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« Copa América 2004 | Página inicial | Grupo B »

2/07/04

O mundo não é uma bola...

Grupo A

Como a Copa América não é prioridade de quase nenhuma equipe sul-americana, o país-sede sempre deve estar na lista de candidatos ao título. Até porque é o único que joga com real vontade de vencer. No caso do Peru, esse favoritismo é acentuado ainda mais na primeira fase, pois o sorteio lhe foi extremamente favorável e o governo local – como já fizera o colombiano nem 2001 – quer capitalizar politicamente com o torneio.

Ainda assim, em campo o Peru tem suas qualidades. A dupla de ataque é extremamente perigosa, com o rápido Mendoza, do Brugges, da Bélgica, e o oportunista Pizarro do Bayern de Munique. Ambos serão alimentados pelos inteligentes Solano (do Aston Villa, da Inglaterra) e Palacios (Monarcas Morelia, do México). Na defesa, o Peru é um time apenas regular, com goleiros não muito confiáveis e zagueiros medianos em comparação com a média sul-americana.

O problema está na instabilidade das estrelas da equipe, o que se reflete no resto do time. Os resultados nas Eliminatórias são sintomáticos, com um empate contra o Brasil em Lima (1x1) e derrota, também em casa, para a Colômbia (0x2). Tanto que a posição dos incas no qualificatório para o Mundial não é das melhores.

De qualquer forma, o técnico brasileiro Paulo Autuori tem seus méritos. Por menos confiável que seja a seleção peruana, há um padrão de jogo. A ponto de os peruanos mais exaltados dizerem que essa é a melhor seleção do país desde o fim da geração de Teófilo Cubillas, Miflin e Chumpitaz na década de 1970.

Pode ser exagero, mas pode fazer sentido, pois o Peru pouco fez depois de 1982, quando disputou sua última Copa do Mundo. Desde então, o maior orgulho dos incas foi a conquista da Copa Sul-Americana de 2003 pelo Cienciano. Com uma equipe discreta e sem estrelas, os imperiais passaram por Santos, Atlético Nacional de Medellín (Colômbia) e River Plate para levar o primeiro título continental de clubes para o país. Por isso, a torcida usa o feito do clube de Cuzco como espelho, um sinal de que o futebol do Peru pode bater as potências do continente e repetir o título de 1939 e 1975.

Apontar a segunda seleção mais forte do grupo é algo arriscado. De qualquer forma, abusando um pouco da ousadia, é possível considerar a Venezuela como principal candidata à segunda vaga automática. Além de atuar com a sua formação principal, os vinotintos têm um retrospecto recente extremamente positivo contra seus adversários diretos, sobretudo a vizinha Colômbia.

Individualmente, os principais destaques venezuelanos estão no ataque, com Rondón, recém-contratado pelo São Paulo, e Massimo Margiotta, do Vicenza, que disputou os Jogos Olímpicos de Sydney pela Itália, mas decidiu defender a seleção do país onde nasceu entre os profissionais. Mas as investidas venezuelanas costumam contar com a ajuda dos meias Urdaneta e Arango, apelidado de Arangol pela torcida vinotino.

No meio-campo, o jogo se concentra com Mea Vitali, revelação do Caracas e capitão da seleção pré-olímpica. Na defesa, atenção com o goleiro Angelucci, ex-San Lorenzo da Argentina, e o miolo de zaga com Cichero, do Nacional de Montevidéu, e Hernández, do Dundee, da Escócia.

Ainda assim, a maior qualidade da Venezuela é o conjunto. A equipe joga de forma compacta, com marcação eficiente e constante troca de passes. Nada que exceda no brilhantismo, mas é suficiente para compor um time que sabe se aproveitar das falhas do adversário. Uma prova disso foi a goleada sobre o Uruguai (3x0) no estádio Centenário, pelas Eliminatórias.

E é importante salientar que tal conjunto, ao contrário do que muitos têm dito precipitadamente, pouco tem a ver com o fato de quase todos os venezuelanos atuarem juntos, na liga local. Até porque há muito de mito nessa afirmação. Dos 22 convocados pelo treinador Richard Paez, oito atuam no exterior, em países como Escócia, Itália, México, Uruguai e Suíça. Dos 14 restantes, os clubes que podem se considerar “base” da seleção venezuelana são Caracas e Universidad de Maracaibo, com cinco convocados cada. Parece bastante, mas a maior parte desses 10 atletas deverá ficar no banco.

Como já dito, apostar na Venezuela têm um grau relativamente alto de ousadia, pela falta de tradição do país e pela evolução vinotinto ainda ser um fenômeno recente e não completamente consolidado. Por isso, é recomendado aos mais conservadores uma aposta na Colômbia.

Pode soar estranho falar isso, mas a Colômbia é a atual campeã sul-americana. É verdade que a Copa América de 2001 foi esvaziada, mas os colombianos venceram sem sofrer um gol sequer, um feito digno de nota. O problema é que o título não encobriu a decadência da seleção do país, em evidente processo de renovação.

Isso pode ser sentido nas Eliminatórias, em que os colombianos começaram de forma patética, mas já reagiram e se aproximam da zona de classificação. A chave da mudança foi a saída do técnico Francisco Maturana, substituído por Reinaldo Rueda. Mais pragmático, Rueda foi capaz de organizar melhor a equipe coletivamente, aproveitando o surgimento de uma promissora geração, que levou três clubes do país às quartas-de-final da Libertadores de 2003 e o Once Caldas ao título continental em 2004.

Mas, para evitar o que ocorreu em 2001, quando foi campeã da Copa América, mas não conseguiu sua vaga à Copa do Mundo de 2002, a Colômbia mudou suas prioridades. Ao invés de colocar seus principais jogadores em gramados peruanos, Rueda peferiu poupar estrelas como Ángel (Aston Villa), Iván Córdoba e Yepes. Assim, terá de contar com o extravagante goleiro Henao, o zagueiro Perea, o meia Patiño e o atacante Herrera.

Em princípio (após tantas surpresas nessa temporada, nada pode ser colocado como definitivo), equipe mais fraca do grupo é a Bolívia. Os andinos estão com sérias dificuldades para renovar a geração que levou o país à Copa de 94 e parecem só conseguir algo quando jogam na altitude. E nem isso pode ser visto como verdade absoluta, pois La Máquina Verde já perdeu em casa do Chile, feito inédito na história desse clássico cheio de rivalidade histórica.

Para piorar a situação boliviana, o time terá os desfalques do lateral Gatti (contusão) e do prolífico atacante Castillo (suspenso por doping). A esperança fica nos gols de Botero e em que algo muito fora do comum ocorra. Como o grupo não é dos mais fortes, até dá para imaginar a Bolívia nas quartas-de-final. Algo além disso seria mais uma das zebras de 2004.

Ubiratan Leal

Imagens: Futbol Peruano, La Vinotinto e Bolivia.com

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