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28/12/04

O mundo não é uma bola...

O que mudou no Chelsea nessa temporada?

Em dezembro de 2004, o Chelsea terminou o primeiro turno em terceiro lugar, ainda que conseguindo acompanhar de perto a briga de Manchester United e Arsenal pelo título. Mesmo assim, havia um ar de desapontamento. Meses antes, o milionário russo Roman Abramovich havia gasto £ 107 milhões (cerca de € 168 milhões) em reforços para uma equipe que fora a quarta melhor da Inglaterra na temporada anterior. Agora, o clube do sul de Londres chega ao fim da primeira metade do campeonato com uma liderança segura e um futebol convincente. O que mudou?

Em um primeiro impulso, é possível arriscar que o responsável é o novo técnico, José Mourinho. E, realmente, a parte mais importante da resposta é o português que assumiu o comando da equipe em julho. No entanto, achar que a explicação termina aí, como se o ex-treinador do Porto fosse assustadoramente superior a seu antecessor, o italiano Cláudio Ranieri, é ser um pouco precipitado. A presença de Mourinho é um sinal de uma mudança filosófica no clube londrino.

Quando chegou a Stamford Bridge, Abramovich não tinha tempo e conhecimento de futebol suficiente para estruturar um “supertime” antes de a temporada 2003-04 começar. “Limitou-se” a comprar as ações (£ 60 milhões, cerca de € 94 milhões), pagar as dívidas do clube (£ 80 milhões, ou € 125 milhões) e contratar vários jogadores sem critério financeiro e técnico definido. Pior, pareceu ignorar que a equipe blue já era razoável e não se importou muito com a presença de Claudio Ranieri. O treinador – que, por aqui, ficou com fama de perseguir brasileiros após brigar com Romário na curta passagem do atacante pelo Valencia – ficou no clube porque o russo não teve muitas opções para seu lugar e apostou mal em nomes como Verón, Mutu e Crespo. Foi obrigado a montar um time com um grupo inchado e com vários atletas supervalorizados (ou alguém acha que Geremi vale £ 7 milhões, ou € 11 milhões?).

Ficava claro como faltava consistência ao Chelsea. O time não transmitia confiança nas partidas decisivas e oscilava com grande freqüência. A atual fraqueza dos clubes médios do futebol inglês e o talento de alguns jogadores como Lampard e Terry (ambos remanescentes da era pré-Abramovich) deram vida os azuis de Londres durante boa parte da temporada.

Ranieri também tem sua responsabilidade. O italiano ficou perdido no meio de tantos jogadores, promoveu um enorme rodízio na definição dos 11 titulares e não encontrou a formação ideal em nenhum momento. Apenas no final da temporada conseguiu dar um padrão de jogo aos blues, justamente no momento em que a equipe deu uma arrancada que garantiu o vice-campeonato nacional e eliminou o Arsenal da Liga dos Campeões.

Provavelmente ciente da incapacidade de gerir um clube complexo, o empresário russo deu uma grande cartada ainda no início da temporada ao tirar Peter Kenyon da direção do Manchester United. Era o passo decisivo para o clube londrino agir como grande. No entanto, era uma aposta de médio prazo, pois Kenyon não poderia assumir imediatamente. Assim, os resultados continuaram decepcionantes.

A demora em transformar o Chelsea em uma versão inglesa do Real Madrid (clube que era visto como fantástico até a metade da temporada passada) fez com que Abramovich e Kenyon perdessem completamente a confiança no técnico. Uma confiança que nunca foi muito grande. Sem suporte, Ranieri caiu.

Comandados por Kenyon e Pini Zahavi (israelense que agencia jogadores e tem grande ascendência sobre Abramovich), os blues começaram a definir como fariam para, em 2004-05, ter o melhor time da Inglaterra. A escolha de José Mourinho já se desenhava desde o início do ano, quando o Porto começou a se destacar na Liga dos Campeões. Tanto que, no dia seguinte ao título continental dos dragões, era dada como certa a ida de Mourinho para Stamford Bridge.

Além de ter mais repertório que o italiano, o técnico português teve a confiança dos dirigentes do clube londrino. Teve liberdade para pedir a contratação de jogadores de sua confiança, como os compatriotas Tiago, Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho. Além disso, a estruturação promovida por Kenyon já estava mais avançada e houve planejamento suficiente para identificar oportunidades em nomes como Arjen Robben e Didier Drogba. Para melhorar a situação, houve uma limpeza sensível no elenco.

O impacto é facilmente perceptível. Mourinho recebeu um time planejado. Começou dando solidez à defesa, a mais eficiente da Premiership nesse momento. No início, as constantes vitórias por 1x0 incomodavam, pois passava a sensação de que o ataque era fraco. Mas era parte do processo.

Justamente após a derrota para o Manchester City (a única no Campeonato Inglês), o Chelsea começou a mostrar mais fluidez no meio-campo e no ataque. Jogadores como Damien Duff e Robben cresceram e as goleadas apareceram. Com os tropeços do Arsenal, os blues logo assumiram a liderança da liga e já abriram uma vantagem considerável.

Em relação à Liga dos Campeões, ainda é difícil dizer onde vai parar o Chelsea de Mourinho, já que o próximo adversário é o fortíssimo Barcelona e, mesmo que passe pelos catalães, os londrinos ainda poderiam cruzar com potências como Arsenal, Manchester United, Juventus ou Milan. Porém, na Premiership, dá para dizer que, nesse momento, ninguém parece tão forte na corrida pelo título quanto os blues.

*

Veja a lista de jogadores trazidos por Roman Abramovich: 2003-04 – Adrian Mutu, Alexei Smertin, Claude Makelele, Damien Duff, Geremi, Glen Johnson, Hernán Crespo, Joe Cole, Juan Sebastián Verón, Neil Sullivan, Scott Parker (janeiro de 2004) e Wayne Bridge. 2004-05 – Arjen Robben, Didier Drogba, Mateja Kezman, Paulo Ferreira, Petr Cech, Ricardo Carvalho e Tiago.

*

Antes da chegada de Abramovich, o time-base do Chelsea era: Cudicini; Terry, Gallas, Desailly e Melchiot; Gronkjær, Petit, Lampard e Le Saux; Hasselbaink e Gudjohnsen (Zola)

Ubiratan Leal

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