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« Inglaterra 1996 | Página inicial | Eurocopa 2004 »

8/06/04

Histórias

Bélgica/Holanda 2000

Eurocopa 2000_logo.jpg

Fala-se muito da experiência incomum de sul-coreanos e japoneses, que dividiram a organização da Copa de 2002, mas aquela não foi o primeiro caso de duas sedes para um evento. Antes disso, belgas e holandeses sediaram em conjunto a Euro 2000. Ao contrário dos orientais, forçados por uma concorrência acirrada, os vizinhos europeus escolherem a co-organização. Seriam os primeiros no mundo a fazê-lo se a Copa Africana das Nações de 2000 (realizada em janeiro) não tivesse ocorrido em Gana e Nigéria.

A única alteração sensível no regulamento se referia às Elminatórias. Com o aumento de seleções (Iugoslávia de volta, além do ingresso de Andorra e Bósnia-Herzegovina) e dois pré-classificados como sede, a repescagem não abrigou os dois piores segundos colocados, como ocorrera em 1996, mas os oito piores segundos (ou seja, apenas o melhor passou automaticamente).

A fase de apuramento não foi desprovida de surpresas, mas nada assustador demais, como o avanço de Luxemburgo em 1964 ou a classificação da Letônia em 2004. No Grupo 1, a Itália teve dificuldades, mas passou por Suíça e Dinamarca. No 2, a Noruega disparou, deixando Eslovênia, Grécia e Letônia brigando por uma vaga na repescagem. No 3, Alemanha e Turquia dominaram. Como os turcos perderam pontos bobos contra equipes mais fracas (Finlândia e Moldova), vantagem para os alemães. Na chave 5, a Suécia foi muito melhor que os demais. Até a Inglaterra ficou para trás, contando com o desempate em confronto direto para tirar a Polônia da repescagem. No Grupo 7, Romênia e Portugal se isolaram na frente, tanto que Portugal conseguiu a classificação automática como melhor segundo colocado. No 8, a Iugoslávia segurou um empate na Croácia na última rodada e garantiu uma difícil primeira posição. No 9, a República Tcheca teve um aproveitamento de 100%.

Dois grupos merecem destaque à parte. O 4 viu a disputa mais equilibrada. Apesar de ser a campeã do mundo, a França não conseguiu se livrar de Rússia Ucrânia e Islândia, levando a decisão para a última rodada. A Ucrânia de Shevchenko, Rebrov e Kaladze liderava com 19 pontos. Rússia e França vinham logo atrás, com 18, e a Islândia alimentava alguma esperança com 15. E tudo seria decidido em confrontos diretos, com Rússia x Ucrânia em Moscou e França x Islândia em Saint-Denis.

Franca 3x2 Islandia 1999.jpg

Os primeiros gols foram da França, que abriu 2 x 0 e assegurava sua classificação já no intervalo. No entanto, a Islândia reagiu no início do segundo tempo e empatou em 11 minutos. Com o persistente 0 x 0 em Moscou, Ucrânia se classificava e a Rússia iria à repescagem, deixando os campeões mundiais de fora. No entanto, a 19 minutos do fim, Trezeguet fez o terceiro gol francês. Mesmo com a vitória, os gauleses ainda dependiam do resultado de Moscou para evitar a repescagem. Aos 31 minutos do segundo tempo, Karpin pôs a Rússia na frente e mandava a França para o mata-mata. Até que, aos 42, Shevchenko empatou para os ucranianos, garantindo um lugar na repescagem. O primeiro lugar do grupo ficou com os bleus.

Uma história diferente foi a do Grupo 6, que ficou marcado pela recuperação de confiança da Espanha. Na estréia, ainda abalada pela eliminação na primeira fase da Copa de 1998, os espanhóis perderam para Chipre por 3 x 2. O resultado absurdo escancarou a crise na seleção e resultou na demissão do treinador Javier Clemente. A recuperação foi imediata e até desproporcional. Na segunda partida, uma vitória fundamental em Israel, 2 x 1. A seguir, o que seria um bom teste contra a Áustria se transformou em um massacre histórico. Com quatro gols de Raúl os ibéricos ganharam por assustadores 9 x 0. E veio mais depois: 6 x 0 e 9 x 0 em San Marino e 8 x 0 no Chipre. O segundo lugar no grupo ficou entre israelenses e cipriotas. A vitória da Áustria sobre Chipre na última jornada deu o segundo lugar a Israel.

Na repescagem, o maior destaque foi o clássico entre Inglaterra e Escócia. Em Glasgow, os ingleses venceram por 2 x 0 e praticamente se garantiram. No entanto, a Escócia saiu na frente em Londres e assustou. De qualquer forma, a Inglaterra soube segurar o 0 x 1 e ganhar a eliminatória. Nos outros mata-mata, a Eslovênia passou pela favorita Ucrânia, a Dinamarca arrasou Israel e a Turquia desclassifico a Irlanda nos gols marcados fora de casa.

Ao contrário do que ocorreu na Copa de 2002, a Euro 2000 não foi dividida ao meio entre Bélgica e Holanda. Todos os grupos tiveram três partidas em cada país, obrigando os torcedores-turistas a se deslocarem bastante e, claro, gastarem mais dinheiro com passeios e transporte.

O Grupo A, com Alemanha, Inglaterra, Portugal e Romênia, era considerado o mais forte. Acabou como o mais surpreendente. Na primeira rodada, Romênia e Alemanha protagonizaram um morno 1 x 1. Mas as emoções estavam concentradas em Eindhoven, onde os portugueses venceram a Inglaterra por 3 x 2 após estarem perdendo por 2 x 0.

Romenia 3x2 Inglaterra 2000.jpg

Portugal continuou bem e bateu a Romênia por 1x0, mesmo placar da vitória da Inglaterra sobre a Alemanha. Com a vaga garantida, os lusitanos escalaram nove reservas contra os germânicos, que ainda alimentavam algumas esperanças. Mas, com uma atuação desastrosa de toda equipe, principalmente do goleiro Kahn, os reservas de Portugal venceram por 3 x 0, todos os gols de Sérgio Conceição. A segunda vaga era decidida no Inglaterra x Romênia de Charleroi. Os romenos saíram na frente com Chivu, mas Shearer e Owen viraram para os britânicos, que dependiam apenas do empate. Munteanu empatou no início do segundo tempo, mas a vitória da Romênia só chegou no penúltimo minuto, em um pênalti covertido por Ganea (foto).

Mais equilibrado foi o Grupo C, com Espanha, Iugoslávia, Noruega e Eslovênia. Na abertura, a Noruega bateu a Espanha por 1 x 0. Logo depois, Eslovênia e Iugoslávia protagonizaram um encontro... digamos... nonsense. A 25 minutos do fim do jogo, a Eslovênia tinha um jogador a mais em campo e vencia por tranqüilos 3 x 0. Mas, ainda assim, permitiu que os rivais iugoslavos empatassem no desespero.

Na segunda rodada, tudo voltou ao normal, com vitória da Espanha sobre a Eslovênia (2 x 1) e da Iugoslávia sobre a Noruega (1 x 0). Mas ainda havia uma rodada. Noruega e Eslovênia fizeram um monótono 0 x 0. Enquanto isso, em Bruges, Espanha e Iugoslávia faziam os gols que faltavam em Arnhem. Os iugoslavos ficaram em vantagem por 1 x 0, 2 x 1 e 3 x 2. Com o persistente empate entre noruegueses e eslovenos, apenas uma vitória classificaria a Espanha. E ela veio o sufoco. Aos 45 do segundo tempo, Mendieta empatou de pênalti. Aos 48, Alfonso fez o 4 x 3 para os ibéricos. As duas seleções se classificaram.

Nas outras duas chaves nada de anormal. A Itália dominou completamente o grupo B, enquanto que os turcos mostravam melhor futebol que suecos e belgas e se classificavam para a surpresa de muitos. No D, Holanda e França não deram chances a República Tcheca e Dinamarca. Na partida final, os franceses atuaram com uma equipe cheia de reservas e perderam para os laranjas por 3 x 2.

Nas quartas-de-final, Portugal confirmou o favoritismo e acabou com a surpresa turca, 2 x 0. O mesmo fez a Itália contra a Romênia, também 2 x 0. Em Bruges, a França teve problemas com a Espanha. A vitória gaulesa por 2 x 1 só foi viável após Raúl perder um pênalti no final do jogo. Por fim, a Holanda fez uma de suas melhores partidas e pulverizou a Iugoslávia por 6 x 1. Isso porque o gol eslavo foi marcado nos descontos.

As duas semifinais podem entrar para a história. Portugal e França reeditaram o encontro da Euro 84. Nuno Gomes colocou os ibéricos na frente, mas Henry empatou no segundo tempo. O jogo caminhava para a disputa de pênalti até que, aos 12 do segundo tempo da prorrogação, em uma confusão na área lusitana,o árbitro Gunter Benkö, da Áustria, deu toque de mão de Abel Xavier. Zidane converteu e deu a vitória aos franceses.

Na outra partida, a Itália conseguiu uma das mais improváveis vitórias da Eurocopa. Não pelos times, pois a azzurra se equivalia tecnicamente à Holanda. Mas pelas circunstâncias. Os italianos jogaram mais da metade da partida com u jogador a menos, pois Zambrotta foi expulso aos 33 minutos do primeiro tempo. A situação ficou ainda mais delicada quando os laranjas tiveram um pênalti a seu favor. Toldo defendeu o chute de Frank de Boer. O segundo tempo, novo pênalti para a Holanda. Dessa vez, Kluivert conseguiu tirar o goleiro italiano da bola, mas acertou a trave. Após muita pressão na prorrogação, a decisão foi para os pênaltis. Com mais duas defesas de Toldo, a Itália, que caíra nas Copas de 1990, 94 e 98 nessa forma de desempate, garantiu o lugar na final.

Franca 2 x 1 Italia 2000.jpg

O duelo entre Itália e França começou equilibrado, com os italianos se defendendo com segurança e partindo para contra-ataques. Foi assim que Delvecchio colocou a azzurra na frente, aos 12 do segundo tempo. A pressão francesa aumentou a partir desse momento, mas as melhores chances eram da Itália, em avanços puxados por Del Piero. Quando parecia que os gauleses não conseguiriam furar a bem armada defesa italiana, Wiltord recebeu livre pela esquerda e tocou no canto de Toldo. Era o empate da França já nos descontos. Na prorrogação, a França ganhou confiança e partiu para o título ainda na morte súbita. Aos 13 minutos do primeiro tempo do prolongamento, Pires avançou pela esquerda e cruzou rasteiro para o chute de primeira, definitivo de Trezeguet.

FICHA TÉCNICA
França 2 x 1 Itália
Final da Eurocopa 2000
Local:
estádio de Kuip (Roterdã-HOL)
Público: 48.200
Árbitro: Anders Frisk (Suécia)
França: Barthez; Thuram, Blanc, Desailly e Lizarazu (Pires); Vieira, Deschamps, Djorkaeff (Trezeguet) e Zidane; Dugarry (Wiltord) e Henry
Itália: Toldo; Cannavaro, Nesta, Iuliano e Maldini; Pessotto, Albertini, Di Biagio (Ambrosini), Totti e Fiore (Del Piero); Delvecchio (Montella)
Gols: Delvecchio (12/2º), Wiltord (46/2º) e Trezeguet (13/1º da prorrogação)

Ubiratan Leal

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