O futebol brasileiro precisa de parceiros. Isso é límpido na visão de quem pensa no futuro do esporte com seriedade que nem é necessário explicar muito. No entanto, o que a diretoria do Corinthians está tentando fazer (se é que já não fez) tem uma abrangência muito maior que simplesmente botar em risco a integridade moral, financeira e patrimonial do alvinegro. Pode abrir um precedente, mostrar um caminho errado para muitos outros clubes.
Pelo pouco que se sabe do contrato Corinthians-MSI (aliás, o fato de pouco disso ter sido divulgado voluntariamente já é de se levantar dúvidas), haverá uma onde de investimentos no início dos 10 anos de contrato. Não seria apenas com a chegada de Tévez, algo que soa surreal, mas com o pagamento de dívidas, o investimento na área social (que drena os recursos gerados pelo futebol profissional corintiano) e a contratação de alguns jogadores. Com um grupo já esquematizado por Tite, o treinador que chegasse não teria dificuldades em montar um elenco forte e sólido.
A perspectiva para 2005 e, talvez, 2006, deve ser das melhores para os corintianos caso a parceria se confirme. O sucesso inicial seria importante também para os “investidores” legitimarem seu trabalho e ganharem mais apoio. No entanto, seria uma bolha que estouraria em algum momento. Mais ou menos como a supervalorização das ações de empresas de Internet no final da década passada e início dessa.
Nesse êxtase inicial, talvez a MSI não só ganharia margem de manobra no Corinthians, como também convenceria o futebol brasileiro como um todo (torcedores, dirigentes e imprensa) que aceitar parcerias com esse perfil seja a solução. Outras pessoas com interesses duvidosos podem ingressar em outros clubes.
E não se pode comparar esse tipo de investidor com outros que já estiveram em terras brasileiras. A Parmalat, a despeito de todas as irregularidades descobertas na empresa e em transações envolvendo o futebol, teve um crescimento de mercado assustador depois que começou a patrocinar o Palmeiras. O retorno do investimento era palpável e visível em qualquer prateleira de supermercado.
Os bancos ou empresas de marketing (Excel Econômico, Nations Bank, HMTF e ISL) não tiveram tanta sorte. Acostumados a investir em áreas diferentes, o fato de esses grupos terem falhado mostra como o futebol brasileiro é algo complexo e que precisa de mudanças estruturais profundas. Não seria uma empresa que nem se constituiu direito que descobriria uma solução simples.
Por isso, a sensação (e a expectativa pelo que se sabe do contrato) é que, após a euforia inicial, a MSI praticamente abandonaria o Corinthians. Se o mesmo ocorrer com outros clubes, o futebol brasileiro como um todo pode entrar em uma séria crise financeira. Maior que a atual, que já é assombrosa, pois nem capacidade de agir por conta própria para fugir da crise os clubes teriam.
E, pela forma como a aprovação do contrato tem sido tratada no Corinthians, é possível ver como a transparência e o debate para se chegar a uma solução mais democrática não fazem parte dos procedimentos adotados por esses investidores. Até porque o interesse que prevalece não é o dos torcedores, mas o dos envolvidos na negociação. Como sempre foi. Mas, na ilusão de que há mudanças, o tombo pode ser ainda maior. Que algum investidor sério chegue logo – mesmo que em outro clube – para fazer frente a esse modelo que se desenha no alvinegro paulistano.
Ubiratan Leal
Imagem: Lancenet