Essas pequenas coincidências serviram mais como pauta para os principais jornais do país, que apostavam no São Caetano como o “fiel da balança”. Não foi. Tampouco foi o Vasco ou o Grêmio, pois no sprint do Campeonato Brasileiro, quem arrancou mais confiante foi o Santos. E assim o troféu fica bem justificado na Vila Belmiro.
Outra novidade que o campeonato pode trazer no longo prazo é a valorização das campanhas, especialmente do segundo e do terceiro colocados, agraciados com uma vaga à Libertadores da América. Quanto ao São Paulo, a terceira colocação não provocou maiores comoções, até porque o time chegou à penúltima rodada com chances matemáticas de conquistar o título. Fosse o Palmeiras, escaldado pela Segundona vencida em 2003, a chegada à competição sul-americana teria um sentido muito mais importante. De qualquer forma, os verdes disputam um mata-mata e têm chances reais de correr a América no ano que vem. Já o Corinthians... Toda a mobilização do clube, desde a eliminação perante o River Plate, é para voltar à Taça Libertadores o quanto antes. Não deu no ano passado e, tendo em vista a campanha do time no returno, faltou muito pouco para alcançar o objetivo em 2004.
No meio do reinado paulista que foi o Campeonato Brasileiro de 2004 ficou o Atlético-PR e a comemoração – entristecida e em meio à lágrimas e olhares perdidos, é verdade – na tarde de ontem pelo vice-campeonato. Sim, a torcida do Santos e do Coxa até soltaram foguetes ao longo do dia pela cidade, mas a mobilização da torcida para o jogo contra o Botafogo e o buzinaço dos carros pelas avenidas ao redor da Arena da Baixada deixavam claro que havia ali motivos para comemorar.
A própria ascensão de times como o Botafogo e o Paraná Clube, que fugiram do rebaixamento dado como certo há um ou dois meses, mostra que o campeonato por pontos corridos vale mesmo é na reta final. Que o diga o Criciúma, que se viu na berlinda justamente quando não tinha mais forças para reagir. E que o diga também o Atlético-PR na ponta de cima da tabela. Se o campeonato acabasse há duas rodadas, o Furacão teria sido campeão e deixado a imagem de uma equipe vencedora e, em alguns momentos, brilhante. Por outro lado, se tivesse que disputar mais uma ou duas rodadas jogando da forma que enfrentou os alvinegros do Rio de Janeiro, o Atlético estaria mais próximo do São Paulo do que o líder Santos.
Esse sentimento que distingue os torcedores mais apaixonados do mais céticos é que definiu os humores na tarde de ontem na Arena. Alguns, visivelmente abalados pela perda do título, maldiziam e choravam os pontos perdidos contra Grêmio, Vasco, Juventude, Paraná Clube e até mesmo contra o São Paulo na longínqua primeira rodada do campeonato, há exatos oito meses. Outros, menos desconsolados, comentavam sobre os futuros adversários na Taça Libertadores e o último gol de Washington pela equipe. O mau desempenho do Atlético no jogo final contra o Botafogo também esfriou os ânimos da torcida. Esperava-se, pelo menos, uma saída digna e um futebol mais coletivo, de ataques rápidos e poucos sustos na zaga – e isso definitivamente não aconteceu. O feito de 2001 virou realidade de forma muito rápida. Em um intervalo de duas semanas, o Atlético havia terminado a fase classificatória em segundo lugar, venceu São Paulo, Fluminense e São Caetano (duas vezes) e já era campeão brasileiro. Neste ano não. Foram dois meses de luta por um título que não veio, numa competição mais difícil que aquela (cuja decisão era em formato de copa) e com um time um tanto inferior ao que ergueu a taça.
Também é verdade que o ineditismo da situação (a possibilidade do segundo título nacional, ou numa hipótese ruim, o vice-campeonato) serviu como motivação para o Atlético-PR. Em equipes mais experimentadas, como o próprio Santos, que ficou com a prata no ano passado, o vice seria mais uma bola na trave. Mas para outros times tradicionais que não comemoram um título nacional há anos, como Fluminense, Atlético-MG e Internacional, o feito também mereceria comemorações.
Outra peculiaridade do campeonato brasileiro, e que não se aplica aos europeus, é o desmonte das equipes após o campeonato. Vá saber quem fica para 2005? Então, uma boa campanha, mesmo não coroada com o título, merece ser prestigiada pela torcida até para ver muitos de seus protagonistas pela última vez. Seja Washington, Marinho, Jádson, Fabiano, Levir Culpi ou quem mais for. O elenco do Santos, assim como quase todos os outros times do campeonato, também é dúvida (e não são poucas) para o ano que vem.
Feitas algumas alterações legais (limitação na transferência de jogadores durante a competição, clareza na aplicação de punições às equipes, cumprimento do Estatuto do Torcedor), o campeonato brasileiro tende a acabar com alguns dogmas que ouvimos diariamente nas mesas redondas e nas discussões de botequim – como o regozijo da equipe que fez má campanha em relação ao rival que quase foi à Libertadores ou que não conseguiu o título, a definição de “time grande” como se ainda estivéssemos na década de 70, a má conduta de torcedores nos estádios, entre outros casos que só poderemos saber ao longo dos anos.
Fabrício Rodrigues