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30/08/04

O mundo não é uma bola...

Argentina não precisou de muito para ter o ouro


O torcedor brasileiro que disser que não sentiu nem uma ponta de inveja do título olímpico argentino está mentindo. O Brasil, que mostra um desejo desmesurado pela medalha de ouro no futebol, não a consegue. A Argentina, que também sentia falta dessa conquista, mas não mostrava tamanha obsessão, a ganhou sem sinal de dificuldade ou sofrimento, características das campanhas olímpicas brasileiras.

O que deve dar mais dor de cotovelo aos torcedores brasileiros é perceber que os argentinos não fizeram nada de genial para conseguir o ouro. E nem teriam porque fazê-lo, pois o torneio sempre tem nível técnico mediano. Para os platinos, bastou realizar um plano simples, sem cometer os erros pontuais e decisivos que sempre marcaram as campanhas brasileiras.

A principal diferença entre a campanha argentina em 2004 e as últimas da seleção brasileira foi a seriedade com que encarou o torneio. Não é suficiente considerar a competição importante, é necessário também reconhecer que os adversários podem representar algum perigo e, por isso, manter a concentração em todos os jogos. Mas respeitar o adversário é algo cada vez mais raro em partidas de seleções brasileiras.

Por causa dos títulos mundiais, o Brasil se colocou como a maior nação futebolística do planeta. Isso é até verdade. Mas não quer dizer que a seleção seja intocável e infalível. E isso o brasileiro (torcedor, imprensa e jogadores) não consegue entender direito. Acha que o talento sempre resolverá os problemas que aparecerem pelo caminho.

Foi assim que a seleção caiu em 1992, ao menosprezar até o limite a fraca seleção da Venezuela no Pré-Olímpico do Paraguai. O mesmo ocorreu em 1996, quando o time começou o torneio mais preocupado na festa do pódio do que nos jogos. Perdeu para o Japão na estréia, se recuperou e, após fazer 3x1 na Nigéria nas semifinais, ficou esperando a partida acabar e tomou o empate. Em 2004 também houve relaxamento por excesso de confiança, o que fez com que o time não encontrasse seu jogo em nenhum momento no Pré-Olímpico. Parecia incomodada com o fato de ter um adversário que tentava ipedir a vitória brasileira.

Mas nenhum caso de soberba foi tão grave quanto o visto em 2000. Deixar os três jogadores acima de 23 anos de lado é um luxo ao qual pouquíssimas formações podem se dar. E claramente não era o caso da seleção olímpica do Brasil que foi a Sydney. Somando a isso a falta de autoridade de Luxemburgo, que, na época, tinha ações investigadas pela Justiça, a seleção se desmanchou em sua própria autoconfiança.

Isso não significa que o Brasil perca apenas por problemas internos. Apenas que a seleção se colocou em uma situação que dificilmente reverteria diante de adversários tão ou mais fortes, como a Espanha de 1992 (que nem precisou passar pelo Brasil) e a Nigéria de 1996. Como o torneio do futebol nas Olimpíadas carrega um alto grau de imprevisibilidade pela inexperiências dos jogadores e desconhecimento que uma equipe tem da outra, não se pode dar hipóteses aos adversários.

A Argentina soube evitar isso. Por exemplo, não deixou de golear a Itália nas semifinais ou de buscar a vitória sobre o Paraguai logo nos primeiros minutos. Era necessário se impor pelo futebol para evitar surpresas, coisa que o Brasil nunca fez nas Olimpíadas de 1996 e 2000. A albiceleste também tinha talentos de sobra, mas Marcelo Bielsa não deixou de chamar Cristián González, Heinze e Ayala. Afinal, os garotos precisavam de alguém que os liderasse e havia um buraco no meio da defesa a ser coberto. E, principalmente, conseguiu montar um time em que seu craque, Tévez, decidisse.

Ou seja, a Argentina não fez nada que o Brasil não pudesse ter feito antes. O problema é que, por alguma razão, o Brasil nunca fez. Agora é aplaudir a festa platina.

Ubiratan Leal

Imagens: Athens 2004 e BBC Sport

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