Apesar de só terem estourado agora, os problemas napolitanos se desenharam gradualmente. A crise financeira atinge o clube há vários anos, desde o fim da era Maradona. Por um tempo, o clube até conseguiu se manter dignamente na Série A. Até que não foi mais possível contratar jogadores de nome para maquiar a situação, nem manter uma equipe mediana. Em 1998, os campanos foram rebaixados com uma campanha patética: 14 pontos em 34 partidas.
Ficaram duas temporadas na Série B, mas conseguiram reestruturar a equipe (financeiramente a draga continuava) e subiram à elite. Mas o Napoli não era mais o mesmo. A campanha foi péssima e o clube esteve sempre entre os últimos. Em uma tentativa desesperada de se reerguer, o presidente do clube Corrado Ferlaino (o mesmo da época gloriosa de Maradona e Careca) contratou Edmundo com um dinheiro que não tinha. Afundou ainda mais as finanças do clube e o ex-vascaíno pouco fez para evitar mais um rebaixamento. Esse, sim, definitivo.
Desde então, o time está perdido em algum lugar da duríssima Segunda Divisão da Itália. Na primeira temporada, houve um investimento relativamente vultoso para uma volta rápida à elite, mas um empate com a Reggina em casa, diante de 70 mil torcedores, acabou com as hipóteses campanas. Claro, um clube com a grandeza do Napoli não consegue ficar tanto tempo nessa situação sem sentir conseqüências financeiras. Houve mudança de direção, com a chegada de Salvatore Naldi, mas nada adiantou.
Em 2003, os azzurri quase foram rebaixados. Ficaram um ponto à frente do rebaixado Catania. Porém, os sicilianos ganharam dois pontos na Justiça, obrigando Napoli e Venezia a disputarem um jogo-desempate. Instalou-se uma grande confusão que resultou no não-rebaixamento de três times (Catania, Genoa e Salernitana) e no resgate de outro (a Florentia Viola/Fiorentina).
De qualquer forma, já era possível ver como o Napoli se aproximava mais da Serie C1 do que da A, tendência confirmada na temporada 2003-04. Nessa última, pelo menos, a salvezza foi atingida com mais tranqüilidade. O que não foi suficiente para aliviar a gravíssima situação financeira.
No ano da confusão (2003), os partenopei já tiveram sua inscrição arriscada. É importante dizer que a saúde financeira de um clube europeu (onde a coisa é mais séria, mesmo na bagunça que virou o futebol italiano) não é medida apenas pelas dívidas, mas também pela liquidez do patrimônio, pendências trabalhistas e outros itens. E, nesse ponto, a posição dos napolitanos é muito pior que de Lazio e Roma, só para citar duas equipes com notórios problemas de caixa.
Até que chegamos ao verão de 2004. A dívida é monstruosa, em torno de € 67 milhões, € 30 milhões apenas em impostos atrasados. Naldi (foto) tentou recapitalizar o clube, buscando investidores, já que ele mesmo já gastara muito (€ 60 milhões, entre compra, contratações e pagamento de dívidas) e não conseguira tirar o Napoli do vermelho. Em vão. Sem encontrar alternativas, o presidente anunciou que sua retirada do clube em 22 de junho.
A administração do Napoli ficou nas mãos de Paolo Bellamio, cuja principal função foi buscar empresários, investidores ou qualquer cidadão que resolvesse bancar a sobrevivência do Napoli. Para se ter uma idéia da situação, o clube tem de atacar em duas frentes.
Na Lega Calcio e na Federcalcio (federação italiana), o principal problema são os salários atrasados com os jogadores. Sem algo que comprove a quitação dessas dívidas, o clube tem sua inscrição negada pela liga e é rebaixado administrativamente para a Serie C1. No TAR (Tribunal Regional) de Nápoles, os dirigentes têm de evitar que a falência seja decretada, o que poderia resultar até no fim das atividades do clube (como ocorreu com a Fiorentina).
Um grupo de investidores surgiu com a intenção de sanear o clube. Ao mesmo tempo, apareceu o sempre barulhento e inconveniente Luciano Gaucci, já proprietário de duas equipes da Serie B, Catania (coincidência, não?) e Perugia. Infelizmente para o Napoli, os tais investidores desistiram e Bellamio acertou o aluguel (isso mesmo, aluguel, com possibilidade de compra para o futuro) do clube para Gaucci.
Como sempre, o novo presidente napolitano (foto) começou a criar confusão. Disse que pessoas (sem declaram quem seriam essas) queriam a falência do maior clube do sul da Itália. Apareceu com um plano de pagamento das dívidas em longo prazo: € 5 milhões por ano até 2009, quando desembolsaria mais € 21 milhões para comprar o Napoli. Seria suficiente para, pelo menos, garantir a inscrição dos azzurri nessa temporada. No entanto, a procuradoria de Nápoles não ficou convencida com as garantias bancárias apresentadas pelo novo presidente. Além disso, o aluguel não foi aprovado pela Federcalcio.
Em 12 de junho, Gaucci afirmou ter enviado um fax, no qual garantiria a quitação das dívidas com jogadores em poucos dias, à sede da Lega Calcio. O dinheiro (€ 6,12 milhões) teria vindo de um grupo de empresários liderados por Enzo Ianucci e Nicola Oddati. No entanto, Adriano Galliani, presidente da liga, afirmou que ninguém teria visto tal documento.
Se os napolitanos precisarem de uma prorrogação terão de contar com a aprovação da Federcalcio e do Covisoc (Commissione di Vigilanza sulle Società, entidade ligada à federação que controla a situação financeira dos clubes italianos de futebol profissional), pois a liga diz que sua participação no caso já foi encerrada. Hoje, o Tribunal de Nápoles dará seu veredicto no processo de falência. A situação do clube não é boa e, ao que parece, o futuro mais provável é o rebaixamento.
Enquanto isso, já tenta se definir que Napoli disputará a Serie B se as medidas de Gaucci forem bem-sucedidas. Tudo indica que o técnico seria Serse Cosmi, que estava no Perugia nas últimas três temporadas. Nada mal para quem quase foi rebaixado para a Terceira Divisão dentro do campo e ainda luta fora.
Independentemente da preferência clubística de cada um (se é que os leitores brasileiros têm preferência clubística na Itália), é triste ver o Napoli nessa situação. Os azzurri sempre foram um dos orgulhos do sul da Itália, uma forma de mostrar força diante do poderoso e insolente norte. É quase como uma versão italiana do Barcelona. E, justamente no ano em que os sulistas conseguem recuperar espaço na Serie A (Lecce e Reggina se salvaram, enquanto Cagliari, Messina e Palermo subiram), o maior símbolo do futebol de toda essa região pode deixar de existir.
Card comemorativo ao título italiano de 1987, o primeiro da história do clube. naquela época, com Maradona, o sul pôde rivalizar com o norte em igualdade. Em 1989, o time foi campeão da Copa da Uefa e, na temporada seguinte, conquistou o segundo scudetto
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ATUALIZAÇÃO 30/07
O Tribunal de Nápoles adiou a decisão para 30 de julho, tempo que a promotoria terá para analisar mais profundamente a situação financeira do clube enquanto Luciano Gaucci tenta a aprovação da Federcalcio para o aluguel do Napoli.
Ubiratan Leal
Imagens: La Repubblica, RAI e CalcioNapoliNet