Após o empate em 2x2 entre Chelsea e Arsenal, a tabela da Premiership deixou em maior evidência o até agora grande fenômeno azul do futebol inglês nessa temporada. E não é o clube do bairro nobre de Londres. Afinal, após gastar mais de £ 400 milhões, o clube de Roman Abramovich tem obrigação de ser favorito em qualquer coisa que disputar. Quem merece o destaque é um azul muito mais tradicional, mas que andava meio em baixa: o Everton, que venceu o clássico contra o Liverpool e se tornou o novo vice-líder da Inglaterra.
Os torcedores que não conhecem tão bem a história do futebol inglês podem desconhecer que os Toffees estão entre os clubes mais tradicionais do Reino Unido. E não é apenas na idade (foi fundado em 1878), mas também nas conquistas. Quando levou o Campeonato Inglês para Goodison Park pela última vez, em 1987, o Everton era o segundo maior campeão do país, com 9 títulos. À frente, só rival vermelho de Liverpool, com 16. Os hoje badalados Manchester United e Arsenal estavam para trás. Os red devils contavam 5 conquistas, enquanto os gunners tinham 8 taças de campeonato.
Outro sinal da tradição do Everton é que o time está na Primeira Divisão desde 1954-55. No total, dos 105 Campeonatos Ingleses, os Toffees jogaram 101 na elite. Nesse quesito, apenas o Arsenal pode rivalizar com os blues. Os londrinos levam vantagem por estarem na Primeira Divisão desde 1919-20, mas perdem por já terem passado 13 temporadas no andar de baixo.
Desde o final da década de 1980, porém, o lado azul da cidade dos Beatles entrou em decadência. A situação financeira do clube piorou e não acompanhou justamente o momento de grande crescimento econômico do futebol inglês. Foi nesse processo que Manchester United e Arsenal se fortaleceram tremendamente e tomaram conta do football. Um sinal da queda dos Toffees é que, desde o 4º lugar de 1987-88, a melhor colocação foi dois 6º em 1989-90 e 1995-96. O que não faltaram foram temporadas em que a equipe lutou para não ser rebaixada.
A esperança de renascimento veio em 2002-03. Impulsionados pelo surgimento de um garoto prodígio, Wayne Rooney, os blues lutaram por uma vaga na Liga dos Campeões durante quase todo o torneio. Além do atacante adolescente, os méritos ficavam com o técnico escocês David Moyes, que conseguiu extrair bastante de um elenco fraco, baseando o jogo na força da defesa. No entanto, o time perdeu fôlego nas rodadas finais e sequer conseguiram um lugar na Copa da Uefa.
Para 2003-04, a expectativa era de nova boa campanha do Everton. E, mais uma vez, o clube se afundou no pelotão intermediário. Rooney esteve inconstante e, mesmo sendo titular da seleção inglesa, ficou boa parte da temporada no banco de reservas do Everton. A equipe não se acertou e ficou em 17º lugar, o último entre os não-rebaixados.
Rooney, que ainda é apenas uma promessa, já parecia muito luxo para um time fraco e com tantas dívidas. Ainda assim, ele jurava fidelidade às cores do Everton. Nada que não pudesse ser acertado diante de um bom montante de libras esterlinas. Assim, o Manchester United fez a grande contratação do futebol inglês na pré-temporada e levou o jovem atacante por £ 27 milhões (cerca de € 37 milhões). Também saíram jogadores importantes como o atacante canadense Tomasz Radzinski e o zagueiro Unsworth.
O dinheiro veio em boa hora para aliviar os problemas financeiros do Toffees. O que significa, nas entrelinhas, que não foram revertidos em reforços para o elenco. As duas contratações foram o meia australiano Tim Cahill e o atacante Marcus Bent. Moyes foi mantido como técnico e o objetivo era claramente evitar o rebaixamento. Poucos achavam que as perspectivas eram boas.
A estréia na atual temporada da Premiership foi contra o campeão Arsenal, em Goodison Park. A derrota contundente por 1x4 passou a sensação que os azuis seriam assíduos freqüentadores das últimas posições. A partir daí, a equipe se acertou. E de forma surpreendente.
Ciente de que não tinha grandes jogadores à mão, Moyes tratou de reforçar a marcação e contar com espasmos do ataque para conseguir alguma vitória. O esquema tático denuncia isso: um 4-5-1, com um meio-campo de pouca criatividade e um ataque sem brilho. A política do escocês pode ser comparada com a do alemão Otto Rehhagel no comando da Grécia na Eurocopa e na forma como Tite salvou o fraco Corinthians do rebaixamento e o levou à Copa Sul-Americana de 2005.
Claro que há méritos também dos jogadores. A aplicação tática é comovente, com todos desempenhando seu papel e fazendo do Everton o time com melhor jogo em conjunto da Inglaterra hoje. Segundo Moyes, a saída de Rooney teria sido benéfica, pois nivelou os jogadores e melhorou o senso coletivo e a união.
Com uma estratégia defensiva, é inevitável que o setor defensivo seja sobrecarregado, o que dá conta da importância dos experientes Nigel Martyn (38 anos), David Weir (34) e Alan Stubbs (33). No meio-campo, Cahill e o jovem Leon Osman se adaptaram bem ao esquema. O dinamarquês Thomas Gravesen é a referência e o irlandês Kevin Kilbane eleva um pouco o nível técnico do setor. No ataque está o solitário Bent, eventualmente substituído pelos experientes Kevin Campbell ou Duncan Ferguson.
Está dando certo. A defesa segura faz com que qualquer coisa que o ataque produzir seja convertido em pontos. Uma mostra disso é que, das 17 partidas, o Everton venceu 11. Dessas, 10 foram por apenas um gol de diferença, sendo 7 por 1x0. Mesmo assim, não dá para tirar os méritos de uma equipe que venceu o Liverpool, empatou com o Mancheter United em Old Trafford e perdeu muito poucos pontos contra as equipes pequenas.
Após a vitória sobre o Liverpool no clássico que é mais que questão de vida ou morte (veja explicação no fim do texto), os blues estão com 36 pontos, apenas 4 a menos que o milionário Chelsea, um à frente do campeão Arsenal e 5 a mais que o Manchester United. Para se ter uma idéia, na temporada passada, os três clubes rebaixados – Leicester City, Leeds United e Wolverhampton Wanderers – fizeram 33 pontos. Se essa tendência se repetir, os Toffees podem perder todos os 21 jogos que ainda faltam que a permanência na elite (objetivo principal da temporada) estaria garantida.
Aliás, comparar com a temporada passada é interessante para dimensionar a evolução dos azuis de Liverpool. Em 2003-04, o Everton venceu 9 partidas, empatou 12 e perdeu 17, computando 39 pontos. No atual campeonato, já venceu 11 jogos. Empatou 3 e perdeu outros 3. Isso porque o time é praticamente o mesmo.
Mesmo assim, a fragilidade dos Toffees é visível. A equipe que venceu o Liverpool nesse sábado foi formada por Martyn; Hibbert, Stubbs, Weir e Pistone; Carsley, Osman (Watson), Gravesen (Yobo), Cahill e Kilbane; Bent (Ferguson). Tanto que a cada rodada os ingleses perguntam quando a maré de sorte do Everton acabará. Com tantas vitórias magras, seria questão de tempo de a defesa fraquejar, o ataque falhar e os bons resultados escassearem.
O time parece ter consciência disso. Assim que começaram a surgir as primeiras vozes falando em classificação para a Liga dos Campeões, os próprios jogadores e comissão técnica do Everton rechaçaram tal hipótese, afirmando que mesmo a Copa da Uefa está acima dos objetivos atuais do grupo.
Uma vaga para a principal competição interclubes do mundo seria muito benéfica ao Everton, que veria um aporte financeiro muito grande para quem não fez investimento algum. Mas, por enquanto, tudo parece um fenômeno. É mais prudente imaginar que Arsenal e Manchester United ainda são os principais rivais do Chelsea na luta pelo título. Para o Everton, ficar à frente do Liverpool já estaria muito bom.
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Voltando à história do clube e em como as décadas de luta com o Liverpool pela hegemonia do futebol inglês deixaram uma rivalidade imensa. Os reds pretendem investir £ 115 milhões para construir um estádio para 60 mil pessoas em Stanley Park. O Everton tinha planos de construir seu novo estádio em King’s Dock, mas desistiu devido á falta de dinheiro. A idéia agora é ampliar Goodison Park, que tem 40 mil lugares. Até que surgiu a proposta de o Everton mandar seus jogos no novo estádio do Liverpool. O presidente blue Bill Kenwright disse que prefere renunciar ao cargo a ver o Everton como inquilino do rival. A prefeitura, que tinha interesse nessa união, admitiu que o acordo não deverá sair.
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Vale dizer que o Everton foi o primeiro grande clube da cidade e jogava no estádio de Anfield. Em 1892, Joh Houlding, dono do estádio, brigou com a diretoria dos blues e fundou o Liverpool. Sem campo, o Everton passou a jogar em Goodison Park, a poucas centenas de metros de Anfield (apenas um parque separa os dois estádios).
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Porém, a marca que Everton e Liverpool deixam para o folclore do futebol mundial nada tem a ver com as brigas pelo estádio. Foi em referência ao clássico da cidade que Bill Shankly, lendário técnico dos reds entre 1959 e 1974, disse: “Algumas pessoas acreditam que o futebol é questão de vida ou morte. Eu fico muito decepcionado com essa atitude. Posso dizer a você que é muito, mas muito mais importante que isso”.
Ubiratan Leal
Imagens: BBC Sport e Everton Supporters Club