Do antigo estádio de Wembley, restou apenas o nome. Nem as torres gêmeas da entrada do estádio-templo sobreviveram. Por isso, foi necessária muita tecnologia, criatividade e coragem, para convencer os ingleses de que era preciso derrubar o maior símbolo do futebol inglês. Assim, os idealizadores do projeto estão construindo um novo marco no noroeste de Londres, uma edificação com 1 km de circunferência e um arco de 133 m de altura e cujo custo deve passar os R$ 4 bilhões.
O valor parece alto, mas é importante dizer que a preservação das torres, por exemplo, custaria £ 10 milhões (algo em torno de R$ 56 milhões). A solução encontrada foi criar algo que impressionasse: um arco suspenso que funcionasse como novo símbolo do estádio. E seus números impressionam: a estrutura pesa 1,6 t, tem uma extensão de 325 m, 7,4 m de diâmetro e 133 m de altura (100 m mais que as torres). Tão alto que a London Eye (famosa roda gigante da capital britânica) se encaixaria entre o arco e o gramado. Tão largo que um trem do Eurotunnel cabe dentro dele. Tão imponente que poderá ser visto do centro da cidade. “Era preciso desenvolver algo que nunca tivesse sido feito antes”, conta Barry Lowe, da HOK, empresa responsável pela reconstrução de Wembley e especialista em estádios – é dela obras como o Millenium, em Cardiff, o Colonial, em Melbourne, e o Australia, em Sydney.
Mas a função do arco não é apenas impressionar. Serve, também, como ponto-chave da estrutura da cobertura, que pesa 7 mil t. Assim, irá suportar, por meio de uma rede de cabos, todo o peso do lado norte da cobertura e 60% do peso do lado sul. Um anel duplo sobre as últimas arquibancadas irá ancorar os cabos de sustentação e transmitir as cargas horizontais para as tesouras da cobertura fixa. A 52 m do campo, o teto tem mais de 44 mil m², com 16 mil m² retráteis. Há pontos de abertura nos lados este, sul e oeste, que permitem que o todo o gramado receba luz solar. Quando necessário, poderá ser fechado em uma operação de leva cerca de 15 minutos.
Além disso, o arco permitirá nada obstrua a visão dos espectadores. Parece bobagem, mas esse era o grande problema do velho Wembley, famoso pelos pilares de sustentação da cobertura que prejudicavam a vista para o gramado.

Com 1 km de circunferência, o estádio terá 90 mil lugares (70 mil para eventos de atletismo), com a vantagem de aumentar o conforto do espectador – os assentos serão 30% mais largos. O prédio avança 30 m para o norte, ficando mais perto da estação de metrô, a Wembley Park Station (que, aliás, deverá ser ampliada). A preocupação com o bem-estar dos torcedores também é refletida nos serviços do estádio: estima-se que o tempo de espera nos pontos de venda de comidas e bebidas não ultrapasse seis minutos. E, segundo os empreendedores, não há, no mundo, um edifício com mais banheiros: 2,6 mil.
Para garantir a antiga atmosfera, foram mapeadas acusticamente várias regiões, por meio de gravações feitas em 1999 e 2000. A promessa é que se tenha a mesma sensação do barulho das torcidas.
As obras
O trabalho de demolição começou em setembro de 2002 e a expectativa é que tudo esteja pronto até o início de 2006. Construir o novo estádio irá consumir 90 mil m³ de concreto, 23 mil t de aço e £ 757 milhões (cerca de R$ 4,2 bilhões).
O grande esqueleto será totalmente metálico. “Além de ser tradicional na Inglaterra, esse tipo de material permite rapidez de execução. Escolher concreto, por exemplo, significaria ter fundações 30% maiores”, conta Lowe. Para as fundações, foram utilizadas 3,7 mil estacas com profundidade de até 35 m. Na fundação da base oeste do arco, mais um número impressionante: 4,8 mil m3 de concreto lançados em 19 horas.
Mas, claro, nada foi tão difícil de construir quanto o arco. Totalmente montado no solo, no lado sul do futuro gramado, a estrutura foi erguida aos poucos para que, em cada etapa, fossem medidos os esforços na fundação. Durante a obra, foi colocado na verical para permitir os trabalhos no lado sul do estádio e a colocação da cobertura. Só depois ocupou seu posicionamento definitivo, a 68º do solo.

Ilustração em perspectiva do futuro estádio de Wembley e desenho que compara as dimensões do novo (em azul claro) e do velho (em azul escuro) estádio
Bianca Antunes
Imagens: Bianca Antunes (obras), BBC Sport (perspectiva) e Sport Venue Technology (ilustração estádios antigo e novo sobrepostos)