Um mês depois de o Brasil bater a Argentina por 3x1 nas Eliminatórias para a Copa de 2002, o jornalista Paul Gardner, inglês radicado nos Estados Unidos que assina uma coluna na revista World Soccer, falou sobre sua experiência de ver aquela partida em um bar de latinos. E ele dizia como, naquele momento, percebeu que Brasil x Argentina é o maior clássico entre seleções no futebol mundial. Nem Alemanha x Itália ou Inglaterra x Escócia se igualariam.
Infelizmente, o exemplar da revista se perdeu nos arquivos de um dos que assinam o texto e a explicação detalhada da argumentação de Gardner fica para depois. Mas, basicamente, ele afirmava que nenhum jogo carrega tanto do orgulho nacional de dois países quanto esse. Seriam dois países que resumiriam suas rivalidades ao futebol e, pela qualidade técnica, receberiam a atenção de toda uma região do planeta (no caso, a América Latina).
Havia um tom de romantismo no artigo, mas o colunista não deixa de ter alguma razão. Ao contrário das rivalidades entre escoceses, ingleses, franceses, alemães, italianos, espanhóis, holandeses e outros europeus, Brasil e Argentina praticamente só discutem seriamente no futebol. Se é que uma discussão de futebol pode ser chamada de séria. Muitas das demais animosidades surgiram como derivações da briga futebolística.
Houve um período de rivalidade política forte durante a formação das nações sul-americanas, no século XIX. Mas nem a discussão a respeito da posse da Cisplatina (atual Uruguai) levou os dois países a conflitos bélicos significativos. Nos últimos anos, houve um ensaio de rivalidade econômica. Mesmo assim, essas questões não podem ser comparadas ao legado deixado pela Guerra dos 100 Anos entre ingleses e franceses, à duas guerras mundiais entre alemães e ingleses e franceses e até à briga cultural entre franceses e italianos para ver quem produz melhores vinhos e queijos.
No fundo, a rivalidade entre brasileiros e argentinos ganhou corpo com o futebol. Por isso, jogos como o dessa quarta são especiais. Só para citar um exemplo, Escócia x Inglaterra é um jogo cheio de rivalidade, mas, além do futebol, os dois países querem mesmo é mostrar quem é o melhor na Grã-Bretanha. Brasil x Argentina é o futebol pelo futebol. Não há supostas superioridades raciais em jogo (por mais que alguns tontos tentem fazer isso), tampouco supremacia econômica ou cultural implícita. São dois países querendo conferir qual joga melhor futebol. É tão simples quanto raro. Por isso mesmo, é fascinante.
Claro, não é só pelo alto teor futebolístico da rivalidade que um Brasil x Argentina é especial. Afinal, as duas seleções quase sempre estão entre as mais fortes do mundo, o que não se pode dizer de Holanda, Inglaterra, França, Escócia, Portugal e Espanha. Só Alemanha (do ponto de vista histórico, ainda pode-se considerar a atual fragilidade alemã uma oscilação natural) e Itália têm mais estabilidade técnica, mas os jogos entre esses países não carregam grandes rixas.
E daí caímos na velha e infrutífera discussão de quem é, historicamente, melhor. O Balípodo toma uma atitude suíça e se declara neutro. É questão de critério e o site considera o veredicto puramente individual. Para quem quiser embasar seus argumentos, vamos aos fatos.
A divisão de façanhas é bastante clara. Enquanto o Brasil domina as competições mundiais, a Argentina tem melhor sorte dentro da América do Sul. No continente, os platinos são soberanos. Em Copas Américas, são 14 títulos argentinos – mesmo número dos uruguaios – contra apenas 6 brasileiros. Da Libertadores, o Brasil conquistou 11 edições, oito a menos que os vizinhos do sul. Mas só os cinco títulos mundiais (mais que o dobro da Argentina) já são capazes de desvalorizar parte desses números.
Na verdade, o mais importante é relativizar essa comparação matemática. Até porque futebol não se limita a fórmulas pré-definidas e constantes. É injusto dizer que a Argentina só dominou o mundo em um período definido, entre o final dos anos 70 e os 80 do século passado. Depoimentos e registros dão conta que os platinos seriam favoritos destacados aos mundiais de 1942 e 1946 caso a Segunda Guerra Mundial não tivesse impedido as suas realizações. E isso talvez amenize o fato de, digamos eufemisticamente, haver sérias suspeitas a respeito da lisura dos resultados do Mundial sediado pelos argentinos em 1978.
Além disso, o fato de não ganhar algum título não pode ser considerado como definitivo para condenar alguém. Se grandes jogadores como Cruijff, Zico, Puskas, Di Stéfano e Zizinho nunca conquistaram um título, grandes seleções também não o fizeram. Na revelação de talentos, nossos vizinhos austrais sempre tiveram tanto destaque quanto o Brasil, se colocando à frente de Itália e Alemanha.
E, da mesma forma que o menor número de títulos mundiais não desvaloriza o futebol argentino, os resultados relativamente tímidos do Brasil na América do Sul não podem ser levados às últimas conseqüências. Ou alguém pretende levar a sério o fato de Pelé nunca ter levado o Brasil a um título de Copa América ou a seleção do Uruguai ter mais que o dobro de títulos continentais do Brasil?
Por isso tudo, independentemente de quem tenha mais história, Argentina e Brasil fazem um grande clássico. Talvez o maior do mundo.
O que vale mais, cinco mundiais e seis continentais ou dois mundiais e catorze continentais?
Gilberto Meazza e Ubiratan Leal
Imagens: CNN en Español, Radio Nederland, Diegomania, Sifup e Revelação Online