A decadência do modelo de administração amadora no futebol está forçando muitos clubes chilenos a se profissionalizarem e se tornarem empresa, o que, aliás, já deveria ter sido feito aqui também. Mas o processo é mais complicado do que muitos pensam. Alguns clubes são forçados a quebrar para renascer e, nessa transição, pode haver brechas para que algumas pessoas "bem relacionadas" possam tirar proveito das falências.
No Chile, a situação financeira dos clubes é muito semelhante à brasileira (e à argentina, uruguaia, peruana etc.), com dívidas praticamente impagáveis e dificuldade em se capitalizar com rapidez. Tanto que, para os casos mais críticos, foi adotada uma postura semelhante à de uma empresa em condição pré-falimentar: designou-se um interventor para administrar e realizar uma auditoria nas contas dos clubes. Isso foi feito com o Colo Colo, clube com maior torcida no Chile, e o Palestino. O mesmo pode ocorrer com a Universidad de Chile, equipe mais popular (no sentido sócio-econômico) do país.
Após reorganizar e renegociar as dívidas, o clube é colocado à venda, para que algum empresário o compre e o administre com os direitos e responsabilidades legais de uma empresa. Parece simples e correto. Mas uma reportagem publicada pela revista semanal Triunfo mostrou como não é bem assim. Os clubes (e seus torcedores) estariam sendo prejudicados nesse processo.
O que não deve ser perdido de vista é que o futebol bem gerido é uma atividade economicamente viável. Mais que isso, é lucrativa. É assim na Inglaterra, na Espanha, na Itália, no Brasil e no Chile. Por isso, não faltam investidores com interesse em ingressar nesse negócio.
Para essas pessoas, quanto pior for a situação econômica do clube, melhor. Afinal, o preço de compra fica mais baixo e o lucro do investimento virá com maior rapidez. Assim, interventores mal intencionados não fariam tantos esforços em sanear as finanças das equipes. Por exemplo, no caso do Colo Colo, a sede social e um teatro do clube foram vendidos por cerca de US$ 775 mil cada, quando estavam avaliados pela prefeitura de Santiago por US$ 1,3 milhões (sede) e US$ 830 mil (teatro). A torcida colocolina agora tenta reverter essas transações na Justiça e ainda impedir que o estádio Monumental David Arellano (foto) seja vendido no primeiro semestre de 2005.
No Palestino o processo todo já foi concluído. Após a intervenção e reorganização do clube, o tetracolor foi vendido a um grupo de 20 empresários da colônia árabe por apenas US$ 300 mil, valor mínimo estipulado pela Justiça chilena. Com isso, esses investidores ficaram com o direito de uso do estádio, o símbolo e o contrato dos jogadores e não terão de se responsabilizar pela dívida deixada pelas administrações anteriores. Ou seja, levaram o Palestino pelo valor do passe (ainda não foi extinto no Chile) de um ou dois jogadores.
Já há deputados investigando esse tipo de situação. E há situações, no mínimo, suspeitas. Por exemplo, o mesmo interventor, Juan Carlos Saffie, foi designado para trabalhar no Palestino e no Colo Colo.
Com medo de passar pelos mesmos problemas, a diretoria da Universidad de Chile está buscando formas de encontrar por conta própria seus investidores. Para se ter uma idéia da gravidade da situação de “La U”, a Universidad de Chile (a instituição de ensino) já considerou a hipótese de impedir que a Comissão de Futebol siga utilizando seu nome.
O fato de ter tanta gente interessada em investir no futebol mostra como é viável a transformação dos clubes em empresa no Chile e no Brasil. Mas o processo deve ser feito com muito cuidado e vigilância de torcedores, imprensa e do governo. Não seria difícil imaginar uma versão brasileira desse cenário.
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Não há muitos paralelos possíveis entre o processo chileno e o acordo entre Corinthians e MSI. Até porque a intenção dos investidores não parece ser das mais esportivas. Se bem que, em comum, há a desvalorização do clube e a "compra" por um valor extremamente baixo.
Ubiratan Leal
Imagens: Colo Colo página não-oficial e World Stadiums