O Campeonato Paulista de Futebol Feminino começou nesse fim-de-semana já correndo riscos. Ainda é cedo para dizer que não será bem-sucedido, mas a quantidade de improvisações é muito grande, ainda mais em um campeonato que poderia nascer sem alguns vícios e pegando carona na empolgação da medalha de prata nas Olimpíadas. Da forma como está, corre-se o risco de, mais uma vez, o futebol feminino ficar desacreditado e ser visto como brincadeira.
Para quem não viu, o campeonato é composto por 32 clubes, a maioria ligada a prefeituras (o Governo do Estado de São Paulo está ajudando na organização), mas há alguns com origens em universidades ou clubes de futebol (veja a lista no final do texto). Os times são divididos em 8 grupos de 4, apenas em jogos de ida. Os dois primeiros de cada chave passam à segunda fase (e também garantiriam um lugar na primeira divisão de 2005), formando mais 4 grupos de 4, também em jogos de volta e classificando os dois melhores. O torneio segue dividindo os clubes em conjuntos de 4 para passarem dois até o quadrangular final, que qualificará os dois primeiros para a final. E tudo apenas em jogos de ida.
Só de ver o regulamento já se identifica vários problemas, como o fato de o campeonato ser disputado com muita pressa, em jogos apenas de ida. Para conseguir ajeitar todos esses jogos nesse resto de 2004, cada equipe terá (aliás, a primeira já teve) três jogos em dias seguidos, um absurdo. Para reduzir o desgaste sobre as jogadoras, o tempo de jogo foi reduzido para dois tempos de 40 minutos.
Conseguiu ficar pior, pois pode aumentar o preconceito sobre as mulheres, como se elas não fossem fisicamente capazes de jogar 90 minutos sem se sacrificar mais que o recomendável. Em dias seguidos, nem maratonistas o são, mas isso nem sempre será lembrado. Até porque o presidente da Federação Paulista de Futebol chegou a declarar à Folha de São Paulo que ele mesmo joga com os amigos na sexta, no sábado e no domingo e nunca reclamou disso. Só daí já dá para ver a ausência de boa vontade para se fazer algo sério.
É até compreensível que a Federação Paulista e a Secretaria Estadual de Esportes tenham tentado aproveitar que o vice-campeonato olímpico ainda está fresco – o que ajudaria na atração de investidores e de público – para tornar realidade o estadual feminino. Porém, talvez tivesse sido melhor aproveitar o final de 2004 para planejar e lançar o torneio em 2005 de forma mais estruturada.
Por exemplo, o Santos é o único dos grandes clubes do Estado a ter uma equipe no torneio feminino. A intenção era vincular Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Portuguesa a universidades, mas os acordos não saíram. Além disso, cidades como Marília, Araraquara, São Carlos, São José do Rio Preto São José dos Campos e Bauru, que possuem clubes tradicionais, são representados por times montados pelas prefeituras. Seria melhor aumentar o vínculo com os clubes do futebol masculino, que trariam sua torcida. Ou fazer como o basquete ou o vôlei, que normalmente montam equipes em cidades em que o futebol profissional está em baixa.
Por fim, a presença de prefeituras é conseqüência direta da presença do governo estadual na organização do torneio. Por hora, tudo bem, porque isso ajudou a viabilizar a competição. Mas seria bom se, aos poucos, essas equipes se desvinculassem de prefeituras e se tornassem autônomas, para não dependerem de vontade política.
Em todo esse contexto, os esforços das jogadoras podem ser ofuscados, pois o torneio parecerá algo improvisado. Como há três anos, quando a Federação Paulista montou um estadual feminino e houve denúncias que as jogadoras eram selecionadas pela beleza física (que atrairia mais o público), não pela qualidade técnica. Ou seja, foi feito como se fosse algo menor, que se pudesse brincar a ponto de expor certos machismos. E isso pode estar ocorrendo de novo.
Enquanto isso, a CBF tenta estruturar o futebol feminino em torneios de equipes estaduais, ressuscitando o Campeonato Brasileiro de Seleções. Essa idéia tem o mérito de permitir que jogadoras de todo o país possam disputar jogos oficiais. No entanto, pode fracassar se o modelo não for muito bem pensado, pois a seleção estadual só poderá ser montada se existirem campeonatos em cada unidade federativa para permitir a escolha das atletas. Ou seja, os clubes ainda são necessários.
O melhor seria ter a paciência da diretoria da MLS. Eles pretendiam aproveitar a febre de futebol/soccer decorrente da Copa do Mundo e criar a liga profissional em 1994. Perceberam que não seria possível estruturar tudo em tão pouco tempo e esperaram mais um ano. Melhor esperar mais um pouco e fazer bem feito. Aproveitar que o futebol feminino parte do zero para ser montado sem os vícios do masculino. Talvez ver o Paulistão feminino apenas em 2005 fosse melhor. E o Brasileirão (de clubes ou seleções) dois anos depois, quando cada Estado já tivesse sua estrutura.
Resta torcer para que isso tudo dê certo. Afinal, a seleção que foi medalha de prata em Atenas mostrou um futebol amadurecido e competitivo. Longe daquela imagem de que o jogo das mulheres seria mais bagunçado e de menor qualidade técnica. E, por isso mesmo, parece que há uma vontade, ainda que pequena e sussurrante, dos torcedores para que o futebol feminino vingue. Finalmente.
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E por que o texto propõe um futebol feminino com base, pelo menos no início, em Campeonatos Estaduais, ao invés de partir para um Brasileirão? Simples, o futebol feminino do Brasil não comporta uma competição nacional, com grandes deslocamentos (isto é, muitos gastos em transporte e hospedagem para as jogadoras). Acabaria se tornando uma versão mascarada de um torneio Sul-Sudeste, como já é o basquete feminino. É melhor crescer aos poucos e de forma realista. Em 2001, os norte-americanos criaram a WUSA (Women's United Soccer Association), uma liga de futebol feminino que se mostrou mal dimensionada e foi extinta em 2003. Hoje, busca se reestruturar.
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Veja a lista de participantes do Campeonato Paulista de Futebol Feminino 2004.
Grupo A (Cotia)
Caieiras (prefeitura), São Bento, Taubaté e Santos
Grupo B (Marília)
Marília (prefeitura), Nova Granada, Desportiva Guarujá e São Carlos (prefeitura)
Grupo C (Campinas)
Guarani, Votorantim (prefeitura), Fudesport (Araraquara) e São Caetano do Sul (prefeitura)
Grupo D (Americana)
Rio Branco, XV de Piracicaba, Juventude (São José do Rio Preto) e Universidade Mackenzie
Grupo E (Botucatu)
Botucatu (prefeitura), Unip (Universidade Paulista), Luiziânia (prefeitura) e Lorena (prefeitura)
Grupo F (São José dos Campos)
São José dos Campos (prefeitura), São Bernardo do Campo (prefeitura), Jaguariúna (prefeitura) e São João da Boa Vista (prefeitura)
Grupo G (Cubatão)
Cubatão (prefeitura), Bauru (prefeitura), USP (Universidade de São Paulo) e Pinheiros (São Paulo)
Grupo H (Cotia)
Cotia (prefeitura), Unisantana (Universidade Santana), Juventus e Associação dos Sub-Tenentes e Sargentos da Polícia Militar
Ubiratan Leal