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14/10/04

O mundo não é uma bola...

Começa a corrida alemã pelo título de 2006

É estranho ver que os normalmente organizados alemães perderam tanto tempo na preparação da seleção que disputará o mundial de 2006 em casa. Com a troca de técnicos (saiu Völler e entrou Klinsmann), a pouco menos de dois anos da Copa, finalmente é possível dizer que a Alemanha definiu sua trajetória. Agora, com dois meses, três jogos e algumas confusões com novo comandante, já se vê qual é esse caminho.

A contratação de Jürgen Klinsmann para técnico da seleção causou uma desconfiança muito grande na imprensa e na torcida alemã. Uma reação justificável, pois o ex-atacante de Stuttgart, Internazionale, Tottenham e Zaragoza, por mais que tivesse feito curso de treinador, jamais havia comandado um time de futebol profissional. Bem assessorado pelo colega Oliver Bierhoff e pelo assistente Joachim Löw, Klinsmann começa a ganhar um pouco de crédito.

Logo de cara, o novo técnico pôs em prática a esperada e necessária renovação da equipe nacional. Völler até havia tentado algo nesse sentido, mas insistiu demais em jogadores que não conseguiam mais um bom rendimento, deixando de fora jovens talentos que mostravam um futebol bem melhor em seus clubes. Assim, nomes como Wörns, Linke, Ziege, Hamann e Bobic, estão sendo substituídos por Huth, Mertesacker, Lahm, Ernst e Podolski, entre outros.

Outra diferença entre os atacantes campeões mundiais em 1990 é que Klinsmann demonstra não ter a mesma paciência de Völler na administração do ego de seus atletas. Por exemplo, semana passada houve mais uma rodada de discussões entre o titular e decadente Oliver Kahn e o reserva e inseguro Jens Lehman. É uma discussão velha, cheia de rancor e declarações – partindo das duas partes – constrangedoras, desagradáveis e desrespeitosas na imprensa. Dessa vez, o preparador de goleiros da seleção e do Bayern, Sepp Maier, também se envolveu, defendendo seu amigo Kahn. O ex-atacante disse que quer conversar com os dois goleiros, mas não teve a mesma cerimônia com o treinador de goleiros e o mandou para casa. Maier, conhecido pelo seu gênio forte, será substituído pelo ex-goleiro da seleção alemã campeã da Euro 96, Andreas Köpke.


Klinsmann não teve o apoio da torcida, de colegas – até foi chamado de “assassino” pelo agora desafeto Lothar Matthäus –, da imprensa e, claro, de dirigentes do Bayern de Munique (extremamente influentes na política do futebol alemão) como Beckenbauer e Uli Höeness. Mesmo assim, mostrou força e indicou que Lehmann e, principalmente, Hildebrand (foto) poderão ter mais espaço para lutar pela camisa 1 na Copa, já que Kahn perdeu seu principal aliado na comissão técnica da Alemanha.

Seria uma boa idéia, já que Hildebrand se mostra como a melhor opção para a seleção no momento. O jovem goleiro (tem 25 anos, pouco para o gol do conservador futebol alemão) do Suttgart tem qualidade para assumir a número 1 dos alemães. É tranqüilo, seguro e parece não ter medo de ser titular da seleção. Essa semana, disse que Kahn deveria colocar a cabeça no lugar e não agir mais como criança. Aliás, mais um sinal de como “King-Kahn” está com moral baixo na Alemanha.

Porém, o maior trabalho de Klinsmann não será no gol, onde, apesar de todas as confusões, ainda há opções razoáveis. Como já dito aqui, a torcida alemã torce que até a Copa o técnico consiga encontrar o que mais falta na nationalmannshaft: um líder em campo, um jogador capaz de desequilibrar uma partida pela capacidade técnica e de comando. Já se falou muito de Sebastian Deisler, do Bayern de Munique. No entanto, “Basti”, como é chamado, não consegue se reencontrar depois de seguidas contusões e uma séria crise de depressão. A outra opção é Ballack, jogador talentoso, defende e ataca com a mesma qualidade, mas que altera bons e maus jogos desde que chegou à Baviera. O problema para Klinsmann é que um líder não se faz com facilidade.

Menos mal para o ex-atacante que apareceram alguns jovens talentos no país, que ajudarão a dar suporte à futura base, qualquer que seja o ponto de partida dessa. Nesse aspecto, o técnico terá de aproveitar ao máximo esses quase dois anos para dar a experiência necessária para esse jogadores.


Os mais promissores são os meias Sebastian Schweinsteiger, 20 anos, do Bayern de Munique e um dos poucos destaques alemães na última Eurocopa, e de Thomas Hitzlsperger (foto), 22, do Aston Villa. Curiosamente, eles jogam em posições parecidas com Ballack e Deisler, porém, não seria impossível pensar que Schweinsteiger reúna condições de deixar um de seus colegas de Bayern no banco. Mais sorte têm Lahm e Hinkel. Os laterais do Stuttgart impressionam por terem características raras ao futebol germânico, driblando e indo para cima dos adversários com desenvoltura mais comuns a jogadores brasileiros. De resto, tentam seu espaço Auer e Podolski. Porém, nesses casos, é muito difícil que os dois tenham condições de fazer a diferença para os alemães já em 2006.

É mais ou menos esse o cenário da seleção alemã de Klinsmann. Não é muito, mas já é o começo de uma corrida contra o tempo para a Alemanha formar uma um time capaz de atender à expectativa (e exigência) da torcida na próxima copa. Há muito a ser feito em pouco tempo. Por isso, talvez o trabalho do novo treinador só possa ser julgado com propriedade com o Mundial em andamento. A torcida terá de dar crédito a ele (mesmo depois de uma vitória suada diante do Irã), pois não há mais condições de, mais uma vez, mudar a rota da preparação alemã.

*

Uma boa surpresa para Klinsmann é a volta do zagueiro Markus Babbel à boa forma. O defensor do Stuttgart apareceu no Bayern de Munique, onde conquistou vários títulos, e foi durante muito tempo titular da seleção. Já no Liverpool, quase abandonou o futebol ao descobrir uma doença degenerativa na pernas há dois anos. Aos 32 anos, Babbel já foi indicado para a seleção de duas rodadas da Bundesliga e declarou que está à disposição de Klinsmann.

*
A federação alemã e o Hamburg estão fazendo um grande esforço para trazer Huth (Chelsea) e Hitzlsperger (Aston Villa), para a Alemanha. Motivo: Huth, apesar de elogiado por José Mourinho, é o segundo reserva da equipe. Hitzlsperger joga mais vezes, porém, também sente a falta de ritmo. Em um Hamburg em crise técnica, certamente a dupla teria condições de conseguir a seqüência de jogos.

Maurício Aires

Imagens: DFB, Vietnam Net e Sporting Life

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