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3/05/04

Histórias

O jogo do dia em que Senna morreu


A imagem foi repetida algumas vezes durante esses últimos dias. Em 1º de maio de 1994, o Morumbi lotado de palmeirenses e são-paulinos se une para homenagear Ayrton Senna, morto horas antes em Ímola. César Sampaio se ajoelha no gramado e reza. Foi um caso raríssimo de minuto de silêncio respeitado pelos torcedores brasileiros. Mas esse jogo não merece ser lembrado apenas pela data de sua realização, pois foi emocionante e decisivo.

O Campeonato Paulista de 1994 foi disputado em pontos corridos. Após ficar várias rodadas na liderança, o Corinthians de Carlos Alberto Silva, Rivaldo, Marcelinho Carioca e Viola perdia terreno. Enquanto isso, Palmeiras e São Paulo estavam embalados e alcançaram os corintianos. A cinco rodadas do final, o Palmeiras ponteava com 37 pontos, seguido por Corinthians e São Paulo com 34. Como o São Paulo tinha uma partida a menos, poderia pular para 36.

No sábado, o Corinthians tentava mostrar que teria fôlego e ganhou do lanterna Ituano fora de casa, ficando a um ponto do alviverde (a vitória só valia dois pontos na época). Porém, a sensação geral era que o clássico entre Palmeiras e São Paulo do domingo definiria o campeão. Afinal, eram os dois melhores times do Brasil na época. O Palmeiras contava com Roberto Carlos, César Sampaio, Evair, Antônio Carlos, Edílson, Cléber, Rincón, Zinho e Mazinho. O São Paulo vivia os últimos anos da Era Telê, já sem Raí, mas com Leonardo, Zetti, Palhinha, Muller, Cafu, Euller, Júnior Baiano, André Luiz e Válber.

O jogo já havia começado quando ocorreu a cena que ficou tão famosa. O árbitro paraguaio Juan Escobar paralisou a partida com 5 minutos para o minuto de silêncio em homenagem a Ayrton Senna. Vários jogadores rezaram, mas a imagem mais marcante foi a do atleta de Cristo César Sampaio ajoelhado. As torcidas dos dois times deixaram as provocações de lado e cantam “olê, olé, olé, olá, Senna, Senna”.

De volta ao jogo, o São Paulo começou melhor. Rincón não estava bem e o Palmeiras não conseguia armar jogadas de perigo. Evair e Edílson (Edmundo estava afastado por indisciplina após reclamar de sua substituição na partida anterior, um 0x0 contra o mesmo São Paulo pelas oitavas-de-final da Libertadores) se perdiam no meio da defesa adversária, até porque Telê armara sua equipe com um líbero, Válber. Do outro lado do campo, Euller desorganizava a defesa esmeraldina com deslocamentos velozes. O gol são-paulino era iminente. E foi o próprio Euller a colocar o tricolor na frente, aproveitando um cruzamento de Leonardo.

Enquanto isso, Válber e Antônio Carlos trocavam hostilidades em campo. A briga de ambos não era nova e tinha novos episódios sempre que um ia ao ataque, permitindo um contato direto entre os dois defensores. No primeiro tempo, o zagueiro palmeirense agrediu o são-paulino, mas o árbitro não viu.

O Palmeiras estava sem ação. Ainda assim, conseguiu o empate com Edílson, concluindo uma cobrança de escanteio após um ataque esporádico. Pouco depois, o tricolor voltou a ficar em vantagem. Cléber rebateu mal um cruzamento de André Luiz e Muller finalizou sem chances para Gato Fernández.

No segundo tempo, o time de Luxemburgo tomou a iniciativa, mas sofria com a bem armada defesa são-paulina e os rápidos contra-ataques puxados por Leonardo e Euller. A partida já caminhava para o final e o resultado dificilmente mudaria. Até que ocorreu o lance que definiu a partida e, talvez, aquela edição do Paulistão.

Escanteio para o Palmeiras. Com pressa, Mazinho cobrou rápido. No entanto, Juan Escobar mandou o palmeirense voltar para permitir uma substituição no Palmeiras. Saiu o lateral-direito Cláudio e entrou o atacante Maurílio. A torcida alviverde não gostou e chamou o treinador do time de “Luxemburro”.

O ex-atacante do Paraná foi a campo com a instrução de se aproximar de Válber, eliminando a sobra da zaga são-paulina. Foi o que Maurílio fez, ficando ao lado do líbero adversário na cobrança do escanteio. Mazinho cruzou em direção a Válber. No entanto, o zagueiro tricolor não estava pensando na bola, mas em revidar a agressão de Antônio Carlos. Assim, ignorou o lance, saiu de sua posição e deu um soco no rosto do zagueiro palmeirense. Sem marcação, Maurílio chutou de primeira e empatou o jogo. Luxemburgo se virou para as arquibancadas e responde às provocações da torcida palmeirense.

Foi um lance único em que a atitude do árbitro, o posicionamento de Maurílio e o revide de Válber permitiram um empate que, até aquele momento, parecia improvável. Prova de como, às vezes, pequenos detalhes se unem para mudar o resultado de um jogo decisivo.


A partir daquele momento, o Palmeiras ganhou corpo, enquanto o São Paulo demonstrava as primeiras falhas defensivas. Para piorar a situação tricolor, Júnior Baiano se contundiu ao cair de mal-jeito e foi substituído por Nem. Ainda procurando seu posicionamento na defesa são-paulina, o zagueiro foi driblado por Maurílio, que partiu livre para o gol. Sem alternativa, Nem derrubou o atacante palmeirense a poucos metros da área. Evair cobrou com perfeição no canto de Zetti. Era a virada palmeirense a cinco minutos do final.

Sem reação, o São Paulo teve de se conformar com a derrota. Os 3x2 praticamente davam o título ao Palmeiras, que mantinha os 3 pontos de vantagem para o Corinthians e abria cinco para o São Paulo (voltando a lembrar que o tricolor tinha disputado uma partida a menos). Corintianos e são-paulinos até tentaram, mas a diferença não seria descontada.

O título palmeirense foi oficializado após um empate do São Paulo com o Novorizontino no Morumbi, em um extravagante 4x4. Horas depois, a torcida alviverde fazia sua festa no estádio do Santo André, onde o Palmeiras venceu o Ramalhão por 1x0. Mas todos sabiam que o título foi garantido naquela vitória por 3x2 sobre o São Paulo, realizada no dia em que Senna havia morrido.

*
Se serve como consolo, o São Paulo desclassificou o Palmeiras na Libertadores daquele ano. O já citado jogo de ida foi realizado em 27 de abril e terminou em 0x0. A partida de volta foi disputada quase três meses depois, em 24 de julho, uma semana depois da Copa dos Estados Unidos. O Palmeiras voltava de uma dispensável excursão à China e, sem ritmo e preparo adequado, foi derrotado pelo tricolor por 2x1. O São Paulo ainda passaria por Unión Española e Olímpia antes de cair, na final, para o Vélez Sársfield de Chilavert e Carlo Bianchi.

FICHA TÉCNICA
São Paulo 2 x 3 Palmeiras
Campeonato Paulista de 1994
Local:
Morumbi (São Paulo)
Público: 58.103 pagantes
Árbitro: Juan Escobar (Paraguai)
São Paulo: Zetti; Cafu, Júnior Baiano (Nem), Gilmar e André Luiz; Doriva, Válber, Palhinha (Juninho) e Leonardo; Euller e Müller. T: Telê Santana
Palmeiras: Fernández; Cláudio (Maurílio), Antônio Carlos, Cléber e Roberto Carlos; César Sampaio, Mazinho, Rincón (Amaral) e Zinho; Edílson e Evair. T: Vanderlei Luxemburgo
Gols: Edílson (28/1º), Euller (34/1º), Müller (35/1º), Maurílio (29/2º) e Evair (38/2º)
Cartão vermelho: Válber

Ubiratan Leal

Imagem: Evair e Palmeiras Online

Obs.: as fotos acima são puramente ilustrativas, pois não se referem ao Palmeiras x São Paulo de 1º de maio de 1994

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