Em um momento em que a supremacia do Brasil parece solidificada no cenário mundial (pelo menos até a atual geração argentina deslanchar), não são poucos os que acham que a seleção, com um pouquinho de organização política, poderia se tornar uma espécie de “NBA do futebol”. Aliás, o termo já foi muito usado, mas hoje está um pouco sem sentido. No entanto, o que aconteceria se, ao invés de o Brasil se organizar, os norte-americanos é que resolvessem gostar – de verdade – de futebol?
Claro, para essa suposição fazer sentido, é necessário partir do princípio que o esporte não é apenas uma moda passageira, mas algo enraizado na cultura estadunidense, a ponto de mobilizar o país. O momento crucial se deu nas décadas de 1860 e 1870. Os ingleses já haviam levado o football à América do Norte, mas mesmo entre os britânicos a separação do futebol apenas com os pés – o “normal” – e o que permitia o uso das mãos – o rúgbi – ainda não estava consolidada (a cisão se iniciou em 1863 e só foi definitiva em 1870, com a criação da federação inglesa de rúgbi).
Os norte-americanos também estavam desenvolvendo seu gosto pelo football. Havia várias versões do jogo, mas eles acabaram preferindo as que usavam as mãos. Aos poucos, as regras passaram por adaptações e, em 1876, Walter Camp, técnico do time da Universidade de Yale, cortou boa parte das influências do futebol-soccer que existiam no rúgbi, reduziu o número de jogadores por equipe (de 15 para 11) e estabeleceu as regras do que se tornou o futebol americano. Foi um momento crucial para a história do futebol. Se os Estados Unidos resolvessem aderir ao “nosso” futebol, a realidade do esporte certamente seria diferente. E talvez a história fosse contada da seguinte forma:
Desde o século XIX os Estados Unidos já tinham as universidades como base da prática esportiva. Assim, o futebol também se espalhou por meio das instituições de ensino. Em pouco tempo os norte-americanos já haviam montado uma estrutura semiprofissional, parecida com a existente em Inglaterra e Escócia e muito superior à dos demais países.
Ao contrário do que ocorreu em outros países, os Estados Unidos não tiveram dificuldades em profissionalizar sua liga. Remunerar os atletas foi visto como algo relativamente natural, até porque já seguia a tendência iniciada pela Liga Nacional de Beisebol em 1876. Isso permitiu que os norte-americanos logo tivessem à disposição um sistema que permitia a identificação de talentos precoces e a dedicação exclusiva dos atletas adultos. Não foi difícil conquistar o ouro olímpico em 1912 e 1920.
O problema é que os Estados Unidos se fecharam em suas ligas profissionais por algum tempo. Consideravam que apenas os ingleses poderiam lhe fazer frente e, como os britânicos também ignoravam o resto do mundo, ambos não viram o crescimento dos sul-americanos e da Europa Central. Tanto que tiveram dificuldades em entender como o Uruguai e seu jogo habilidoso conquistou o bicampeonato olímpico em 1924 e 1928.
Para a Copa de 1930, os Estados Unidos enviaram uma seleção improvisada, apenas com atletas de ligas profissionais menores. Ainda assim, conseguiram o terceiro lugar após cair diante da Argentina nas semifinais. A partir daí, os norte-americanos voltaram a levar a sério as competições internacionais.
Os Estados Unidos fizeram grandes campanhas nos Mundiais de 1934 e 1938. Caíram diante da Itália em jogos nervosos que se tornaram metáforas futebolísticas das questões políticas, conseqüência da presença insistente do governo fascista de Mussolini nas competições.
Após saírem da Segunda Guerra Mundial com poucos danos em seu território, os estadunidenses viveram seu auge econômico e cultural. A infra-estrutura esportiva fora preservada e, na década de 1940, tinham a melhor seleção do mundo. Tanto que o mundo do futebol ficou em grande expectativa quando o sorteio dos grupos para a Copa de 1950 colocou os Estados Unidos diante da Inglaterra. Era considerado o maior clássico do futebol mundial da época.
O jogo em Belo Horizonte foi vencido com certa facilidade pelos norte-americanos, que chegaram à fase final. Perderam para o Brasil em um emocionante 3x2, mas se beneficiaram de uma surpreendente derrota da seleção da casa para o Uruguai e conquistaram o título no jogo-extra. O haitiano naturalizado Gaetjens foi, ao lado de Ademir, o artilheiro do torneio.
As décadas de 1950 e 1960 marcaram a consolidação do futebol nos Estados Unidos como principal opção ao beisebol. As ligas universitárias tinham grande visibilidade e as profissionais, principalmente a National Football League (NFL), lotavam estádios todos os fins-de-semana. A final da NFL, disputada em partida única em campo neutro, foi chamada de Super Bowl e se tornou o evento esportivo mais importante do país. Para agradar mais ao torcedor, o jogo foi dividido em 4 tempos de 25 minutos, medida que viria a ser oficializada pela Fifa para todo o mundo anos depois.
Com a decadência dos ingleses, os principais rivais dos norte-americanos eram os brasileiros e os soviéticos. Eram três seleções com estilos de jogo muito diferentes. Os sul-americanos baseavam-se na técnica e habilidade apurada, em um estilo de jogo bastante ofensivo. Os Estados Unidos, apesar de também contar com jogadores técnicos, priorizavam a marcação forte e ocupação de espaço no campo, asfixiando o adversário e partindo em ataques eficientes e decisivos. A União Soviética teve desenvolvimento tardio. Na realidade, percebeu que os Estados Unidos usavam o esporte mais popular do mundo para fazer propaganda de seu modelo sócio-econômico e resolveu investir no futebol. O estilo soviético se caracterizava por fundamentos muito bem treinados, atletas fortes e organização tática impressionante.
O domínio dessas três nações só não foi maior nesse período porque o futebol, pela própria mecânica do jogo, sempre abre espaço para surpresas e placares equilibrados. Ficava claro que era impossível evitar que, eventualmente, uma dessas seleções fosse derrotada por um adversário um pouco mais fraco.
Com o aumento da abertura política dos países, a NFL se tornou um grande pólo de atração dos melhores futebolistas do mundo. Nem os clubes espanhóis e ingleses conseguiam competir com o poderio econômico das equipes profissionais dos Estados Unidos. As partidas do Campeonato Norte-Americano começaram a ser transmitidas para todo mundo e o modelo de administração, com franquias, passou a ser copiado por outros países.
Esse domínio só era afetado um pouco no Mundial Interclubes, um triangular entre o campeão da Concacaf, da América do Sul e da Europa. Cheios de soberba e craques como Beckenbauer, Cruijff, Pelé e George Best, os norte-americanos muitas vezes perdiam para os aguerridos sul-americanos. E sempre tentavam convencer o mundo de que não se importavam muito.
E justamente esse aumento de intercâmbio permitiu que a hegemonia de Estados Unidos, União Soviética e Brasil diminuísse. Na década de 1970, países como Alemanha, Holanda e Argentina já conseguiam atuar no mesmo nível dos grandes do futebol mundial. A esse grupo se acrescentou a Itália anos depois.
Com a queda da União Soviética, vários jogadores russos e ucranianos assinaram com equipes da NFL. No entanto, aos poucos as ligas européias conseguiram diminuir a diferença que as separavam na NFL. A Lei Bosman fez com que os clubes italianos, alemães, espanhóis e ingleses tivessem mais facilidade em contratar um europeu do que os norte-americanos. Além disso, o crescimento do basquete fez com que houvesse uma pequena queda no público de futebol na América do Norte.
Isso não impediu que os principais jogadores das últimas décadas, como Ronaldo, Zidane, Baggio, Joe Montana, Lalas, Romário, Cobi Jones, Bergkamp e Matthäus, fizessem sua carreira em equipes dos Estados Unidos, mas já não se pode dizer que os Estados Unidos são superiores aos demais em competições de seleções nacionais. Depois do título conquistado em casa, em 1994, os norte-americanos não conseguiram sequer chegar às semifinais em Copas do Mundo. Em 1998, caíram diante da Holanda nas oitavas-de-final e, em 2002, perderam para a Coréia do Sul em um jogo de arbitragem muito contestada pelos norte-americanos.
Ubiratan Leal
Obs.: Esse “artigo” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levada a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência. O máximo de realidade do futebol nos Estados Unidos está aqui.
Imagens: USA Today, Soccerhall, Fodbold-VM e Soccerage