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27/04/04

Variedades

O jogador mais importante de um time?


Fazer um texto homenageando os goleiros em 26 de abril – dia do goleiro – não é fácil. Todos o fizeram, sempre com o tom poético melancólico, dizendo que o último defensor é um solitário, que a grama não nasce onde ele pisa (só no Brasil, na Inglaterra tem relva aparadinha sob os pés dos goleiros), que um bom time começa com um bom nº 1 e que uma falha é capaz de desvalorizar toda uma campanha (vide Kahn na Copa 2002) ou uma carreira (Barbosa que o diga). Sem desmerecer quem preferiu essa abordagem, vamos diplomaticamente buscar outra saída: a de discutir porque o goleiro pode ser considerado o jogador mais importante de um time.

Claro que é uma questão discutível e depende muito da visão de futebol que cada um tem. De qualquer forma, a argumentação é simples. O goleiro é o jogador mais especializado de um time, o que dificulta sua substituição. Por isso seu desempenho tem influência tão grande no resultado final. Talvez um craque compense, mas nosso futebol doméstico não é abundante em craques já formados.

Em um campeonato de pontos corridos, os pontos colhidos pelos goleiros podem ter importância ainda mais decisiva na classificação final. Não adianta mais contar que o atacante artilheiro despertará na fase final e garantirá o título. É fundamental ter uma camisa 1 que segure um empate aqui e uma vitória ali e garanta os pontos para seu time durante o campeonato inteiro.

É impressionante o número de pontos garantidos por defesas difíceis de bons goleiros ao longo de um campeonato em dois turnos. São mais decisivos que as finalizações da maior parte dos artilheiros ou que as assistências dos armadores. Até porque, em uma determinada partida, o artilheiro está mal, mas outro atacante resolve. Se o armador está mal, outro jogador pode decidir em uma bola parada. O goleiro não. Ele não tem quem o cubra. Bons zagueiros ajudam, mas é apenas um apoio, não a substituição direta.

Por exemplo, Danrlei garantiu um ponto ao Fluminense nesse domingo, contra o Coritiba. Se tiver outras 15 atuações desse nível (em um campeonato de 46 partidas não é estatisticamente improvável), poderá, entre vitórias e empates, ter dado 20 pontos ao tricolor carioca ao final do campeonato. Dificilmente alguém faria o mesmo, nem Romário (na conta não entram todos os gols do baixinho, mas os gols que só ele e outros poucos centroavantes fariam). Claro, uma série de frangos podem ter um efeito extremamente negativo na classificação final.

Não é simplesmente o batido e pouco convincente “um grande time começa por um grande goleiro”. Isso é bobagem. Vários esquadrões não eram bem representados no gol. E vários bons arqueiros tinham diante de si uma equipe frágil e não evitaram o desaire. É apenas colocar o goleiro como uma das prioridades de um time pelos pontos que ele tem condições de garantir. Saber que aquele sujeito pode ser mais importante que o artilheiro e deveria ser valorizado como tal.

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A primeira vez que ouvi esse argumento foi de um comentarista da RTPi (TV portuguesa), explicando porque considerava Preud’Homme o melhor jogador do Benfica. Depois, li em uma entrevista de um antigo treinador argentino, que, antes de aceitar algum convite para treinar um clube, queria saber se teria um bom goleiro no elenco. Desculpe-me por não lembrar o nome de ambos, mas deixo a referência.

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Na Copa de 2002, alguns comentaristas chamaram o goleiro Kahn de “o craque do gol” pelas defesas que levaram a Alemanha à final. O apelido foi esquecido depois da falha do goleiro no primeiro gol brasileiro. Ainda assim, por que as pessoas têm tanto medo de usar a palavra “craque” para um goleiro?

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A jogada de Ronaldinho Gaúcho e a conclusão de Xavi no segundo gol do Barcelona sobre o Real Madrid foram maravilhosas e definiram a vitória dos catalães. Mas será que as defesas de Valdés não foram tão decisivas quanto esse lance pontual?

Ubiratan Leal

Imagem: Copa 94 site não oficial

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