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19/11/04

Variedades

Jogar nas montanhas é um direito

Basta o Brasil perder na altitude para recomeçarem os discursos contra jogos em cidades altas e falando no quanto essas partidas são desumanas. Sem querer menosprezar o efeito da falta de oxigênio nos jogadores, mas uma equipe (clube ou seleção) tem todo o direito a mandar seus jogos onde bem entender. Desde que apresente condições mínimas de segurança para torcedores e atletas e gramado dentro do permitido pela Fifa.


No caso da imprensa brasileira, há muita hipocrisia quando se reclama de jogos em La Paz, Quito ou Bogotá. Quando Joseph Blatter visitou a Bolívia e anunciou com pompa que a Fifa não tinha intenção de vetar partidas na altitude, ouviram-se vaias partindo do Brasil. Comentários sobre como isso distorce a realidade técnica das equipes ao fazer com que um time ruim cresça.

Porém, não devemos nos esquecer que o Brasil já mandou jogos da Copa Davis de tênis contra a Alemanha em Maceió em quadra de saibro, com o declarado motivo de desgastar os germânicos com o calor nordestino. Boris Becker e Michael Stich sofreram e a equipe brasileira, com Luiz Mattar e Jaime Oncins, se classificou. Naquele momento, a estratégia foi vista como “esperteza”. Curioso como o discurso muda, não?

Acontece que os brasileiros em geral têm o costume de considerar o clima tropical do país algo que todos deveriam gostar e aceitar. Não é bem assim. Para europeus, jogar no Rio de Janeiro durante o verão pode ser um sacrifício inimaginável. Nosso clima também é exótico, dependendo do ponto de referência.

O que também não quer dizer que a CBF deva programar as partidas ao meio-dia para cozinhar vivos os adversários como fez a organização da Copa de 1994 para atender aos interesses das TVs européias. O que deve prevalecer é o direito que um clube ou seleção tem de mandar a partida no local em que, pelo motivo que for, se sentir mais confortável.

Por exemplo, a Bolívia pode argumentar que, pelo motivo que for (calor da torcida, altitude, conforto das instalações) se sente em casa quando joga em La Paz. O que há de se fazer? A cidade tem um estádio em condições, que é utilizado regularmente na liga boliviana e já sediou diversas partidas internacionais, em Libertadores, Eliminatórias e Copa América. Se fosse proibido jogar na altitude, a seleção boliviana até pode ir a Santa Cruz de la Sierra. Mas como fariam Bolívar, The Strongest, Jorge Wilsterman e San José? Seriam obrigados e jogar longe de sua torcida?

Para nós, essa discussão é vista de forma muito pequena, só analisando os reflexos dos jogos na altitude nas Eliminatórias e na Libertadores. Não pensam em como é algo muito mais amplo. No campeonato boliviano, os clubes de Santa Cruz de la Sierra sofrem esse problema a cada duas rodadas, quando são obrigados a jogar em La Paz, Cochabamba ou Oruro. No Chile, o Cobreloa até hoje usa a altitude de Calama como arma diante dos grandes de Santiago. No Peru, as equipes de Lima sofrem sempre que vão a Cuzco, Arequipa ou Cerro de Pasco.

Nesses países, ninguém considera a hipótese de tirar o direto dos clubes de cidades andinas de mandar as partidas em suas cidades. Simplesmente porque a altitude é considerada uma condição natural comum. Como, no Brasil, é o calor. E, se ter uma cidade com estádio na altitude é normal, não haveria motivo para impedir que esse local recebesse partidas oficiais. Os times de cidades baixas é que têm de se adaptar a essa realidade. Tanto que no Peru (cuja seleção sofre com a altitude porque é formada basicamente por jogadores que atuam na Europa ou em Lima) não há reclamações contra jogos em La Paz ou Quito.


Nesse contexto, a cidade de Quito tem todo direito de receber um jogo se sua seleção. O que tem de ser feito é, a partir da escolha do local da partida, oferecer condições para que a integridade física dos atletas não sejam mais prejudicadas. Por exemplo, programando o jogo para a noite ou outro horário com temperatura amena e permitindo que a equipe visitante possa chegar ao estádio em cima da hora e reduzir os efeitos do “mal de altura”. Tudo isso o Equador fez na partida dessa quarta.

No mais, tem de se jogar com inteligência. Da mesma forma como um clube de local frio se vê obrigado a modificar seu ritmo e estilo de jogo quando está no calor (o contrário também é válido, como jogar em Caxias do Sul durante o inverno), o Brasil e a Argentina deveriam aprender a jogar na altitude. Se o Blooming, o Colo Colo e o Alianza Lima fazem isso em seus campeonatos nacionais, não haveria porque a seleção e os clubes brasileiros não o fazerem. É evitar a correria, dificultar os chutes de fora da área do adversário e não forçar jogadores que não se sentirem bem (caso de Ronaldo contra o Equador).

Ter de se adaptar às condições específicas de cada partida faz parte de qualquer esporte. Ainda mais para uma das melhores equipes do mundo. Esse foi o maior pecado do Brasil contra o Equador (e em outros jogos em La Paz, Bogotá e Quito). Não a derrota em si, que deve ser considerada como normal em uma partida disputada em condições adversas contra um adversário que não é de todo ruim.


Estádio Changlingmethang, em Timphu, capital do Butão. Não soa injusto obrigar os butaneses a mandar partidas na Índia para se inserir no futebol internacional?

Ubiratan Leal

Imagens: Hinchadas Peru, Bolivia Corazón, Olé e My Life in Druk Yul

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