Após a vexatória participação em 2001, quando pareceu querer apenas evitar derrotas por WO e acabou eliminado por Honduras, o Brasil volta a ser visto como favorito ao título da Copa América. O principal motivo é que, como a Argentina, não está encarando a competição como aberração do calendário, mas como uma real possibilidade de conhecer ainda mais as possibilidades técnicas dos jogadores brasileiros.
Aliás, essa foi a maior virtude da convocação de Carlos Alberto Parreira. Já que não poderia contar com nomes como Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Dida e Roberto Carlos, o técnico tratou de chamar jogadores que brigam realmente por uma vaga na seleção, mesmo que seja no banco de reservas. Não é mais um grupo improvisado com nomes que nunca terão chances efetivas na seleção.
O Brasil levará 22 bons jogadores, que têm a motivação de se estabelecerem entre os convocados para as eliminatórias e, em alguns casos, se apresentarem como futuros titulares de uma equipe com alguns jogadores eternizados, como Cafu e Roberto Carlos, mas que estão envelhecendo e que podem encerrar seus ciclos na Copa de 2006.
Mas a característica dessa convocação dificulta a definição prévia dos 11 titulares. No gol, Júlio César parece ter a preferência do treinador. Apesar de ainda falhar em alguns momentos, está em boa fase e é apontado como a principal promessa brasileira para a posição (até porque Dida, Rogério Ceni e Marcos têm a mesma idade). Na lateral, Mancini merece uma oportunidade pela temporada que fez na Roma em 2004. É verdade que ele atua como meia na equipe giallorossa, mas o mesmo sempre ocorreu com Cafu e isso nunca foi visto como problema.
Bastante atenção deve receber a dupla de zaga, até porque a titular (Lúcio e Roque Júnior) está longe de ser convincente e a torcida clama pelo surgimento de bons zagueiros nessa nova geração. Juan e Luisão devem ter mais espaço e até podem começar a ganhar vaga no 11 titular dos próximos anos. Bordon até pode surpreender, mas deve ser visto como quarta opção, já que a comissão técnica parece confiar bastante no violento Cris (que, vale salientar, está suspenso pelo STJD e só joga devido a um efeito suspensivo).
Na lateral-esquerda, duas novidades. O voluntarioso Gustavo Nery ganha uma oportunidade algo tardia, mas pode surpreender por apoiar e marcar com eficiência. Inclusive, pode também atuar no meio-campo. Adriano só foi convocado pela contusão de Gilberto. É rápido e habilidoso, mas muito jovem. Deve apenas ser observado.
O meio-campo conta com um quarteto de volantes técnicos, algo raro. Edu, do Arsenal, deve ser titular, pois tem ganhado crédito com Parreira nos últimos meses. Renato poderia exercer uma função semelhante no lado direito, mas caiu de rendimento e pode ficar no banco. Dudu Cearense estava sumido no Japão, mas pode ter um lugar no time por ser o mais marcador dos meias. Kléberson tem a experiência de quem foi titular na vitoriosa campanha da Copa de 2002, mas teve uma temporada muito ruim pelo Manchester United. Até por isso foi convocado para a Copa América, como uma forma de Parreira ver de perto o que se passa com o ex-Atlético-PR.
Em teoria, Parreira arma suas equipes em um 4-4-2 que, no fundo, é um 4-2-2-2, com um meio-campo composto por dois volantes e dois meias de armação. No entanto, não se surpreenda se o Brasil entrar em campo com três volantes, um mais atrás, dois mais abertos e um armador único. É mais ou menos o esquema que tem sido utilizado por ele nas Eliminatórias.
Se for assim, esse criador é Alex. Inteligente, sabe lançar, cruzar e finalizar. E destoou da má fase do Cruzeiro no primeiro semestre de 2004. Perfeito para as necessidades da posição. Caso o técnico opte por um segundo meia, esse deve ser Diego. Ele tem a virtude de ser o único meia entre os selecionáveis (Ricardinho não está mais nesse grupo) que tem como característica o cadenciamento do jogo, centralizando a armação e trocando passes até achar uma brecha. Até por isso, experimentar o santista pode ser muito importante para as Eliminatórias, pois pode representar uma variação de jogada em um setor de criação notadamente de penetração (Kaká e Ronaldinho Gaúcho).
Com as mesmas chances de Diego está Júlio Baptista. O ex-são-paulino não arma tão bem, mas combate na intermediária, vem de trás e aparece no ataque com desenvoltura, surpreendendo as defesas adversárias. Sem contar que está em uma fase iluminada. Felipe, que passa por um período de instabilidade após o ótimo início de ano, deve ser reserva de Alex.
No ataque, a dupla preferida é Luis Fabiano e Adriano. Os dois têm as mesmas características, o que poderia rsultar em redundância tática. Mas Parreira parece buscar uma formação que absorva isso, ao escalar Luís Fabiano e Ronaldo nos jogos contra Argentina e Chile pelas Eliminatórias. É importante salientar que, nessas duas partidas, um dos centroavantes não achou espaço em campo. O que não deve mudar a opinião do técnico.
Uma opção de mudança seria a utilização de Vágner Love, mais leve e rápido e igualmente oportunista. Mas como essa é a primeira aparição do (ex-?) palmeirense na seleção, ele só será titular se a dupla Luís Fabiano-Adriano mostrar incompatibilidade definitiva. Ou seja, só a partir da segunda ou terceira partida. Ricardo Oliveira teve uma temporada de regular para boa e deve ficar no banco como opção até segunda ordem.
É possível ver como há uma certa homogeneidade na seleção brasileira, o que ajuda a compensar uma eventual falta de entrosamento e experiência. E talvez seja importante ficar atento, pois o Brasil terá um adversário perigoso na primeira fase. O Paraguai se estabilizou como terceira força da América do Sul nos últimos 8 anos. Com um jogo baseado em uma defesa extremamente constante, os guaranis dificilmente são batidos. Mesmo que o ataque tenha crônicos problemas.
Apontar os destaques paraguaios é cair em uma certa redundância. No gol, Villar mostra que não há motivos para os guaranis insistirem com Chilavert. Para protegê-lo, Gamarra continua com seu posicionamento quase perfeito no comando da zaga. No meio-campo, o experiente Paredes (Reggina-ITA) serve de referência, justamente o que falta no ataque, órfão de Roque Santa Cruz e José Saturnino Cardozo, que forma poupados.
A chave da campanha paraguaia na Copa América está não está nas estrelas, mas no resto do time. Nas Eliminatórias, a seleção albirroja peca pela elevada média de idade dos principais jogadores, como os já citados Gamarra, Paredes e Cardozo, além do lateral-direito Arce. Isso não será visto em gramados peruanos. O Paraguai vai com um misto entre a seleção principal e a olímpica, o que pode servir como ensaio de um processo de renovação, mas tem o objetivo imediato de preparar o time que disputará uma medalha em Atenas. Até o técnico foi trocado. Carlos Jara, comandante no Pré-Olímpico, cuidará a equipe na Copa América. O treinador principal, Aníbal Ruiz, ficará como observador.
Por isso, há uma série de jovens jogadores como os meias Figueredo e Edgar Barreto, o atacante Haedo e o defensor Esquivel. No Pré-Olímpico, eles ajudaram a desclassificar o Brasil. Resta saber se terão o bom desempenho entre os profissionais.
Com um Paraguai se transformando em uma pequena incógnita, seria a chance de o Chile lutar pelo segundo lugar no grupo. No entanto, la roja faz parte da lista de seleções que preferiram poupar seus principais jogadores para ter força nas Eliminatórias (onde, a bem da verdade, os chilenos estão bem). Assim, a equipe não contará com alguns jogadores que atuam fora do país, como Marcelo Salas, David Pizarro, Navia, Pinilla, Maldonado e Tapia.
A esperança chilena de uma boa campanha está nos bons jogadores que sobraram, como os meias Mirosevic, Acuña e Meléndez (todos em clubes argentinos) e a defesa composta por Fuentes, Pérez e Olarra. No ataque, la roja conta com os gols de Galaz, atacante de 28 anos com bastante destaque no campeonato local, e González, do Atlante, do México.
De resto, o Chile contará com uma série de jovens – alguns desses entre os que fracassaram no Pré-Olímpico disputado em casa – e de jogadores que atuam no país. A não ser que algo de muito surpreendente ocorra, os chilenos podem, no máximo, brigar para ficar entre os melhores terceiros colocados e ter uma vaga nas quartas-de-final. A partir daí, já fica difícil apostar na roja.
A situação chilena só não é mais complicada porque a Costa Rica também não convocou seus principais jogadores. Em princípio, isso pode parecer capricho bobo, mas a seleção principal dos centro-americanos não é de se jogar fora, com nomes de relativo destaque na Europa como Winston Parks (Udinese-ITA), Martínez (Brescia-ITA) e Wanchope (Manchester City-ING). Tanto que, na Copa de 2002, os Ticos só não se classificaram para a segunda fase porque não conseguiram transformar o domínio na partida contra a Turquia em vitória, caindo no saldo de gols.
Para se ter uma idéia, o técnico norte-americano Steve Sampson foi obrigado a convocar 21 jogadores que atuam na liga costarriquenha. Apenas o atacante Ronald Gómez atua fora do país. Está no Irapuato, do México. Assim, a base dos ticos é o Herediano, que cedeu sete jogadores. A seguir vem o Saprissa (autal campeão de clubes da Concacaf), com seis, e o Alajuelense, com cinco.
Por isso, não se deve esperar muito da Costa Rica. A seleção só costuma atuar bem em jogos importantes, fazendo campanhas discretas em outros torneios, como a Copa América ou a Copa Ouro. Atualmente, o principal objetivo dos costarriquenhos, assim como dos paraguaios, são os Jogos Olímpicos de Atenas.
Ubiratan Leal
Imagens: Terra, Fútbol Peruano, Albirroja e Univisión
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