou conseguindo evitar a repetição dessa palavra), é outra história, cuja responsabilidade também é dos jogadores, pois o elenco não precisava de alguém para lembrar que era fundamental vencer em São Januário e Erechim.

A longa argumentação apontando as falhas do Atlético-PR não tira os méritos do Santos, como se os paranaenses que tivessem perdido o título, não o Santos que o tivesse ganhado. Não é por aí. Primeiro, que, se o Atlético-PR se equivocou no momento decisivo, o alvinegro praiano soube agir e situações parecidas, o que diferencia equipes em uma competição tão equilibrada.

Contra o Paysandu, o Santos visitou um time que fugia do rebaixamento e saiu perdendo. Como o Atlético-PR contra o Vasco. O Santos foi atrás do resultado. É verdade que poderia ter vencido o jogo se não perdesse tantos gols. Ainda assim, pressionou o oponente e colheu um ponto. Coisa que o rubro-negro não soube fazer.

Contra o São Caetano, os santistas poderiam enrolar a difícil partida até o fim, buscando definir nos últimos minutos para reduzir os riscos. Porém, o time jogou como se a final fosse aquela, contra aquele adversário. Fez 3x0 e mostrou que, na hora da decidir, o Santos estava seguro e consciente do que precisava fazer. E que pontos perdidos durante as primeiras 35 ou 40 rodadas não eram mais admitidos.

A partida definitiva foi uma conseqüência disso. Por mais que os jogadores do Vasco tenham jogado com uma dignidade admirável na última rodada, dificilmente evitariam a derrota para o Santos. Primeiro, os paulistas eram muito superiores, mesmo se Petkovic tivesse entrado em campo. Segundo, o alvinegro praiano estava pronto para fazer o que fosse necessário. Tanto que os santistas tentaram resolver a partida logo nos primeiro minutos, para evitar o rico do nervosismo que cresce com a incerteza.

É verdade que a determinação dos vascaínos pareceu surpreender os paulistas. Mas a própria volta de jogadores como Elano e Robino dava a segurança psicológica necessária à equipe, que tinha seus dois principais jogadores em campo. Dificilmente algo daria errado. Bastaria se comportar como time campeão. O Santos se comportou e levou o título.

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Do ponto de vista técnico, Santos e Atlético-PR tiveram uma trajetória parecida. Com problemas nas primeiras rodadas, ficaram para trás. Ao se acertarem, souberam absorver as mudanças no elenco ser grandes tropeções e conseguiram caminhar com relativa estabilidade. Aí está o grande mérito de Vanderlei Luxemburgo e Levir Culpi.

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Falando em atitude, o rebaixamento do Vitória foi outro exemplo claro disso. A três rodadas do final, um time que ainda tem chances de escapar não pode perder de forma tão passiva como os baianos fizeram contra o São Paulo. O mesmo pode ser dito das partidas contra Cruzeiro (penúltima rodada) e Ponte Preta (última), duas equipes em férias virtuais. Nesse aspecto, foi justo o Guarani passar o rubro-negro na classificação final. Os verdes de Campinas, ao menos, mostraram vontade de mudar a situação crítica em que estavam.

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A queda do Criciúma foi um evidente reflexo de uma equipe que se achava livre do rebaixamento e, diante da queda provável, não teve forçar para reagir. O Vasco quase foi vítima do mesmo fenômeno, mas mostrou mais recursos nas últimas partidas e contou com os pontinhos a mais que já tinha. Aliás, mesmo se perdesse para o Atlético-PR, o Vasco não seria rebaixado.

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Esse foi o 13º título brasileiro dos paulistas (4 de palmeiras, 3 de Corinthians e São Paulo, 2 de Santos e 1 de Guarani). Os cariocas, que já comandaram essa lista, ficaram um pouco para trás, com 11 (5 de Flamengo, 4 de Vasco, 1 de Botafogo e Fluminense). Depois seguem os gaúchos, com 5 (3 Internacional e 2 Grêmio), mineiros e paranaenses com 2, baianos e pernambucanos com 1.

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Para efeitos históricos, o Balípodo considera que o título de 1987 é de Flamengo e Sport. O Flamengo por ter vencido os melhores do país. O Sport porque a forma de escolha de equipes da Copa União foi equivocada e arbitrária. Desconsiderar o direito de o Guarani (vice-campeão nacional de 1986) disputar o campeonato é uma desvalorização do mérito esportivo tão grande quanto desmerecer a conquista do rubro-negro carioca. Por isso, a página considera que o Brasileirão de 1987 é como o Paulista de 1973, o Carioca de 1907 ou o Mineiro de 1956.

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Ah, e, se dependesse do site, o Robertão/Taça de Prata de 1967, 1968, 1969 e 1970 seriam considerados os primeiros Campeonatos Brasileiros de clubes da histórica. Nesse caso, o Palmeiras teria mais dois títulos, enquanto que Santos e Fluminense ficariam com mais um. As Taças Brasil de 1959 a 1968 seriam, pela fórmula de disputa, as primeiras edições da atual Copa do Brasil.

Ubiratan Leal

Imagens: Terra

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