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2/07/04

O mundo não é uma bola...

Grupo B

O técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira, declarou que a Argentina é a maior favorita ao título da Copa América. Ele se baseia no fato de os platinos irem ao Peru com sua equipe principal, ao contrário do Brasil, que está com uma espécie de time B. Foi a senha para os brasileiros (torcedores e jornalistas) repetirem isso sem refletir. Então, é importante salientar que a Argentina não está com a equipe titular, e sim, com um time misto. É suficiente para deixar os favoritos como um dos favoritos, mas não de forma tão destacada como o técnico brasileiro espertamente quis pintar (claro, tirando a responsabilidade de suas costas).

Os desfalques argentinos não são desprezíveis. A lista conta com Samuel, Riquelme, Aimar, Crespo e Cambiasso. O primeiro foi poupado a pedido de seu novo clube, o Real Madrid. Os demais estão contundidos. Sem esses jogadores nenhuma seleção da Argentina pode ser chamada de titular.

Ainda assim, a albiceleste foi ao Peru com o que de melhor restou. No gol, Cavallero e Abbondanzieri. Na defesa, Heinze, Ayala, Sorín e Zanetti. No meio-campo, Tévez, D’Alessandro e Lucho González. No ataque, Saviola, Luciano Figueroa e César Delgado. É um grupo mais que respeitável, que, se bem armado, pode disputar com dignidade qualquer torneio no mundo.

E é esse o ponto-chave da campanha Argentina: armar a equipe. O técnico Marcelo Bielsa teve de desmontar todo o time que fracassou na Copa de 2002 devido à idade dos atletas. Por isso, tenta implementar um processo de renovação. O problema é que ainda não encontrou o toque certo desse time. Ignorando os pedidos da torcida local, tem dado pouco espaço a D’Alessandro e Tévez. Também peca por não definir completamente quais os titulares. Fica evidente que “El Loco” precisa de tempo para refazer a Argentina.

A Copa América lhe dará esse tempo. Bielsa poderá treinar os jogadores por duas semanas pelo menos, período que aumentará à medida que os platinos avançarem na competição. Ou seja, dessa vez, a Argentina não fará apenas número na Copa América. Como o Brasil, o objetivo principal não é o título, mas organizar a equipe para as Eliminatórias e, se possível, descobrir algum jogador novo. Já é alguma coisa.

Porém, é bom para os argentinos que se descubra logo a formação ideal, pois está em um grupo cheio de armadilhas, provavelmente o mais forte da competição. O adversário mais complicado nessa etapa é o México. Os aztecas estão com sua equipe principal e, desde que foram convidados a participar do torneio sul-americano, em 1993, sempre passaram de fase.

A experiência é a principal virtude mexicana. O time-base é composto por jogadores conhecidos como Óscar Pérez, Rafael Márquez, Carmona, Suárez, Torrado, Pardo, Borgetti e Palencia. A maior ausência é o artilheiro Cuahtemoc Blanco, suspenso pela Conmebol por participar diretamente do tumulto após América x São Caetano, pelas oitavas-de-final da Libertadores.

Para o México, a Copa América também tem uma importância estratégica. O técnico argentino Ricardo Lavolpe (reserva de Fillol na vitoriosa campanha platina no Mundial de 1978) precisa de competições como essa para consolidar a seleção azteca. Na Copa Ouro, os brasileiros puderam ver como o México estava instável. Depois disso, a seleção da América do Norte só teve amistosos e jogos insignificantes contra Dominica pelas Eliminatórias para a Copa de 2006. Apesar de a classificação para o Mundial ser provável, os mexicanos não querem tomar os sustos de 2001, quando só garantiram a vaga na última rodada.

No torneio peruano, o ponto fraco dos aztecas será a defesa. Óscar Pérez é daqueles goleiros que adoram aparecer, mas variam defesas espetaculares com falhas absurdas. Márquez e Suárez formariam uma zaga sólida em condições normais. No entanto, já não se pode cobrar muito do segundo, com 35 anos e recordista mundial de partidas por uma seleção nacional. O primeiro, defensor do Barcelona, é cotado para integrar a seleção que os mexicanos levarão às Olimpíadas de Atenas em agosto, e pode ser poupado.

Quem pode surpreender por ir ao Peru com a equipe já montada é o Equador. Excetuando o artilheiro Kaviedes e o goleiro Cevallos, o técnico colombiano Hernán Dario Gómez convocou a equipe principal do país, a mesma que vem reagindo nas Eliminatórias sul-americanas. Não há talentos em profusão, mas o conjunto pode compensar.

Como sempre, a referência do time é o meio-campista Aguinaga. Com 35 anos, essa será a oitava Copa América do jogador da LDU Quito. Além dele, os equatorianos contam com a relativa solidez da defesa formada por De la Cruz, Ivan Hurtado, Reasco e Espinoza. Na frente, Delgado é o responsável pelos gols, enquanto que o jovem Salas, de 22 anos, pode surgir como revelação na vaga aberta por Kaviedes. Em um grupo tão forte (todas as seleções estiveram na Copa do Mundo de 2002), as chances do Equador ficam menores. No entanto, um bom resultado pode ser suficiente para classificar a seleção tricolor.

Os resultados recentes colocam o Uruguai como equipe mais fraca do grupo. Mas, por mais que parte da imprensa brasileira adore decretar o buraco total do futebol charrua, é preciso alguma cautela com a seleção que divide com a Argentina o maior número de títulos sul-americanos. Analisando as derrotas orientais para Venezuela, Peru e Colômbia nas Eliminatórias fica claro que o time está perdido. Confundiu o ofensivismo do ex-treinador Carrasco com irresponsabilidade defensiva e não se remontou moralmente, mesmo com a troca de técnico. Mas há futuro para os cisplatinos.

A Celeste Olímpica tem talentos como poucas no continente. E, mesmo com as ausências de Chevantón, Recoba, Pandiani, Guigou e o goleiro Munúa, ainda há espaço para bons jogadores como o goleiro Carini, o defensor Darío Rodríguez e os atacantes Forlán, Morales e Darío Silva. Como o competente técnico Jorge Fossati terá tempo para treinar o grupo, não é improvável que o Uruguai finalmente mostre algum jogo coletivo. Se isso ocorrer, pode buscar uma das vagas em disputa.

Ubiratan Leal

Imagens: Terra, El Salvador.com, ESPN Deportes e BBC Sport

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