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30/07/04

O mundo não é uma bola...

Eurocopa x Copa América

Grecia_Charisteas.jpg Brasil 2x2 Argentina 2004.jpg

Pela primeira vez na história, os dois principais torneios continentais de seleções foram disputados no mesmo ano. Na verdade, a Copa Africana de Nações, a Copa da Ásia e a Copa da Oceania também tiveram edições em 2004, o que fez da Concacaf a única região do globo que não colocou seus países para medir forças. Mas o interessante de tudo isso foi fazer a comparação entre a competição européia e sua equivalente sul-americana. E isso pode levar a caminhos interessantes.

A análise fugirá de alguns aspectos extracampo. Por exemplo, é desnecessário comparar a organização, condições e beleza dos estádios, riqueza do evento e presença de torcida dos dois torneios. É óbvio que há uma diferença constrangedora. E vale dizer que é superficial achar que isso se deve apenas à maior riqueza da Europa. Como se os equívocos crônicos da Conmebol não tivessem responsabilidade alguma nesse cenário.

Mas a proposta desse texto é falar de futebol jogado. Para sorte dos torcedores, ambas tiveram um bom nível técnico dentro de seus padrões. A Euro 2004 bateu de longe, por exemplo, a fraca edição de 1996, na Inglaterra. Já a Copa América do Peru foi a melhor em muito tempo. Provavelmente desde 1989, quando todos os países levaram o torneio a sério e craques como Maradona, Romário e Francescoli deram as caras. Nesse caso vale lembrar a edição de 1993, no Equador.

Na comparação entre os continentes, a competição do Velho Mundo está bastante à frente. O nível de competitividade é maior, com pelo menos dez seleções fortes – e outras quatro medianas – usando formação principal (salvo contusões, óbvio). Também ficou claro como a organização tática está longe de ser sinônimo de retranca ou defensivismo, como defendem ingênua e preconceituosamente parte dos jornalistas esportivos brasileiros (e que o título grego não seja visto como símbolo da Eurocopa, porque o torneio foi muito além da equipe de Otto Rehhagel).

Holanda 2x3 Rep Tcheca 2004.jpg

A qualidade global de partidas como República Tcheca x Holanda (foto), Portugal x Inglaterra e Dinamarca x Suécia foi inegável. Jogos abertos, com as equipes no máximo de suas capacidades, criando diversas chances e decidindo o resultado nos minutos finais. Mostra de como a Eurocopa é o que há de mais parecido com a Copa do Mundo.

Porém, jogar a Copa América às traças é um equívoco enorme. Dos (poucos) europeus que se dispuseram a acompanhar pela TV a competição dos sul-americanos, não foram raros comentários elogiosos à técnica e à habilidade dos jogadores, mesmo em seleções improváveis como Bolívia, Peru e Colômbia. A falta de ordenamento tático, algo que fica muito claro na comparação direta das duas competições, abre espaço para uma parte mais lúdica do futebol. Algo que, isoladamente, pode ser menos útil em competições de altíssimo nível, mas ajuda a embelezar partidas e criar algum encantamento.

Além disso, o fato de uma equipe tecnicamente pouco dotada ter conquistado a Europa deu a sensação de que algumas equipes sul-americanas, se bem montadas, disciplinadas taticamente e determinadas a se doar em campo, poderiam ter vida longa no torneio europeu. É difícil saber até que ponto é verdade, pois são realidades diferentes. Mas a Grécia não é tecnicamente superior às seleções principais de Paraguai, Colômbia, Uruguai e até Chile (citar Brasil e Argentina é tolice de tão clara a diferença).

Argentina 3x1 Peru 2004.jpg

Inclusive, uma final entre Brasil e Argentina pode ser vista como aspecto positivo para os sul-americanos. Foi um sinal de como, apesar de algumas surpresas, adversários aguerridos e torcida contra (no caso do Argentina x Peru, foto), os grandes da América do Sul são supremos. Não é de hoje que cresce na Europa a sensação de que Brasil e Argentina se destacam cada vez mais dos outros países no ponto de vista técnico. E o fato de sobreviverem a seleções medianas em um torneio local (coisa que os grandes europeus não conseguiram) mostra como as principais nações futebolísticas da América do Sul estão mais sólidas que suas rivais do Velho Mundo.

E, analisando por esse lado, vê-se como há um parâmetro possível de comparação do nível técnico das duas competições. Assim, em 2004 foi possível perceber que a Eurocopa dificilmente será superada, pois as Américas não têm condições de montar um campeonato com 16 seleções de bom nível. Falar o contrário é não querer ver a realidade. Mas o torneio principal dos sul-americanos está longe de ser falido e fadado ao desaparecimento. É uma belíssima competição que deve e merece ser respeitada. Principalmente por seus organizadores.

*

Se serve de alento ao futuro da Copa América, a Conmebol já acenou com uma mudança de planos em relação à periodicidade. A idéia inicial era organizar a próxima edição do torneio em 2007, na Venezuela, e, a partir daí voltar a organizar a competição a cada dois anos. Agora, já se fala em, após 2007, realizar o torneio a cada 4 anos. Assim, a Copa América seguinte seria a de 2011, possivelmente no Brasil (que aproveitaria para testar a estrutura que estaria em preparação para a Copa de 2014). É a periodicidade ideal e o ano (um depois do Mundial) mais indicado. É óbvio que não se pode organizar o torneio em ano de Copa do Mundo. Em ano olímpico é arriscado, pois muitos países sul-americanos se dedicam bastante à busca pelo ouro. E, um ano antes das Copa é ruim por coincidir com as rodadas finais das Eliminatórias. A Copa América se tornaria secundária. Como foi a de 2001.

Ubiratan Leal

Imagens: BBC Sport (Euro) e Carlo Mariselli/Peru.com (Copa América)

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