http://www.gardenal.org/balipodo/balipodo_logo_2005.gif

Busca


Últimas atualizações

Chutômetro
Chutômetro 6

Chutômetro
Soluções do Chutômetro 5

Quem é vivo...
Ruy Ramos

Com que roupa...
Atlético de Madrid

Histórias
O Manchester que assustou United e City

Cultura & Mídia
La Pasión Laica

E se...
E se a Ponte Preta ganhasse a final em 1977?

Cultura & Mídia
Sociedade não precisa saber da vida de Casão

Arquivos

Procure nos alfarrábios por assunto

Contato

ubiraleal@gmail.com

RSS

Clique aqui e veja o Balípodo em RSS

Powered by

Gardenal.org

Considerações legais

Clique aqui


« A Liga dos Campeões 2004-05 | Página inicial | A versão inglesa da Ponte Preta 2004 »

5/10/04

O mundo não é uma bola...

Upa upa upapá

Era para ser. Eu deveria chegar em Cuzco em 8 de setembro e o jogo entre Boca Juniors e Cienciano estava marcado para dois dias antes, em Fort Lauderdale, na Flórida. No entanto, a passagem do furacão Frances pelo sul dos Estados Unidos provocou o adiamento do jogo em 24 horas. E uma sorte inesperada na conexão em Lima me permitiu chegar à antiga capital do império inca um dia antes. E foi possível ver, in loco, a loucura que um pequeno time provinciano está provocando em todo o Peru.

O ponto de partida para qualquer coisa em Cuzco é a Plaza de Armas, a principal da cidade. Em um primeiro momento, foi meio desagradável ter a primeira visão da fachada principal da bela Catedral parcialmente encoberta por um enorme telão. Ainda mais quando, por um lapso momentâneo, você se esqueceu que o tal furacão adiou a final da Recopa, torneio ignorado no Brasil que reúne o campeão da Libertadores e o da Copa Sul-Americana do ano anterior.

Porém, basta ver as bandeiras vermelhas que rodeiam o telão e prestar um pouco de atenção na letra da música que toca incessantemente no alto-falante da praça central da cidade para perceber do que se tratava – começava com um grudento “Upa que upa que u-papá, el Cienciano es el papá” e seguia contando a campanha do time vermelho na Copa Sul-Americana de 2003, incluindo a vitória sobre o Santos nas quartas-de-final.


Às 19h00, a praça já estava completamente tomada. Quer dizer, quase completamente. A área pavimentada estava apinhada, mas não havia um cidadão pisando nos jardins ou na área gramada da praça. Até porque alguns policiais tratavam de repreender os poucos que passavam dos limites demarcados para o “evento”. De qualquer forma, a obediência de cusquenhos e turistas era digna de nota.

Era tanta gente que não era possível ver o telão de perto. Era apenas um quadrado brilhante e esverdeado no meio das cabeças. Até dava para entender um pouco do que acontecia, mas não era possível ouvir a narração da TV peruana. Não que fizesse muita diferença.

Como esperado até pelos torcedores do Cienciano, o Boca dominou o primeiro tempo. Absurdamente superior tecnicamente, não dava muitas chances para os imperiais levantarem um pouco o ânimo da torcida que estava diante do telão na fria noite de inverno em Cuzco. Tanto que o gol de Tévez, após falha do veterano goleiro Ibáñez, nem alterou muito as expressões dos peruanos.


No segundo tempo, os vermelhos tentaram avançar mais, até colocaram em campo o Lobatón. Aumentam as esperanças dos torcedores da praça, independentemente do fato de o Boca ainda ser mais time e mandar uma bola na trave. Até que, faltando três minutos para o final da partida, Gamarra cobra uma falta da intermediária. Mais um daqueles cruzamentos desesperados para o meio da área, onde uma horda de jogadores só pensa em esbarrar na bola de alguma forma para ver se dá a sorte de tirar do goleiro. E, dessa vez, deu certo. Saraz resvalou com a cabeça e, com a visão encoberta pelos vários defensores boquenses e atacantes imperiais, Abbondanzieri nem saiu do lugar.

Cuzco pulou, soltou rojões e buzinou (mais do que já costuma buzinar). Afinal, para os cusquenhos, o Cienciano não é apenas o time da cidade, tampouco um time peruano tentando a sorte no continente. É um representante da força ainda viva dos incas. Pode parecer bobagem, mas é como eles vêem.

Na disputa de pênaltis, Ibáñez se recuperou da falha no tempo normal e defendeu as cobranças dos argentinos Tévez e Vargas. O Cienciano era campeão da Recopa, um campeonato que não significa muita coisa, mas que, para os peruanos, era a decisão de qual era o melhor time da América.


Carreatas, rojões, gente gritando. O sudário de Cristo na catedral da cidade foi substituído por um outro, com o símbolo do Cienciano. Até em Lima houve gente saindo de casa para vibrar. Comemoração maior, só no Inti Raymi, festival ao deus sol (Wiracocha) que marca o ano novo dos incas, celebrado até hoje.

Falar que o Peru parou é exagero, mas não deixa de ser verdade que esse foi o principal assunto do país por vários dias. A saída do Cienciano de Miami. A chegada a Lima. A passagem pela alfândega do aeroporto Jorge Chávez. O passeio pelas ruas da capital do país (o time jogaria contra o Deportiva Wanka o fim de semana seguinte e não voltou a Cuzco imediatamente). Qualquer passo dos jogadores e do treinador do Cienciano eram gravados e repetidos exaustivamente, sempre ao som daquela musiquinha do “upa upa papá”. Fora as referências de que, depois de cinco séculos, os incas retomaram o domínio da América.


Com a seleção peruana em baixa (na realidade, nem está tão mal nas Eliminatórias, mas a imprensa do país está realmente desiludida com a equipe e age como se as chances de ir à Alemanha em 2006 já tivessem desaparecido), ganham volume as vozes que pedem a demissão imediata de Paulo Autuori e sua substituição por Freddy Ternero (foto), técnico do Cienciano adepto de métodos iusitados de treinamento e de um forte discurso de auto-ajuda. Pode até dar certo, apesar de parecer uma opinião oportunista.

O delírio ficou tão grande que não foram poucos os que defenderam que, o Cienciano vestisse a camisa do Peru nos jogos contra Bolívia e Paraguai pelas Eliminatórias. Segundo esses, o clube tem caráter e capacidade de superação, justamente o que tanto faltaria à seleção. Além disso, os jogadores imperiais estão acostumados com a altitude (Cuzco está a 3,3 mil m de altitude) e não teriam problemas em jogar em La Paz, a 3,6 mil m. Claro que também não faz sentido, já que o time vermelho não consegue nem ser hegemônico na liga local (o atual campeão é o Alianza Lima) e tem alguns jogadores estrangeiros no elenco. Mas isso não importa. É momento de festa!

O clube chegou a Cuzco apenas em 13 de setembro. Nem a derrota para o Deportivo Wanka por 1x0 dois dias antes desanimou os torcedores. Cerca de 100 mil pessoas (25% da população da cidade) foram à Plaza de Armas para a festa. Até o presidente do Peru, Alejandro Toledo, esteve presente, certamente tentando recuperar a popularidade que se esvai. Tudo porque, para o Peru, o melhor clube do futebol sul-americano é de Cuzco.

FICHA TÉCNICA
Boca Juniors 1x1 Cienciano (2x4 nos pênaltis)
Final da Recopa Sul-Americana
Local: estádio Flockhart (Fort Lauderdale-EUA)
Árbitro: Terry Vaughn (Estados Unidos)
Boca Juniors: Abbondanzieri; Calvo, Schiavi, Traversa e Rodríguez; Cagna, Cascini, Ledesma (Matellán) e Guglielminpietro (Vargas); Tévez e Palermo. Técnico: Miguel Ángel Brindisi.
Cienciano: Ibáñez; De la Haza, Acasiete, Arboleda e Portilla; Morán (Lobatón), Bazalar, La Rosa e Gamarra; Mosto (Saraz) e Carty (Ibarra). Técnico: Freddy Ternero.
Gols: Tévez (31/1º) e Saraz (43/2º)
Cartões amarelos: Arboleda, Morán, Mosto e Gamarra
Pênaltis: Ibarra (gol), Schiavi (gol), Lobatón (gol), Tévez (defesa do goleiro), Portilla (gol), Palermo (gol), Acasiete (gol) e Vargas (defesa do goleiro)

Ubiratan Leal

Fotos: Cienciano e Ubiratan Leal

Deixe sua opinião (0)

Nedstat Basic - Free web site statistics