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5/11/04

Histórias

O orgulho de Novo Horizonte

A temporada do futebol paulista profissional terminou em 30 de outubro com a vitória do Taboão da Serra por 3x1 sobre o Itararé na final da Série B2. E, mais uma vez, o São Paulo ficou sem ver o Novorizontino. Um clube que, mais que vice-campeão estadual de 1990, foi um dos maiores motivos de orgulho de uma pequena cidade de 31 mil habitantes a 484 km da capital e tornou seu estádio um inferno para os grandes.

A experiência de Novo Horizonte com o futebol era pequena. O Clube Atlético Novo Horizonte havia disputado apenas dois campeonatos oficiais: o Paulista da Quarta Divisão em 1965 e o da Terceira em 1968. Depois disso, fechou as portas e a cidade teve de esperar alguns anos para voltar a ver o futebol profissional.

O Grêmio Esportivo Novorizontino foi fundado com o nome de Pima Futebol Clube em 11 de março de 1973, mas só começou a disputar partidas oficiais em 1976, pela Terceira Divisão paulista. O início não foi dos mais promissores e, na temporada seguinte, o tigre já estava na recriada Quarta Divisão, onde ficou até 1979. Não que o clube tenha conseguido a promoção à Terceirona, mas a Quarta Divisão foi extinta em 1980.

A partir daí, é possível dizer que o Novorizontino iniciou sua evolução. Em 1982, o clube conseguiu um lugar na Segundona. Três anos depois, tinha sua melhor temporada até aquele momento. Na primeira fase, o tigre conseguiu 14 vitórias e 5 empates em 24 partidas, terminando em primeiro lugar no grupo amarelo, à frente de equipes tradicionais como Francana, Taquaritinga, Catanduvense e Radium. Na segunda fase, os quatro primeiros de cada grupo da primeira fariam um quadrangular. O Novorizontino voltou a se mostrar superior a Francana, Barretos e Sãocarlense e conseguiu a única vaga da chave para o quadrangular final.

O tigre estreou perdendo de 2x1 para o Tanabi. Recuperou-se com um 2x0 sobre o Taubaté e o 0x0 diante do Mogi Mirim permitiu que os aurinegros ficassem com o segundo lugar, ao lado do Tanabi, após os jogos de ida. O Mogi liderava com 5 pontos (a vitória valia apenas duas unidades).


O empate com o Mogi Mirim (1x1) e a vitória sobre o Taubaté (2x1) fez com que o Novorizontino chegasse na última rodada precisando de um empate contra o Tanabi no Pacaembu. A vitória por 1x0 garantiu ao clube de Novo Horizonte uma inédita participação na elite estadual ao lado do Mogi Mirim, que terminou como campeão.

O primeiro contato com os grandes não foi muito feliz, com sete derrotas em seqüência. No primeiro turno, o time ficou em último, ao lado do América, com 13 pontos em 19 jogos. O único bom resultado foi um empate com o Corinthians em 1x1 em Novo Horizonte. A Segundona parecia se reaproximar, porém, surpreendentemente, o tigre reagiu, empatando com o São Paulo no Morumbi (1x1), batendo o Corinthians no Pacaembu (2x1) e superando o Santos por 1x0 no estádio Jorge Ismael de Biasi. Acabou como o quinto melhor do returno, atrás apenas de Internacional de Limeira, Palmeiras, Corinthians e do também ascendente América. Melhor que isso, foi o 11º na classificação final, evitando o rebaixamento e deixando para trás forças do interior como Guarani, XV de Piracicaba, Ponte Preta e Ferroviária.

O campeonato de 1986 foi mais sofrido para os de Novo Horizonte. O time revezou com Corinthians e Bandeirante as últimas colocações. Com a espetacular reação dos paulistanos no segundo turno (o Timão terminou com o vice-campeonato), os aurinegros ficaram ao lado da equipe de Birigüi na zona de rebaixamento. No entanto, uma pequena reação nas rodadas finais, combinada com uma queda de rendimento da Ponte Preta, permitiu a salvação do Novorizontino e o rebaixamento dos campineiros.


No Paulistão de 1988, o tigre fez apenas 11 pontos em 19 partidas, a pior campanha ao lado do estreante União São João. Para a sorte de ambos, a federação decidira aumentar o número de participantes para a edição seguinte e não houve rebaixamento. Nesse mesmo ano, o clube estreou em competições nacionais. Na Terceira Divisão, o tigre passou pela Douradense na primeira fase, mas foi superado pelo Marcílio Dias na segunda. Porém, as perspectivas para o futuro eram boas ao conquistar o título paulista de juniores, com um time com Maurício no gol, Márcio Santos na zaga e Carlos Zara e Luís Carlos Goiano no meio-campo (foto).

A primeira grande campanha do Novorizontino se deu em 1989. O clube ficou em 4º lugar no Grupo 1 (apenas com times do interior) e garantiu um lugar entre os 12 que passaram à segunda fase. E os aurinegros tiveram um papel importante no campeonato. A equipe fez um triangular com Bragantino e Palmeiras. Os alviverdes estavam invictos e despontavam como claros favoritos ao título que não ia ao Parque Antárctica há 13 anos. No turno, o Bragantino venceu o Novorizontino, mas perdeu para o Palmeiras. Em Novo Horizonte, o tigre conseguiu segurar um inesperado 0x0 com o Palmeiras.

O returno ficou marcado na história do Palmeiras. O Bragantino goleou por um contundente 3x0, resultado que acabou com a invencibilidade verde, praticamente eliminou os paulistanos do torneio, prolongando em mais um ano a fila, e criou uma espécie de mitificação do Bragantino como asa-negra palmeirense.

Para o alvinegro da terra da lingüiça, bastaria uma vitória em Novo Horizonte para avançar às semifinais, o que acabou ocorrendo. O Novorizontino ainda conseguiria um novo empate diante do Palmeiras, dessa vez em São Paulo. No segundo semestre, o Bragantino voltou a atrapalhar o Novorizontino, que também ficou atrás do São José e na passou da primeira fase na Segundona do Brasileiro. Se serve de consolo, Bragantino e São José fizeram a final do torneio.


O auge da história aurinegra veio em 1990. Comandada pelo jovem treinador Nelsinho Baptista, a base campeã paulista de juniores em dois anos antes já estava mais amadurecida. Além desses, o atacante Paulo Sérgio veio emprestado do Corinthians para ganhar experiência. Outros dois destaques eram o meia Édson Pezinho e o lateral-direito Odair “He Man”.

Na primeira fase, a equipe teve alguma dificuldade, mas terminou em 7º lugar no Grupo 1 (passavam de fase justamente 7). Em 8º lugar ficou o São Paulo, que teve de disputar uma repescagem e, ao ficar atrás do Botafogo de Ribeirão Preto, foi relegado ao Módulo Amarelo do Paulistão de 1991.

O tigre só encontrou seu melhor jogo na fase semifinal. Em um intrincado grupo com Palmeiras, Portuguesa, Guarani, XV de Piracicaba, América e Ferroviária, o aurinegro conseguiu manter a invencibilidade (e uma inesperada liderança) por 11 rodadas, até perder por 1x0 para o Palmeiras. No entanto, os verdes perderam para o Guarani na rodada seguinte e permitiram a recuperação do Novorizontino.

Na última rodada, a equipe enfrentou a Portuguesa no Canindé, enquanto que o Palmeiras recebeu a lanterna Ferroviária e o Guarani foi a Piracicaba. O empate entre o bugre e o XV eliminou o clube de Campinas. A questão ficaria entre o Novorizontino e o Palmeiras.

No Canindé, a torcida lusa pedia para seu time entregar a partida para assegurar a eliminação dos rivais palmeirenses. Mas a Portuguesa se esforçou e arrancou um empate em 1x1. Ao mesmo tempo, o Palmeiras não conseguiu furar a retranca da Ferroviária e ficou em um melancólico 0x0. Revoltada com mais um ano de estiagem de títulos, a torcida palmeirense invadiu e destruiu parte da sala de troféus do clube.


Na outra chave, o Bragantino conseguiu garantir seu lugar na final, deixando Corinthians e Santos pelo caminho. Com isso, Bragantino e Novorizontino fizeram a que foi chamada de “final caipira”, termo que foi reavivado após São Caetano e Paulista de Jundiaí decidirem o título estadual em 2004.

O estádio Jorge Ismael de Biasi ficou lotado para a primeira partida da decisão. O jogo foi equilibrado e o 1x1 foi justo (gols de Édson Pezinho e Ivair). Um cenário muito parecido foi verificado no jogo de Bragança Paulista. Márcio Santos colocou o Novorizontino em vantagem, mas Tiba empatou para o Bragantino pouco depois. Mais experiente, o clube da casa soube segurar o 0x0 na prorrogação e ficou com o título paulista.

Curiosamente, nem o vice-campeonato paulista fez com que o clube pudesse participar de alguma divisão do campeonato nacional de 1990. Tampouco da Copa do Brasil, já que a Federação Paulista estipulara que as vagas ficariam com os vencedores da primeira fase do Estadual de 1990 (Corinthians e XV de Piracicaba)

A partir daí, a trajetória ascendente do Novorizontino deu lugar a uma oscilação entre boas e más campanhas. Ainda assim, o tigre era sempre uma equipe difícil de ser batida em seu estádio, sempre cheio e com torcida barulhenta e fanática em jogos contra os times grandes.

Um ano depois do vice-campeonato estadual, o aurinegro foi “rebaixado” para o Módulo Amarelo, uma espécie de Segunda Divisão que dava vagas para a fase decisiva da primeira. Mas se recuperou com uma boa campanha na Segundona do Brasileiro, caindo diante do Noroeste nas oitavas-de-final. Na temporada seguinte, o clube não saiu do lugar no Paulsitão e ficou de fora do Brasileiro.

Em 1993, o Novorizontino venceu o Módulo Amarelo e conseguiu um lugar na fase semifinal do Paulistão. Porém, pouco pôde fazer em um grupo com Corinthians, São Paulo e Santos. Na houve segunda divisão do Brasileiro naquele ano e o tigre teve de disputar uma seletiva paulista para o torneio nacional do ano seguinte, mas ficou atrás do Mogi Mirim.

Em 1994, com um campeonato em pontos corridos, o Novorizontino terminou em um bom 6º lugar. No caminho, o time quebrou uma invencibilidade de 17 jogos do então líder Corinthians (1x0 em Novo Horizonte) e venceu o São Paulo por 3x0 no Jorge Ismael de Biasi (seria 4x0 se Zetti não defendesse um pênalti) e empatou em um extravagante 4x4 no Morumbi, resultado que deu o bicampeonato ao Palmeiras. O primeiro título do clube veio no segundo semestre daquele ano. Após superar Matsubara, Esportivo de Passos, Atlético Sorocaba, União Bandeirante, Taguatinga, Ituano, Uberlândia e Ferroviária, o Novorizontino foi campeão brasileiro da Terceira Divisão.


Nesse período, o clube não estava mais sob controle da família Biasi, que permanecia como proprietária do estádio. O Novorizontino já era dirigido pela família Chedid, a mesma que mantinha também a Ponte Preta e o Bragantino. O investimento na equipe caiu. Para piorar, houve choque político entre as famílias Chedid e Biasi, o que minou ainda mais o clube. Foi o início da decadência aurinegra.

A campanha no Paulistão de 1995 foi modesta, com um 11º lugar. Na Série B do Brasileiro, passou da primeira fase, mas não resistiu a Atlético-PR e Mogi Mirim na segunda. No ano seguinte, o clube já acusava a desorganização interna e foi rebaixado no Estadual após 11 anos na elite. A crise ficou anda mais exposta quando o clube desistiu da disputa da Segundona do Brasileiro por falta de condições financeiras. Era o fim da aventura nacional do Novorizontino.

Em 1997, o tigre tentou dar uma respirada. Investiu em jovens da região de Novo Horizonte e fez uma boa campanha na Série A-2 do Paulistão. Terminou em segundo lugar o Grupo 2, garantindo um lugar no quadrangular final. Quase conseguiu. Um empate na última rodada contra o Santo André impediu um retorno rápido à elite. As vagas ficaram com Ituano e Matonense.

Na temporada seguinte, já sem dinheiro, o clube fez sua última aparição. Terminou o campeonato no bloco intermediário, mas o fim era iminente. Tanto que as duas últimas partidas do clube foram melancólicas derrotas: 0x1 em casa para o Corinthians de Presidente Prudente e 0x4 contra a Paraguaçuense em Paraguaçu Paulista.

Endividado, o Novorizontino não teve condição de pagar as taxas da Federação Paulista e o aluguel do estádio. Como conseqüência, a família Biasi não permitiu mais que a equipe utilizasse as instalações e a federação exigiu o licenciamento do clube. Desde então, Novo Horizonte nunca mais teve um time profissional de futebol. Várias vezes já se falou na ressuscitação do Novorizontino, mas os planos sempre esbarram na falta de alguém que banque esse retorno e nas arestas políticas que ainda perduram. E a pequena cidade, cuja população inteira cabe no Pacaembu, fica sem um de seus maiores orgulhos.

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O Novorizontino vice-campeão paulista de 1990 não era apenas uma surpresa. O time era realmente bom. Veja só: Maurício; Odair, Márcio Santos, Fernando e Jerônimo; Luís Carlos Goiano, Tiãozinho, Roberto Cearense e Édson Pezinho; Paulo Sérgio e Róbson. Técnico: Nelsinho Baptista.

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Desses, os que mais tiveram sucesso foram Márcio Santos e Paulo Sérgio, ambos campeões mundiais em 1994 com a seleção brasileira. Luís Carlos Goiano foi volante do São Paulo de Telê Santana e do Grêmio de Felipão na década passada, e Maurício, convocado para a seleção brasileira uma vez e ex-goleiro de Corinthians, Santos e Portuguesa. Nelsinho Baptista foi para o Corinthians logo depois do vice no Paulistão e levou o clube a seu primeiro título brasileiro. Depois, comando vários grandes clubes do Brasil. Odair foi ao Palmeiras ainda em 1990, mas sumiu pouco depois. Como Maurício e Paulo Sérgio, Édson Pezinho também passou pelo Corinthians. Hoje, está no homônimo do alvinegro em Alagoas.

Ubiratan Leal

Imagens: Novo Horizonte

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