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14/06/04
O mundo não é uma bola...
Grupo C
Pelo menos em princípio, o grupo C é o único da Eurocopa com uma seleção se destacando em relação às demais. E esse quadro só não é mais claro porque essa equipe é a sempre instável Itália. Fazendo a rápida e pouco eficaz análise com base apenas nos nomes, a azzurra só encontra rival à altura na vizinha França. Mesmo sem ter um Zidane, os italianos têm jogadores de qualidade em todos os setores do campo, o que torna a seleção de ponta mais homogênea na distribuição de talentos no mundo (incluindo o Brasil).
Hoje, o melhor jogador italiano é Totti. Armando, finalizando, orientando e o que mais estivesse ao se alcance, o meia-atacante conduziu a Roma ao vice-campeonato no duríssimo Campeonato Italiano. Em grande fase, assumiu a responsabilidade de ser o elo final na ligação entre meio-campo e ataque. Pela sua qualidade técnica e posicionamento estratégico no esquema tático, dificilmente a Itália fará uma grande campanha se Totti estiver mal.
Para sorte do romanista, seu trabalho ofensivo não deve ser solitário. A Itália conta com uma dupla de ataque experiente e de grande eficiência. Vieri faz o estilo menos técnico, mas está longe de ser desprovido de alguma habilidade, é oportunista e serve de referência às investidas italianas. Del Piero, que surgiu como grande esperança da Itália no fim da década passada, se movimenta mais, podendo se juntar a Totti na armação.
No entanto, nenhum dos dois está em fase muito boa. O interista Vieri teve um final de temporada atribulado, repleto de atritos com o técnico Alberto Zaccheroni e a própria torcida nerazzurra. O juventino Del Piero, como se tornou comum em sua carreira, teve problemas com contusões. Pelo menos o banco italiano é bom, com o jovem Cassano e o correto Corradi. Seria melhor se contasse com Filippo Inzaghi, que, mesmo voltando de contusão, é capaz de incendiar uma partida com sua capacidade técnica e voluntariedade.
Como é tradição, a maior virtude da Itália é a solidez do setor defensivo. Com a queda de rendimento do alemão Kahn na última temporada, Buffon assumiu para muitos o posto de melhor goleiro do mundo. E, se o juventino tiver algum problema, Toldo é um excelente substituto. Foi exatamente o que aconteceu na Euro 2000, quando o goleiro da Internazionale acabou como o grande responsável pela classificação italiana na semifinal contra a Holanda. O miolo de zaga formado por Cannavaro e Nesta está entre os melhores do mundo. Panucci pela direita e Zambrotta pela esquerda devem completar a defensiva.
Apesar de ter bons jogadores, o meio-campo italiano destoa um pouco. Há vários candidatos a posições nesse setor, mas nenhum ainda pode ser considerado acima da média. O que mais poderia se aproximar disso é Pirlo, especialista em lançamentos e na descoberta de espaços na defesa adversária. O problema é que o milanista não é a primeira escolha do técnico Giovanni Trapattoni, que prefere bons, mas apenas bons, atletas como Fiore e o argentino naturalizado Camoranesi para levar a bola a Totti.
Um pouco mais atrás, no combate, Gattuso seria uma boa escolha. O milanista compensa a falta de técnica com muita voluntariedade, tanto que foi importante no título italiano de seu clube na última temporada. Porém, Gattuso também deve ficar no banco, preterido por Cristiano Zanetti e Perrotta. Na realidade, Trapattoni sempre variou muito no meio-campo, o que dificulta a indicação de titulares absolutos nessas posições.
Em campo, a Itália tem tudo para se garantir. O problema é fora. Trapattoni não é ousado e, muitas vezes, subaproveita os talentos ofensivos da azzurra. É um time que muitas vezes parece deslocado na festa, sem se soltar. E não são poucas as vezes em que a seleção italiana peca por isso.
E a azzurra realmente tem de tomar cuidado. A Suécia não é reconhecida e raramente aparece na lista de boas equipes dessa edição da Euro, mas está com um time muito bem montado há anos. Tanto que fez uma respeitável campanha na Copa 2002 – foi primeira em um grupo com Inglaterra, Argentina e Nigéria, só caindo para Senegal na prorrogação em um jogo espetacular – e nas Eliminatórias – a ponto de ser indicada como cabeça-de-chave da competição, às custas de Itália, Inglaterra, Alemanha, Holanda e Espanha.
O maior mérito da Suécia é reunir jogadores de algum talento com outros de boa capacidade de trabalhar em conjunto. O resultado é um time consistente, que às vezes exagera na falta de ousadia, mas não pode ser desprezado. Até porque os melhores jogadores estão no ataque, que não precisa de uma avalanche de oportunidades para decidir uma partida.
O principal destaque é Fredrik Ljungberg. O meia-esquerda do Arsenal pode tanto correr em direção à ponta para cruzar como fechar pelo meio e concluir. Rápido e técnico, é um dos responsáveis por puxar perigosos contra-ataques. Ficou algo apagado na última temporada devido a uma grave contusão, já sanada.
Tão letal quanto Ljungberg é a dupla de ataque, formada pelos oportunistas Henrik Larsson e Zlatan Ibrahimovic. Larsson entrou na história do Celtic – o que os brasileiros podem considerar algo banal, mas não é – após liderar a artilharia da equipe por várias temporadas. Sua presença é surpreendente, pois ele havia se aposentado da seleção em 2002. Filho de imigrantes iugoslavos, Ibrahimovic é a maior promessa do futebol sueco. Alto, habilidoso, oportunista e jovem (22 anos), o atacante do Ajax é desejado por alguns dos principais clubes do continente.
Nas demais posições, destacam-se os defensores Mellberg e Michael Svensson, o líbero Mjallby e o armador Anders Svensson (apesar de ter mesmo sobrenome e de atuar no mesmo time, o Southampton, não é parente de Michael).
A Suécia tem plenas condições de ficar em primeiro lugar no grupo, à frente da Itália. A partir daí, o avanço dependerá muito dos adversários que enfrentar. Se passar de fase, deve enfrentar nas quartas-de-final um entre Alemanha, República Tcheca e Holanda, seleções mais fortes, porém acessíveis, aos auri-azuis.
A sorte dos suecos também dependerá da campanha de um rival tradicional, a Dinamarca. Sem o estardalhaço criado na Copa de 1986, a atual seleção dinamarquesa é experiente, pois atuou em todas as grandes competições – Copa do mundo e Eurocopa – desde 1996 e tem jogadores espalhados pelas principais ligas da Europa, principalmente Inglaterra e Itália.
No gol, Sorensen merece a confiança de quem vem de uma ótima temporada pelo Aston Villa, da Inglaterra. A defesa pode ser considerada o ponto fraco da equipe. Helveg fa sua parte pela direita, mas o miolo conta com o descendente veterano Henrikssen e o bom, mas sem ritmo de jogo, Laursen, reserva no Milan.
No meio-campo, a Dinamarca apresenta uma série de opções viáveis, como Gravesen, do Everton, Claus Jensen, do Charlton, Gronkjær, do Chelsea, Jorgensen, da Udinese e Rommedahl, do PSV Eindhoven. No ataque, o milanista Tomasson é titular quase certo, ajudando na armação e finalizando. O oportunista Sand deve formar a dupla de frente, mesmo depois de duas temporadas fracas em seu clube, o Schalke 04. As perspectivas para a Dinamarca são semelhantes às da Suécia, apenas um pouco abaixo pela falta de um talento como Ibrahimovic ou Ljungberg.
Com um adversário entre os favoritos e outros dois com força suficiente para levar perigo a qualquer oponente, sobrou pouco a fazer para a Bulgária. A própria presença búlgara nessa Eurocopa é surpreendente, pois o país passou por um intenso processo de renovação. E, como a nova geração não tem jogadores como Stoitchkov, Kostadinov, Letchkov e Balakov...
Para se ter uma idéia, apenas dois jogadores dessa seleção búlgara atuam em importantes – não necessariamente grandes – clubes europeus: Berbatov, atacante do Bayer Leverkusen da Alemanha, e Petrov, meia do Celtic da Escócia. O goleiro Zdravkov, do Litex Lovech, poderia se juntar a esse grupo, mas sua passagem pelo Arsenal merece poucas lembranças. O restante do elenco é formado por atletas em clubes secundários do continente – como Fenerbahçe (Turquia), AEK (Grécia), Dynamo Kyiv (Ucrânia) e Kaiserslautern (Alemanha) – e revelações que ainda não saíram do futebol búlgaro.
A maior esperança da Bulgária é confiar que esse fato se deva mais à juventude de muitos jogadores do que à falta de qualidade. Se isso se confirmar, os eslavos podem surpreender, como fizeram com Croácia e Bélgica nas Eliminatórias. É pouco provável.
Ubiratan Leal
Imagens: CNN, Ajax, Uefa e Futbol-Mania
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